I. O Que Fica Depois Tinha sido a Sra. Safada quem trouxe o assunto de volta. Não de uma vez só, não com aquela franqueza direta que ela usa quando sabe exatamente o que quer. Foi devagar, na forma como ela faz quando está testando a temperatura do que vai dizer antes de dizer de verdade. Um comentário aqui, uma provocação ali, uma frase solta no meio do sexo que ficava pairando no ar depois que a gente terminava e eu ficava deitado olhando pro teto com o coração ainda acelerado. A primeira vez tinha sido no motel. A segunda na casa de um amigo, enquanto a esposa dele estava viajando. Cada uma tinha sua textura própria, sua memória específica gravada em camadas — os sons, os cheiros, a forma como ela olhava pra mim em determinados momentos como se quisesse ter certeza de que eu ainda estava lá, presente, participando daquilo junto com ela. Entre a segunda e a terceira vez, passou tempo suficiente para que a gente digerisse tudo. Conversamos bastante, como a gente sempre faz — sem filtro, sem fingir que é mais simples ou mais complicado do que é. Falamos sobre o que tinha funcionado, o que poderia ter sido diferente, o que cada um tinha sentido. Ela foi honesta da forma que ela sempre é quando se trata de desejo: sem rodeios, sem vergonha, com aquela clareza que às vezes ainda me pega de surpresa depois de tudo que a gente já viveu junto. — A segunda foi intensa — ela disse, certa noite, a cabeça no meu peito, a voz baixa e pensativa. — Mas ficou um gosto de querer mais. Fiquei quieto por um momento. Passando a mão nos cabelos dela, sentindo o ritmo da respiração dela contra o meu tórax. — Mais como? — perguntei. Ela ficou em silêncio por um segundo. Esse silêncio específico que eu já aprendi a reconhecer — não é hesitação, é organização. Ela está montando as palavras certas. — Mais completo — ela disse por fim. — Quero tentar tudo. Quero sentir os dois ao mesmo tempo. Quero ver você com ele também. A última frase chegou quieta, quase como se fosse menos importante que as outras. Mas eu sabia que não era. Sabia porque ela havia deixado pro final, que é onde ela coloca as coisas que mais importam quando ainda não tem certeza de como vou reagir. Não disse nada imediatamente. Deixei a frase existir no quarto por alguns segundos, encontrando seu lugar. — Tudo bem — disse depois. E era verdade. II. O Plano Levamos alguns dias planejando. Não o tipo de planejamento logístico e frio, uma agenda ou uma lista de tarefas. Era mais uma construção gradual, feita de conversas que começavam em assuntos completamente diferentes e acabavam chegando ali, naquele tema, como água que encontra sempre o mesmo nível. O nome que surgiu foi o de um conhecido em comum. Não era do nosso círculo mais próximo — não era aquele tipo de pessoa que a gente veria no aniversário da família ou que apareceria numa reunião constrangedora meses depois. Mas também não era um estranho completo. Havia uma história suficiente entre ele e a gente para que existisse confiança, e distância suficiente para que existisse liberdade. A Sra. Safada foi quem fez o contato primeiro. Me contou depois, com uma leveza que eu invejei porque a minha parte do processo tinha sido consideravelmente menos tranquila por dentro. Ela tinha mandado uma mensagem direta, sem rodeios, explicando o que a gente queria e perguntando se ele toparia. Ele respondeu em menos de uma hora. — O que ele disse? — perguntei. — Disse que sim — ela respondeu, com um sorriso que era ao mesmo tempo simples e completamente cheio de coisa. Combinamos para uma sexta à noite. Nossa casa. Não um lugar neutro dessa vez — nosso território, com a nossa cama, com o cheiro familiar do quarto que eu conhecia tão bem. Havia algo diferente nisso, mais íntimo e mais ousado ao mesmo tempo. Na semana que antecedeu a sexta, a tensão foi crescendo de um jeito que eu não esperava. Não era a ansiedade das primeiras vezes, aquela coisa agitada e ligeiramente assustadora. Era uma antecipação mais calma, mais segura, como alguém que já sabe o sabor do que vai comer e está esperando a refeição com apetite real. Dormimos bem todas as noites daquela semana. Transamos todos os dias, mas com uma qualidade diferente — mais presente, mais deliberada, como se a gente estivesse aquecendo algo que já estava quente. Na quinta à noite, ela disse: — Amanhã. Só isso. A palavra ficou no quarto como uma promessa. III. A Sexta Na sexta de manhã, acordei antes do despertador. Fiquei deitado por alguns minutos no escuro, ouvindo a respiração dela ao lado, sentindo o calor do corpo dela próximo ao meu. Havia uma quietude naquele momento que contrastava com tudo que estava por vir, e eu me deixei ficar ali, naquele silêncio, antes de me levantar. A Sra. Safada acordou mais tarde, com aquela preguiça de fim de semana que ela nunca abandona completamente, mesmo em dias que não são fim de semana. Me encontrou na cozinha com dois cafés prontos e me olhou com um