Não porque fosse preguiçosa — era o tipo de mulher que acordava às seis da manhã num sábado e lavava a casa inteira antes do café. Detestava supermercado porque supermercado exigia paciência, e a paciência de Rose, nos últimos meses, havia migrado para outras áreas da vida.
Áreas bem mais interessantes.
Willy havia saído cedo para um torneio de golfe com os sócios — coisa que ela fingia achar tediosa mas na verdade achava conveniente. Antes de ir, ele passou pela cozinha, pegou o café que ela havia deixado na bancada e disse, com aquele sorriso lateral que ela amava:
— A geladeira está vazia, amor.
— Eu sei.
— Vai resolver hoje?
Ela estava de costas para ele, mexendo no celular. Virou o rosto por cima do ombro.
— Depende do que aparecer.
Ele riu, bebeu o café de uma vez, beijou o pescoço dela demorado — da forma que dizia *sou teu e você é minha e isso não muda com nada* — e saiu.
Rose ficou parada por alguns segundos com o cheiro dele ainda no ar.
Depois foi se arrumar.
Escolheu a calça legging preta — a que deixava o bumbum com vida própria, como Willy dizia. Uma blusa branca de algodão, levemente transparente, sem sutiã. Cabelo solto, aquela cascata preta que descia até o meio das costas. Sandália rasteira, batom rosé, perfume no pulso e no pescoço.
*Para ir ao supermercado*, ela pensou, se olhando no espelho.
Sorriu para o próprio reflexo.
*Claro.*
O supermercado era grande, daqueles que têm iluminação forte demais e música ambiente que ninguém pediu. Rose pegou o carrinho e começou pelo corredor de hortifruti com a lista no celular e a cabeça já planejando o jantar de domingo.
Foi no corredor de frios que ela viu Caio pela primeira vez.
Ele estava organizando as prateleiras do lado direito — aquelas embalagens de frios que ninguém nunca consegue achar no lugar certo. De costas para ela, Rose teve tempo de notar os ombros largos dentro do uniforme verde, a cintura fina, o movimento preciso e tranquilo de alguém que faz aquilo bem e não precisa se esforçar para parecer que está fazendo.
Então ele se virou para pegar mais caixas no carrinho de reposição.
E Rose parou no meio do corredor.
Não foi a beleza — embora ele fosse bonito de um jeito desarmado, com aquela pele morena, o queixo levemente sombreado e um sorriso que surgiu naturalmente quando os olhos dos dois se encontraram, como se sorrissem para qualquer pessoa assim, sem intenção, sem cálculo. Era justamente isso. A ausência de cálculo.
Vinte e sete anos no máximo. Talvez menos.
— Posso ajudar a senhora?
A senhor* Rose sentiu um formigamento que não combinava com a senhora.
— Estou procurando o requeijão — disse ela, com uma voz mais calma do que se sentia.
— Aqui, ó. — Ele caminhou dois passos, pegou uma embalagem sem nem precisar olhar e entregou. Os dedos deles não se tocaram, mas quase. — Esse aqui é o melhor. O cremoso mesmo.
— Obrigada. — Ela olhou para a embalagem, depois para ele. — Caio? — Leu no crachá.
— Isso. — O sorriso de novo, largo, fácil. — A senhora é daqui do bairro?
— Sou. Mas pode me chamar de Rose.
Ele a olhou de um jeito diferente depois disso — não desvergonhado, não invasivo, mas honesto. O olhar de quem olha de verdade.
— Rose. — Experimentou o nome como se estivesse vendo como ficava na boca. — Posso ajudar com mais alguma coisa?
Ela demorou quarenta e cinco minutos para fazer uma compra de vinte itens.
Não era coincidência que Caio aparecia nos corredores onde ela estava. Ele aparecia, ajudava com algo que ela fingia não conseguir pegar na prateleira de cima — o que era levemente ridículo, já que ela tinha metro e sessenta e sete e o item estava completamente ao alcance — e a conversa fluía com aquela naturalidade que Rose havia esquecido que existia fora do casamento.
Ele era engraçado. Inteligente de um jeito que aparecia nas entrelinhas, não no currículo. Fazia perguntas reais, não conversa fiada. E olhava para ela — não para o bumbum, não para a blusa levemente transparente — olhava para ela enquanto ela falava, como se o que ela dizia importasse.
