O calor da tarde não perdoava nem a pedra fria da Casa Grande. Eu, Dona Eulália, jazia recostada na chaise longue da varanda, abanando-me com um leque de marfim, sentindo o suor escorrer por entre os vales dos meus seios fartos, comprimidos pelo espartilho que a etiqueta exigia, mesmo na solidão daquele fim de mundo.
Eu era a Sinhá. A esposa legítima. Branca como o leite talhado, macia como o pão fresco, e redonda como as frutas que amadureciam no pomar. Tinha dado ao Coronel Matias dois herdeiros varões, cumprindo meu dever sagrado perante a Igreja e a sociedade.
E qual era minha recompensa? O abandono.
Matias não me procurava há meses. Dizia-se cansado, preocupado com a safra do café. Mentiras. Eu sabia, e as paredes da senzala sabiam, que o Coronel gastava seu vigor noturno caçando as negras mais jovens, as "peças" novas que chegavam. Ele se lambuzava na pele de ébano, buscando nelas a vitalidade que dizia faltar em minha "carne de esposa". Eu era a santa do altar; elas, o demônio da cama.
Mas naquela tarde, enquanto o casarão dormia a sesta, meus olhos pousaram no terreiro.
Lá estava Bento.
Não era um moleque. Era um homem feito, de ombros largos que brilhavam sob o sol a pino como se tivessem sido untados com óleo de peroba. Ele rachava lenha. O machado subia e descia com uma violência rítmica, e cada golpe parecia ecoar no vazio do meu ventre.
A camisa de algodão encardido estava aberta, revelando um peito de aço, esculpido pelo trabalho brutal que Matias lhe impunha. Bento não tinha a finesse dos cavalheiros da corte, mas tinha algo que faltava ao meu marido: uma força primitiva, uma virilidade que exalava cheiro de terra e perigo.
Uma ideia profana, nascida do tédio e da vingança, floresceu em minha mente.
Chamei a mucama, que cochilava no canto.
— Maria — sussurrei, para não despertar a casa. — Vá ao terreiro. Diga ao negro Bento que a Sinhá precisa que ele suba. Tenho um baú de jacarandá no quarto de costura que precisa ser movido. Agora.
A menina estranhou, mas obedeceu.
Minutos depois, ouvi os passos pesados e descalços no assoalho encerado. Bento parou à porta do quarto de costura, a cabeça baixa, o chapéu de palha nas mãos grossas.
— A Sinhá mandou chamar? — a voz dele era um alta e forte.
— Entre, Bento. E feche a porta. Não quero correntes de ar.
Ele obedeceu. O quarto era pequeno, abafado, cheirando a lavanda e tecido guardado. Eu estava de pé, virada para a janela, fingindo observar o horizonte.
— O tal baú, Sinhá...
— Não há baú nenhum, Bento — virei-me lentamente.
Ele levantou os olhos, confuso, e pela primeira vez encarou a patroa. Ele viu o suor no meu colo, a respiração ofegante que fazia o tecido do meu vestido esticar sobre minhas curvas generosas. Ele viu a mulher, não a senhora.
— Sinhá... se o Coronel souber... — ele recuou um passo, o medo da chibata lutando contra o instinto do macho.
— O Coronel está ocupado demais sujando a alma dele, Bento. E eu... — dei um passo à frente, diminuindo a distância entre o meu mundo e o dele. — Eu estou cansada de ser apenas a mãe dos filhos dele.
Levei a mão às costas e comecei a desatar os laços do vestido. O tecido pesado caiu aos meus pés, deixando-me apenas com as anáguas e o espartilho que realçava a brancura excessiva da minha pele e o volume das minhas coxas.
Bento engoliu em seco. O olhar dele percorreu meu corpo como se estivesse diante de um banquete proibido, um doce que ele seria açoitado apenas por olhar, quanto mais por provar.
— Dizem que vocês têm força, Bento — murmurei, aproximando-me dele até sentir o calor que emanava daquele corpo gigante. — Dizem que aguentam o peso do mundo nas costas. Será que aguentam o peso de uma mulher de verdade?
— Sinhá Eulália... a senhora é branca... a senhora é proibida...
— Justamente — toquei o peito dele. A pele era quente, dura como pedra. O contraste da minha mão pálida e macia sobre o peito negro e suado dele foi o estopim. — Eu ordeno, Bento. Esqueça que sou sua dona lá fora. Aqui dentro... eu quero que você me possua.
Ele não precisou de mais ordens. A natureza falou mais alto que a hierarquia.
Bento me tomou nos braços como se eu fosse feita de plumas. Minha gordura, que Matias desprezava, para Bento era abundância. Ele apertou minhas nádegas com as mãos calejadas, rudes, marcando minha pele sensível.
Ele me colocou sobre a mesa de costura, afastando os tecidos.
O que se seguiu não foi o amor cortês dos romances franceses. Foi uma colisão. A alvura da minha pele sendo invadida pela escuridão dele. Ele era grande, muito maior que Matias, uma força da natureza que me preencheu de tal forma que eu tive que morder o próprio punho para não gritar e acordar a casa inteira.
— Isso, negro... — eu gemia, enquanto ele me estocava com a fúria de quem desconta anos de servidão naquele ato de posse. — Use a Sinhá... vingue-se do seu senhor...
Ele suava sobre mim, o cheiro dele, almiscarado e forte, misturando-se ao meu perfume de rosas. Ele beijava meus seios fartos com uma fome devoradora, venerando cada curva que meu marido ignorava.
Naquele quarto abafado, a escravidão se inverteu. Eu era dele. Minha carne branca tremia e se entregava à potência daquele homem que, lá fora, não valia nada, mas ali dentro, era o Dono.
Quando o êxtase veio, foi avassalador. Eu agarrei as costas largas dele, arranhando a pele escura, enquanto ele derramava sua semente dentro da esposa do Coronel, selando nosso pacto de silêncio e prazer.
Ao final, compus-me. Bento, ainda ofegante, recuou, voltando a baixar a cabeça, mas havia um brilho diferente em seu olhar. Não mais submisso, mas cúmplice.
— Pode ir, Bento — disse eu, abanando-me novamente. — E volte amanhã. Tenho... outros móveis para mover.
Ele saiu.
À noite, no jantar, o Coronel Matias reclamou do calor e da comida. Eu sorri, cortando meu pedaço de carne com uma serenidade que o perturbou. Ele não sabia, mas a "santa" que ele deixava em casa agora tinha um segredo. E o sabor daquele segredo era muito melhor do que qualquer título de nobreza.
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