"Estou indo hoje", Marina diz, a voz ainda presa no sono. "Liliana falou que o horário das oito é o melhor, tem menos gente."
Rafael volta à mesa e senta-se com o café. Observa-a pegar a mochila que separou na noite anterior — legging preta, camiseta cinza de mangas curtas, tênis branco. Roupas normais, pensa ele, do tipo que qualquer pessoa vestiria para treinar. Nada que chame atenção. Nada que esconda algo. Apenas roupas de academia.
"Vai de autocarro?", ele pergunta.
"Uber. Volto em duas horas." Marina beija o alto da cabeça dele, pegando as chaves do gancho perto da arca-frigorifica. O som da porta fechando ecoa pelo apartamento, e Rafael fica só com o tilintar da colher dentro da caneca e a luz da manhã que esquenta o chão de cerâmica.
Duas horas depois, o telemóvel de Rafael vibra na mesa de trabalho. Uma mensagem de Marina.
Marina (10:00): amor, cheguei na academia
Marina (10:00): o personal é um negão enorme kkkkk
Rafael (10:01): grande como?
Marina (10:01): tipo, enorme. braço maior que minha coxa
Rafael (10:02): ele te atendeu bem?
Marina (10:02): sim sim, super atencioso. já marquei terça e quinta
Rafael larga o telemóvel e volta ao trabalho. O dia segue com reuniões por videochamada, planilhas, o ruído constante do ventilador do notebook. Às 12:00, Marina entra no apartamento com o rosto vermelho, o cabelo solto e úmido de suor. Deixa a mochila no banco da entrada e vai direto ao banheiro.
Quando sai, enrolada numa toalha, senta-se na ponta da cama ao lado de Rafael, que folheia uma revista de engenharia.
"Amor", ela começa, secando o pescoço com a ponta da toalha. "O personal, o Rodrigo, falou uma coisa hoje e eu queria te contar."
Rafael baixa a revista. "Fala."
"Ele disse que pra treinar pesado, o ideal é usar shortinhos curtos. E sem calcinha por baixo." Marina diz isso com a naturalidade de quem relata uma recomendação sobre postura ou hidratação. Os olhos castanhos estão limpos de qualquer dupla leitura. "Disse que a calcinha atrapalha o movimento do quadril e que short curto deixa a pele respirar."
Rafael pisca. Uma vez. Depois outra. O ventilador de teto gira acima deles com um zumbido preguiçoso, e o cheiro de sabonete que sai do cabelo dela se mistura com o café velho na xícara do criado-mudo.
"Ele falou isso no primeiro dia?", Rafael pergunta, a voz controlada, o tom de quem pergunta sobre o clima.
"Logo depois do aquecimento. Mostrou uns vídeos no telemóvel dele de atletas profissionais treinando assim. Faz sentido, né? A Liliana treina com shortinho também, ela me disse semana passada que se sente mais leve."
Rafael observa Marina levantar-se, abrir o guarda-roupa e começar a separar peças para o almoço. Os movimentos dela são práticos, sem hesitação. Ela não procura aprovação no rosto dele, não testa o terreno. Está apenas compartilhando uma informação, do mesmo jeito que contaria que o pão na chapa ficou bom ou que o autocarro atrasou.
Dentro de Rafael, algo se aperta. Não no peito, não no estômago — mais fundo, num lugar que ele não consegue nomear. Ele pensa no tamanho daquele homem, no espaço que provavelmente ocupa dentro de uma sala de musculação, na facilidade com que certas pessoas usam a autoridade do cargo para empurrar fronteiras. Já viu isso antes, em outros contextos, com outras pessoas. A voz de treinador que se transforma em outra coisa.
Mas Marina está ali, escolhendo uma blusa branca, cantarolando baixinho um trecho de uma música que tocou na academia. A ingenuidade dela é uma coisa antiga, estrutural, daquelas que vêm de berço e nunca foram quebradas porque o mundo nunca lhe deu motivo para desconfiar. Rafael conhece isso desde o primeiro encontro, quando ela acreditou sem hesitação que o restaurante tinha fechado por reforma quando, na verdade, ele havia reservado o lugar inteiro para o jantar.
"Você acha que devo comprar uns shortinhos então?", Marina pergunta, voltando-se para ele com uma camiseta na mão.
Rafael engole. A mandíbula trava por um segundo, os dentes se pressionando. Depois solta devagar.
"Se vai te ajudar no treino...", ele começa, e a voz sai mais grave do que pretendia. Tosse, como se a garganta estivesse seca. "Se você se sente confortável, faz. É seu corpo, seu treino."
Marina sorri — um sorriso aberto, daqueles que mostram os dentes de baixo — e volta a atenção para o guarda-roupa. "Vou pedir uns na internet. O Rodrigo até me mandou link de uma loja que ele indica pros alunos."
Rafael pega o telemóvel. A tela brilha com uma notificação de e-mail de trabalho, mas os olhos não se movem. Ele olha para as costas de Marina, para a toalha que escorrega um centímetro no ombro dela, e pensa naquela recomendação — short curto, sem calcinha, no primeiro dia, de um homem grande que ela acabou de conhecer.
O ventilador continua girando. Marina pendura uma blusa no cabide e fala sobre o leg press que aprendeu a usar. Rafael escuta, responde nos lugares certos, concorda com a cabeça. Por dentro, no lugar que não consegue nomear, ele já montou a cena: o personal, o ginásio, a voz que recomenda, a aluna que acredita.
Mas nada disso sai pela boca. O que sai é: "Que bom que gostou do treino, amor. Terça a gente vê como vai."
Marina concorda, fecha o guarda-roupa e sai do quarto rumo à cozinha, os pés descalços batendo suavemente no chão de cerâmica. Rafael fica na cama, o telemóvel na mão, a tela já apagada. Olha para o teto. O ventilador marca o tempo com seu zumbido constante, e em algum lugar entre a razão e o instinto, ele decide que vai apoiar a esposa. Vai apoiar porque é assim que ele é — compreensivo, amigo, o marido que não sufoca, que não proíbe, que confia.
Mesmo sabendo, no lugar que não consegue nomear, que confiança e ingenuidade às vezes caminham em direções opostas.
Curta uma leitura sem interrupções.
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Por Tuga069
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