Rose não estava acostumada com isso e percebeu, com uma espécie de susto tranquilo, que aquilo a excitava mais do que qualquer outra coisa.
No caixa, ela estava colocando as compras na esteira quando sentiu uma presença ao lado.
— Posso te dar uma mão?
Caio estava ali, sem o carrinho de reposição agora, claramente fora da sua função imediata.
— Você não vai me deixar ir embora, né? — disse ela, sem se virar.
— Não se você não quiser.
Ela virou.
Ele estava perto. Não invasivamente perto — mas perto o suficiente para que ela sentisse o cheiro dele, alguma coisa limpa com fundo amadeirado, provavelmente um desodorante bom demais para um salário de repositor.
— Eu tenho marido — disse ela.
— Eu sei — respondeu ele, sem piscar.
— E ele sabe que estou aqui.
Uma pausa pequena. Os olhos dele não saíram dos dela.
— Sabe de tudo?
Rose sentiu o calor subir pelo pescoço. Disse, com a voz muito quieta:
— De tudo.
O estacionamento estava quase vazio naquele final de manhã de sábado. Rose abriu o porta-malas do carro e começou a colocar as sacolas enquanto Caio carregava o resto do carrinho — ele havia simplesmente pego o carrinho, sem pedir permissão, e ela havia simplesmente deixado.
— Você tem horário para sair? — perguntou ela, sem olhar para ele.
— Saio ao meio-dia. — Uma pausa. — São onze e quarenta.
Rose fechou o porta-malas. Ficou parada com a mão na maçaneta traseira, de costas para ele, sentindo o sol no rosto e um calor muito diferente do sol descendo pela espinha.
A mão dele pousou levemente na cintura dela.
Não apertou. Não puxou. Apenas pousou — uma pergunta física, discreta, que dizia posso? sem precisar de palavras.
Rose não se moveu.
O que para ele foi resposta suficiente.
A mão desceu devagar, encontrou a curva do quadril, e Caio se aproximou até que ela sentiu o calor do corpo dele nas costas. Seus lábios tocaram a nuca dela — o lugar exato onde o cabelo terminava, onde o perfume era mais intenso — e Rose fechou os olhos e apoiou levemente a testa no vidro do carro.
— Você tem certeza? — ele disse contra a pele dela.
— Faço isso há dois anos — respondeu ela. — Tenho certeza de tudo.
Ele sorriu — ela não viu, mas sentiu nos lábios contra o pescoço.
As duas mãos agora na cintura, puxando levemente para trás, e Rose sentiu. Sentiu que ele estava duro, e que estava tentando não ser óbvio quanto a isso, o que ela achou inexplicavelmente charmoso.
— Não tenho como te convidar aqui — disse ela.
— Tenho um apartamento. — A boca dele no ouvido agora. — Dez minutos daqui.
Rose respirou fundo.
Depois tirou o celular do bolso e mandou uma mensagem para Willy.
*Vou demorar um pouco mais. ??*
A resposta veio em segundos.
Aproveita. ??
O apartamento de Caio era pequeno e honesto — aquele tipo de lugar que revela mais sobre uma pessoa do que qualquer conversa. Poucos móveis, bem cuidados. Uma prateleira de livros que ela não esperava. A janela aberta com a brisa de sábado entrando e movendo levemente a cortina.
Ele havia chegado dez minutos antes dela para trocar de roupa — uma camiseta cinza e uma bermuda — e quando abriu a porta estava descalço, o cabelo ainda úmido de uma lavagem rápida.
Rose entrou carregando apenas a bolsa.
Ele fechou a porta.
Ficaram se olhando por um segundo que durou mais do que um segundo — aquele momento específico em que os dois sabem o que vai acontecer e estão escolhendo, conscientemente, deixar acontecer.
Caio veio até ela devagar. Pegou o rosto dela com as duas mãos — grandes, quentes — e a beijou.
Não foi um beijo de apresentação. Foi um beijo de chegada.
Rose tinha quarenta e dois anos e sabia exatamente o que queria. Essa era uma das poucas vantagens da idade que ela admitia em voz alta: o fim da performatividade. Ela não precisava mais fingir que não queria, agir como se estivesse sendo convencida, montar o teatro da resistência que havia aprendido quando era jovem e achava que era assim que devia ser.
