Raoni, que terminava de escrever o cabeçalho no quadro negro, virou-se devagar, segurando o giz. Quando seus olhos pousaram no "novo" Daniel — sem barba, cabelo volumoso, jaqueta corta-vento em tons vibrantes de rosa e turquesa e a postura descolada —, o professor quase deixou o giz cair no chão. Uma faísca de choque e puro encantamento atravessou o olhar de Raoni.
— Com licença, professor... sou o aluno novo — disse Daniel, usando um tom leve e brincalhão.
Raoni pigarreou, tentando recompor a máscara de autoridade pedagógica enquanto fechava a porta para que os alunos do corredor não ouvissem.
— Meu Deus, Daniel... — sussurrou Raoni, aproximando-se com passos lentos, baixando o tom de voz para que apenas o operário ouvisse. — Você... você está exatamente igual ao garoto de quinze anos atrás. É como voltar no tempo. É assustadoramente lindo.
A proximidade entre os dois fez o ar na sala ficar subitamente denso e quente. Daniel sentiu o peito arfar ligeiramente sob a t-shirt branca. Raoni manteve os olhos fixos na boca lisa e recém-barbeada de Daniel, o desejo e a tesão reprimida faiscando nos olhos de ambos. Era uma atração magnética e dolorosa: queriam se entregar àquele sentimento reencontrado, mas estavam acorrentados pelas circunstâncias. Daniel era o aluno infiltrado; Raoni, o professor regente. Um deslize ali destruiria o segredo e a vida dos dois.
— Foca no trabalho, professor... — murmurou Daniel, com um sorriso de canto provocante, embora suas pernas estivessem bambas. — Se a gente não se controlar, vão descobrir tudo antes da chamada.
— Tem razão — respondeu Raoni, engolindo em seco e dando dois passos para trás, ajeitando o terno. — Podes entrar. Escolha uma carteira livre.
Ao cruzar o limiar da sala, Daniel deu de cara com a configuração perfeita do seu "quadrado amoroso". Na primeira fileira, perfeitamente ereto e compenetrado, estava Thiago, ajeitando discretamente o aparelho auditivo e encarando Daniel com olhos brilhantes de admiração. Na última carteira, largado sobre a cadeira e girando uma caneta entre os dedos com ar de provocação, estava Maurício, que não tirou os olhos da jaqueta e do corpo de Daniel nem por um segundo. E na frente de todos, ditando o ritmo, o Professor Raoni.
— Turma, este é o Daniel, nosso novo aluno — anunciou Raoni, adotando um tom severo e profissional, embora sua voz tenha oscilado ligeiramente ao pronunciar o nome. — Tratem de acolhê-lo bem.
Daniel sentou-se em uma carteira vaga no meio da sala. A aula de Literatura começou e, a cada pergunta que Raoni lançava ao quadro sobre romantismo e figuras de linguagem, uma troca de olhares carregada de cumplicidade e eletricidade velada acontecia entre o professor e o "aluno novo".
Rapidamente, Daniel virou o centro das atenções. Quando Raoni fez uma pergunta complexa sobre a estrutura dos versos de Gonçalves Dias — algo que a garotada de dezoito anos olhava como se fosse grego —, Daniel levantou a mão com naturalidade e respondeu com a maturidade e o conhecimento de quem já viveu muito mais da vida. Os alunos se viraram para olhá-lo, impressionados.
— Muito bem colocado, Daniel — disse Raoni, com um brilho orgulhoso nos olhos. O professor pegou um livro sobre a mesa. — Por favor, venha até a frente e leia este trecho para a turma.
Daniel levantou-se, ajustou a jaqueta e caminhou até a mesa do professor. Seus dedos roçaram nos de Raoni ao pegar o livro, enviando uma descarga elétrica pelo corpo de ambos. Daniel virou-se para a sala, respirou fundo e começou a ler.
A sua voz — grave, aveludada, madura e cheia de charme — ressoou pelo espaço. A sala inteira entrou em um silêncio absoluto. Na primeira fileira, Thiago parecia flutuar, apoiando o queixo nas mãos, completamente hipnotizado. Na última carteira, Maurício parou de balançar a cadeira, abrindo um sorriso surpreso e babando pelo novato que tinha tanto estilo quanto presença.
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No intervalo, o pátio virou um verdadeiro caldeirão. Daniel pegou seu refrigerante e tentou se enturmar perto de um grupo de alunos que conversava sobre música e cultura pop.
— Pois é, a galera de hoje em dia não sabe o que é som de verdade — comentou um dos garotos.