sorriso lento, ainda com o cabelo bagunçado, usando só uma camiseta minha. — Dormiu bem? — ela perguntou. — Dormi. E você? — Sonhei — ela disse, sem elaborar. O sorriso continuou por um momento antes de ela pegar o café. O dia passou naquele ritmo particular dos dias que têm alguma coisa esperando no final. A gente fez coisas normais — mercado, limpeza rápida da casa, almoço. Mas havia uma camada de consciência embaixo de tudo, uma corrente baixa que eu sentia em mim e via nela de vez em quando, num olhar que durava um segundo a mais, num toque na minha mão que não precisava de nenhum contexto. No final da tarde, ela foi tomar banho. Demorou mais que o normal. Quando saiu, o cabelo estava diferente — ela tinha feito algo nele, um ondulado leve que emoldurava o rosto de uma forma que me fez parar o que eu estava fazendo e só olhar por um momento. Ela notou que eu estava olhando e não disse nada. Só se virou de costas pra mim e abriu o armário com aquela calma de quem sabe o efeito que está causando. Saiu de lá com um vestido que eu nunca tinha visto. Preto, simples, que terminava na metade da coxa. Sem salto — ela nunca usa salto em casa, nem quando quer impressionar. Não precisava. — Você comprou esse vestido — eu disse. — Comprei na terça — ela confirou, sem se virar. Havia algo naquilo — no fato de que ela havia planejado isso, escolhido deliberadamente o que ia usar, preparado o próprio corpo e a própria aparência para aquela noite — que me atingiu no peito de uma forma que não era só excitação. Era algo mais fundo, uma espécie de admiração pela coragem tranquila dela, pela forma como ela navegava o próprio desejo sem pedir desculpa por nenhuma parte dele. Eu me vesti depois. Coisa simples. Calça escura, camisa. Eram oito horas quando o interfone tocou. IV. A Chegada Ela foi abrir. Fiquei na sala, de pé perto da janela, o copo de whisky na mão que eu havia servido mais por ter algo para fazer com as mãos do que por sede real. Ouvi o som do elevador, a porta se abrindo, as vozes lá fora — a dela, a dele, uma troca breve de cumprimentos. Quando ele entrou na sala, dei-me conta de que o havia visto poucas vezes nos últimos meses. Era mais alto do que eu lembrava, ou talvez fosse o contexto que mudava a percepção. Tinha aquela aparência de alguém que cuida do corpo sem fazer disso uma identidade — ombros largos, postura reta, sem ostentação. Cumprimentei com um aperto de mão que foi natural. Não havia nada forçado naquele momento. Nós três sabíamos por que ele estava ali, e esse entendimento compartilhado tinha o efeito estranho de tornar tudo mais fácil, não mais complicado. Não havia necessidade de fingir que era uma visita comum, e a ausência desse fingimento criava um tipo de honestidade que eu não esperava encontrar. A Sra. Safada trouxe bebidas. Sentamos. Conversamos por talvez quarenta minutos sobre coisas completamente aleatórias — um filme que os dois tinham visto, uma situação no trabalho dele, a reforma que a gente estava considerando no apartamento. A conversa fluiu com uma naturalidade que me surpreendeu. Ele ria fácil, ela estava relaxada, e eu fui me soltando gradualmente, sentindo a tensão nos ombros ir embora gole a gole. Em algum momento, sem que nenhum de nós marcasse exatamente quando, a conversa foi ficando mais densa. Mais carregada. Os olhares começaram a durar um segundo mais que o necessário. A linguagem foi ficando mais próxima, mais direta. Foi a Sra. Safada quem se levantou primeiro. Ela não disse nada. Só se levantou do sofá com aquela calma que ela tem quando está completamente certa do que vai fazer, colocou o copo na mesa de centro, e estendeu a mão para ele. Ele pegou. E os dois foram para o quarto. Fiquei na sala por exatamente três minutos. Contei. Terminei meu whisky devagar, olhando para o corredor escuro que levava ao quarto, ouvindo o silêncio dali — um silêncio que ainda não era nada, mas que estava prestes a se tornar outra coisa. Depois me levantei, deixei o copo na mesa, e fui. V. O Quarto A porta estava entreaberta. Empurrei devagar. A luz do abajur no canto do quarto estava acesa — a menor das opções, aquela que jogava uma claridade âmbar sobre tudo e transformava os contornos em algo ao mesmo tempo real e levemente irreal, como uma cena que pertence tanto ao sonho quanto à vigília. Eles estavam na beirada da cama. Ele sentado, ela de pé entre as pernas dele, o rosto virado para cima, os olhos fechados. Ele a beijava com uma lentidão que não era timidez — era atenção. A mão grande no rosto dela, o polegar traçando a linha do queixo. Ela ouviu meus passos. Abriu os olhos e me encontrou ali, de pé na entrada do quarto. O olhar dela era claro, seguro, completamente consciente. Me chamando sem usar palavras. Me aproximei. Fui por trás dela, minha boca encontrando o pescoço dela enquanto as mãos dele ainda estavam no rosto dela. Por um momento, os três ficamos nesse arranjo — ela no meio, os dois de