Ela queria. Ponto.
E Caio parecia entender isso intuitivamente — não tratava ela como conquista, não tratava como favor. Tratava como encontro. Dois adultos num sábado de sol.
Quando as mãos dele desceram pelo corpo dela e encontraram as curvas que a calça legging mal continha, ele soltou um som baixo que não era performance. Era genuíno.
— Meu Deus — disse ele contra a boca dela.
— Pode falar — disse ela.
— Você é absurda.
Rose riu. Gostou do que ouviu da própria voz — um riso real, sem timidez.
Foram para o quarto sem pressa mas sem enrolação.
Caio tirou a camiseta e Rose ficou olhando sem disfarçar — o corpo que ela havia adivinhado pelo uniforme verde: ombros largos, peito definido, aquele abdômen que não era de academia obsessiva mas de corpo que trabalha e se move, natural e honesto como tudo nele. Uma tatuagem no antebraço direito que ela não parou para ler.
As mãos dele encontraram a barra da blusa branca.
— Posso?
— Pode tudo.
Ele tirou a blusa e quando viu que ela não usava sutiã por baixo ficou parado por um momento, apenas olhando, com aquela honestidade toda que ela já havia notado no supermercado.
— Você veio assim de casa — disse ele. Não era acusação. Era admiração.
— Fui ao supermercado assim.
— Jesus.
Ela riu de novo.
Caio era o tipo de amante que aprende o corpo antes de tomar o corpo. Deitaram na cama e ele passou tempo suficiente — não ansioso, não mecânico — apenas conhecendo. A boca no pescoço, nos ombros, na curva do seio. As mãos descendo pela barriga, pelas coxas grossas que ela às vezes se envergonhava e que ele tratava como o que eram: uma das partes mais bonitas dela, apertando com os dedos, mordendo levemente a carne macia.
Rose havia parado de se envergonhar das próprias coxas naquele dia.
Quando ele desceu pela barriga ela enrolou os dedos no cabelo dele e não disse nada porque não havia nada a dizer.
A língua de Caio encontrou a buceta dela e Rose arquejou — um som que veio de algum lugar profundo, sem filtro, o som que Willy havia levado anos para arrancar dela e que agora saía com a naturalidade de quem não tem mais nada a esconder.
Ele era bom. Era muito bom.
Lambia devagar, com atenção, como se estivesse lendo algo com a língua e quisesse não perder nenhuma palavra. Quando sentiu ela apertar os dedos no cabelo, mudou o ritmo — mais firme, mais constante — e Rose jogou a cabeça para trás na almofada e deixou o orgasmo construir sem tentar controlá-lo.
— Não para — disse ela.
Ele não parou.
O primeiro orgasmo veio com ela ainda de calça — ele havia tirado a legging mas não a calcinha, e havia sido uma escolha deliberada, aquela barreira fina de tecido fazendo tudo mais intenso — e quando aconteceu ela apertou as coxas nos lados da cabeça dele e soltou um palavrão longo e sentido que ecoou no apartamento silencioso.
Caio levantou com o sorriso mais satisfeito que ela já havia visto.
— Você geme gostoso! — disse ele, num elogio vulgar.
— Aprendi tarde — admitiu ela, ainda pegando o fôlego.
Ele tirou a calcinha dela. Depois tirou a bermuda. Rose olhou para baixo e sentiu a boca secar de um jeito bom.
— Vem cá — disse ela.
Caio tinha vinte e sete anos e o pau de um homem que a vida havia sido generosa: não absurdo, não intimidador, mas grosso e duro e exatamente o tipo de coisa que Rose sabia que ia lembraria depois. Ela o segurou, passou o polegar na cabeça, ouviu ele prender a respiração.
— Preservativo — disse ela.
— Gaveta.
Ela pegou. Colocou nele devagar, deliberadamente, olhando para o rosto dele o tempo todo.
Depois empurrou ele de costas na cama, subiu por cima e se posicionou.
Desceu devagar.
Caio fechou os olhos e jogou a cabeça para trás e Rose ficou parada por um momento, completamente preenchida, sentindo. Deixando o corpo fazer as pazes com o tamanho, com a novidade, com aquela sensação específica de um corpo diferente dentro do dela.
