O CALOR QUE TRANSBORDA

A música grave vibrava pelas paredes do bar como um coração inquieto. A luz vermelha era quase líquida, escorrendo pelas superfícies, mergulhando tudo em um brilho quente e indecifrável. A mulher gótica respirava devagar, apoiada na mesa, como se já sentisse que algo estava prestes a acontecer.

O ar mudou antes mesmo de ela perceber.

A presença da Pomba Gira surgiu como um toque invisível: quente, envolvente, dominando o ambiente com uma naturalidade assustadora.
Quando ela finalmente se materializou entre as sombras, parecia que o mundo inteiro ficou menor, contido dentro da alma delas duas.

A gótica não disse nada.
A entidade sorriu — um sorriso que conhecia segredos que ninguém devia saber.

Ela se aproximou.

Cada passo fazia o chão vibrar em expectativa.
Cada movimento deixava no ar um perfume quente, doce e denso.

Quando a Pomba Gira tocou a mesa com a ponta dos dedos, o ambiente reagiu — como se aquela madeira escura tivesse pulsado sob a mão dela.
Um brilho úmido começou a se formar ali, exatamente no centro da mesa, surgindo do nada, crescendo devagar.

A gótica observou, sentindo o próprio corpo responder como se aquele fenômeno estivesse ligado a ela.

O líquido escuro, quente, brilhante, começou a descer pela superfície polida.
Escorria em filetes lentos, hipnóticos, como se carregasse o próprio calor da entidade.
Descia pela borda da mesa, caindo no chão em gotas que pareciam vivas, pulsando com o mesmo ritmo do desejo silencioso entre elas.

A Pomba Gira inclinou o corpo, aproximando o rosto do ouvido da gótica.

— Quando o desejo é forte… ele se manifesta — murmurou com uma voz profunda, quente, que parecia tocar a pele.

Um arrepio percorreu a coluna da gótica.
O ar ficou ainda mais denso, quente, quase inacreditavelmente vivo.

A entidade passou os dedos pelo líquido que escorria e, ao levantá-los, eles brilhavam vermelhos, como se refletissem a luz interna dela.

— Nada aqui é por acaso — disse. — Nem o que escorre… nem o que desperta.

Ela tocou o queixo da gótica com delicadeza, conduzindo seu rosto para que olhasse diretamente nos olhos dela.
O mundo ao redor sumiu.
Só existiam as duas.

— Você sente, não sente? — perguntou a Pomba Gira.

E a gótica sentiu: o arrepio, o calor, o chamado, o magnetismo que parecia rasgar cada barreira interna, trazendo à tona tudo o que ela evitava encarar.

— Então deixa — sussurrou a entidade. — Deixa transbordar.

A luz vermelha ficou mais intensa.
O líquido continuou a escorrer, marcando o ambiente como um espelho simbólico do que acontecia entre elas duas.

E, pela primeira vez naquela noite, a gótica não tentou esconder o que queimava dentro dela.

Foto 1 do Conto erotico: O CALOR QUE TRANSBORDA


Faca o seu login para poder votar neste conto.


Faca o seu login para poder recomendar esse conto para seus amigos.


Faca o seu login para adicionar esse conto como seu favorito.


Twitter Facebook



Atenção! Faca o seu login para poder comentar este conto.


Contos enviados pelo mesmo autor


250518 - Possessão - Categoria: Fantasias - Votos: 1
248239 - Mística - Categoria: Fantasias - Votos: 2
247817 - Quando a Sombra Tocou - Categoria: Fantasias - Votos: 7
247741 - O Pacto Queimava - Categoria: Fantasias - Votos: 9

Ficha do conto

Foto Perfil amandinhaskp
amandinhaskp

Nome do conto:
O CALOR QUE TRANSBORDA

Codigo do conto:
252609

Categoria:
Poesias/Poemas

Data da Publicação:
20/01/2026

Quant.de Votos:
1

Quant.de Fotos:
1