Daniel, empolgado em querer demonstrar conhecimento "jovem", soltou sem pensar:
— Pô, totalmente! É tipo aquele grupo, sabe? O *Rouge*! Menino, *Ragatanga* marcou a minha época, era uma 'chuchu beleza'!
O grupo parou no mesmo instante, encarando Daniel com olhar perplexo.
— *Rouge*? 'Chuchu beleza'? Que gíria é essa, cara? — perguntou uma garota de óculos escuros. — Rouge é do tempo das nossas mães!
Um frio congelante subiu pela espinha de Daniel. Ele arregalou os olhos, percebendo o mico gigantesco que acabou de pagar, e tentou consertar às pressas:
— Ah, não, pô! É que... é que eu tava navegando no YouTube outro dia, tá ligado? Aí caiu no meu algoritmo esse clipe antigo do Rouge! Eu achei mó massa, sinistro! Quem não conhece *Ragatanga*?
Para testar a desculpa, Daniel não teve dúvida: mandou ver nos passos coreografados do refrão — *"Aserehe ra de he ra de hebe tu de hebere seibiunouba mahabi..."* —, jogando as mãos para o ar e requbrando com uma desenvoltura tão divertida e engraçada que a garotada começou a rachar de rir e a aplaudir.
Em questão de minutos, uma aluna sacou o celular, gravou o "novato estiloso" dançando *Ragatanga* com a jaqueta corta-vento e postou o vídeo. Antes do fim do intervalo, a dancinha retrô do Daniel já tinha viralizado nos grupos da escola e virado tendência no TikTok.
No entanto, a vida de jovem não era só dança. Quando os colegas tentaram adicioná-lo no grupo do WhatsApp da turma e pediram seu @ do Instagram, a comédia se instalou.
— Qual é seu Insta, Dani? — perguntou um garoto.
— Insta...? Ah, meu "insta-grau"? Não, eu não uso essas parada de mandar foto instantânea não... — enrolou Daniel, se atrapalhando todo.
— Como assim, cara? Tu não tem Instagram nem TikTok? Tu vive em 1990? — gargalhou Maurício, aproximando-se por trás e dando um tapa amigável no ombro de Daniel, observando o "coroa disfarçado" com um olhar cheio de intenção.
— É... é que eu passei por um 'detox digital', sacou? — inventou Daniel, suando frio. — Mas vou criar hoje mesmo!
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Ao chegar em casa no final da tarde, exausto do primeiro dia de aula e do turno da fábrica, Daniel desabou no sofá. A amiga Bete já o esperava com o notebook e o celular na mão.
— Bete, eu preciso de redes sociais urgente! O pessoal da escola achou que eu sou um homem das cavernas! — desabafou Daniel, tirando os tênis.
— Calma, meu jovem operário! A Bete resolve tudo! — riu a vizinha.
A noite virou uma verdadeira maratona de criação de perfil. Bete ensinou Daniel a fazer poses descoladas para a foto de perfil: olhar meio de lado, sorriso de canto, iluminação boa e o filtro ideal para dar aquele ar estético e jovem.
— Nada de foto segurando peixe ou no espelho do banheiro com o flash ligado, ouviu Daniel? — alertou Bete, ajustando a foto no Instagram. — Agora, a bio! O que a gente coloca?
— Coloca assim: "Daniel. 18 anos. Curtindo a vida, música boa e novas amizades" — ditou Daniel, animado.
Depois de aprender o que era *feed*, *reels*, *stories* e como mandar figurinhas no WhatsApp, Daniel finalmente estava pronto e digitalizado. Ao postar sua primeira foto usando a jaqueta colorida e o novo visual, o primeiro *like* veio em menos de um minuto: uma curtida de Maurício, seguida por uma mensagem carinhosa no privado de Thiago e uma visualização discreta, mas constante, do perfil do Professor Raoni.
Daniel sorriu para a tela do celular, percebendo que sua vida dupla estava só começando — e prometia ser uma verdadeira montanha-russa de emoções.
enquanto isso Maurício chegava em casa, pega o celular, fica observando as fotos novas do Daniel...
"Cheguei em casa fui direto para o meu quarto peguei um óleo que eu tenho e tirei a roupa, meu pau estava até doendo de tanto tempo duro, passeio o óleo ali na cabeça e um pouco no corpo do meu pau e fui batendo uma punheta... Estava pensando naquela boca me chupando e pegando no meu pau ali no metrô... Gozei muito forte expirando longe a porra."
na hora pensei..."Eu preciso comer essa puta custe o que custar"
CONTINUA...