— Tudo bem? — ele perguntou.
— Mais que tudo — ela respondeu.
O ritmo que ela encontrou era dela — ela conhecia o próprio corpo bem o suficiente para isso. Caio deixou, com as mãos nos quadris dela sem forçar, só acompanhando, subindo e descendo pelos flancos, chegando até o bumbum que ele apertava com as palmas espalmadas como quem não acredita na própria sorte.
— Meu Deus, essa bunda — murmurou ele.
— Eu sei — disse ela, sem falsa modéstia.
Ele riu e ela gostou de estar na cama com alguém que ria.
Acelerou.
O barulho da cama, o barulho dos dois, a brisa pela janela — Rose se deixou ir completamente, sem pensar em Willy, sem pensar em supermercado, sem pensar em nada que não fosse aquele corpo debaixo dela, aquelas mãos no bumbum dela, aquele homem de vinte e sete anos que a olhava de baixo como se ela fosse a coisa mais bonita que ele já havia visto.
O segundo orgasmo foi maior que o primeiro.
Ela gritou o nome dele — Caio — e ele respondeu apertando mais forte e empurrando de baixo para cima e Rose perdeu o fio do próprio pensamento por alguns segundos perfeitos.
Quando trocaram de posição ele ficou por cima e foi diferente — mais fundo, mais ele no controle agora, e ela deixou porque queria sentir aquilo também. As coxas dela em volta da cintura dele, os calcanhares nas costas dele, a cabeça dela virada para o lado sentindo cada estocada como uma frase completa.
— Você é incrível — disse ele, com a voz rouca.
— Você ainda não viu nada — disse ela.
Ficaram mais uma hora.
Trocaram de posição mais duas vezes. Rose foi de quatro em algum momento — de joelhos na beira da cama, ele atrás, as mãos dele apertando os quadris dela e o barulho da carne sendo o único som no apartamento — e foi nessa posição que ele gozou, com um gemido longo e a testa encostada nas costas dela e as mãos completamente imóveis nos quadris como se estivesse se ancorando.
Depois ficaram deitados lado a lado sem falar, o teto branco acima dos dois e a brisa continuando pela janela.
— Você faz isso sempre? — perguntou ele por fim.
— Não sempre. Quando aparece alguém que vale a pena.
— E eu valhi?
Ela virou o rosto para ele. Aquele sorriso largo, relaxado agora, sem a cautela do supermercado.
— Você foi além do requeijão cremoso — disse ela.
Ele soltou uma gargalhada real, de barriga, e ela gostou tanto daquilo que riu junto.
Se arrumou no banheiro dele — cabelo refeito, batom reaplicado, blusa de volta — e quando saiu ele estava na cozinha com dois copos de água.
— Obrigada — disse ela, aceitando.
— Eu que agradeço.
— Você sabe que isso não é uma coisa que acontece toda semana, né? — disse ela, sem crueldade, só honesta.
— Eu sei.
— Mas se acontecer de eu voltar ao supermercado…
— Eu trabalho segunda, quarta, sexta e sábado.
Rose terminou a água. Deixou o copo na bancada e pegou a bolsa.
— Você tem o número errado de folgas.
Ele sorriu.
Ela saiu.
No carro, antes de ligar o motor, mandou mensagem para Willy.
Indo pra casa agora.
A resposta demorou um pouco mais dessa vez. Ela imaginou ele no campo de golfe, na sombra, verificando o celular entre uma tacada e outra.
Boa compra?
Ela olhou para o banco de passageiro — as sacolas do supermercado, arrumadas, com o requeijão cremoso no topo de uma delas.
Digitou:
Achei o que eu precisava e mais um pouco.
Três pontinhos. Depois:
Me conta tudo hoje à noite.
Rose sorriu para o telefone, jogou ele no banco do passageiro e ligou o carro.
A cidade de sábado estava lá fora — sol, movimento, a normalidade cotidiana de todo mundo — e ela dirigiu por dentro dela com aquela leveza específica que só aparecia nessas horas: a sensação de ser inteiramente ela mesma, sem pedir desculpa por nada.
Willy estaria em casa às seis.
Ela tinha tempo de sobra para fazer o jantar.
E talvez — só talvez — na próxima semana a geladeira ficasse vazia de novo.
*Fim.*
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