lados opostos, os toques se sobrepondo sobre a pele dela. Ela soltou um som baixo, mais suspiro do que gemido, que ecoou pelo quarto. O vestido tinha um zíper nas costas. Abri devagar. Ele afastou um pouco para me dar espaço, mas as mãos dele não saíram dela completamente — apenas se reposicionaram nos ombros, descendo pelos braços enquanto o tecido escorregava. Ela não usava sutiã. O vestido caiu. Ela ficou ali, de costas para mim, de frente para ele, completamente nua exceto pela calcinha preta que sumiu logo depois quando as mãos dos dois trabalharam juntas sem combinar — um gesto simultâneo que nos fez rir levemente, um riso que quebrou qualquer resquício de tensão que ainda existia no quarto. Ela se virou, me olhou. — Deita — ela disse, para os dois. Obedecemos. VI. O Que Ela Queria Ela ficou de pé ao lado da cama por um momento, olhando para os dois deitados lado a lado, e havia uma expressão no rosto dela que eu não conseguiria descrever com precisão mas que reconhecia — era a expressão de alguém que está exatamente onde queria estar e tem plena consciência disso. Subiu na cama devagar, se posicionou entre os dois. As mãos dela eram seguras, sem hesitação, traçando os contornos dos dois corpos com aquela familiaridade que ela tem com o desejo — não como algo a ser descoberto com cautela, mas como um território que ela ocupa com pleno direito. Me beijou primeiro, longa e fundo, a língua encontrando a minha com uma urgência que me fez prender a respiração. Depois se virou e o beijou da mesma forma, com a mesma intensidade, sem diminuir nada para nenhum dos dois lados. As mãos dela desceram. Uma para cada lado. Ela nos envolvia ao mesmo tempo, o ritmo das mãos sincronizado, os olhos fechados com aquela concentração que eu conhecia tão bem e que significava que ela estava completamente dentro da própria experiência, sem nada sobrando para nenhum outro lugar. Ela gemeu. Baixinho, no começo. Aquele som que começa no fundo da garganta e vai subindo à medida que o corpo vai cedendo ao que sente. Era um som que eu ouvia há anos e que nunca perdeu o efeito — mas naquele contexto específico, naquela combinação de presenças e de consciências, tinha uma dimensão diferente. Era ela se permitindo, completamente, sem reservas. Ela parou, olhou para mim. — Desce — ela disse. Me posicionei entre as pernas dela. Ela era quente, úmida, completamente pronta — não havia nada tentativo ali, nenhuma necessidade de preparação além da que já havia acontecido nos últimos dias, nas últimas semanas, em todas as conversas e antecipações e desejos que haviam chegado até aquela cama. Comecei devagar. Ela prendeu a respiração. A mão dela foi para os meus cabelos, não puxando, só repousando — uma âncora. Ele estava ao lado dela, a boca no pescoço, a mão no seio, atento ao ritmo dela, respondendo ao que ela mostrava sem que ela precisasse pedir. Os sons dela foram crescendo. Aqueles sons que eu conhecia como um idioma próprio — a nota que significa que está bom, a nota que significa que está melhor, a nota que significa não para. Fui seguindo o mapa do corpo dela com a atenção de quem não tem pressa porque sabe para onde vai. Ela gozou uma primeira vez assim, sem penetração, só com a boca e os dedos e as mãos dele nos seios. Um orgasmo que chegou em ondas longas, o corpo dela arqueando, as coxas fechando levemente em torno da minha cabeça, o gemido saindo alto e honesto sem nenhuma tentativa de contê-lo. Depois, quando o tremor foi passando, ela me puxou para cima. — Agora quero os dois — ela disse. A voz estava rouca, os olhos brilhando com aquele brilho específico do pós-orgasmo misturado com a antecipação do que ainda estava por vir. — Quero tentar o que falei. Fiz uma pausa de um segundo. Não de hesitação — de confirmação. Queria ter certeza de que ela estava dizendo o que eu estava entendendo. Ela estava. VII. Os Dois Ao Mesmo Tempo Ela se posicionou de costas, as pernas abertas, o corpo completamente entregue. Havia nos movimentos dela uma confiança que vinha de dentro — não a confiança performática de quem quer parecer segura, mas a coisa real, construída em cima de se conhecer profundamente e de saber, sem dúvida, o que quer. Entrei primeiro. O som que ela fez quando eu a preenchi tinha aquela qualidade específica de algo esperado que finalmente chega. Os olhos fechados por um segundo, os lábios entreabertos, os dedos encontrando os meus e apertando. Me movi por alguns momentos sozinho, deixando o corpo dela se acostumar, lendo o ritmo que ela queria. Ela respondia com os quadris, encontrando minhas estocadas, o aperto dos dedos nos meus me dizendo o que a voz ainda não estava dizendo. Depois ela virou o rosto para o lado, encontrou os olhos dele. — Vem — ela disse. Ele se posicionou ao meu lado, cuidadoso, a lentidão nos movimentos não de timidez mas de atenção ao corpo dela. Ela ficou absolutamente imóvel por um momento, só respirando, permitindo, abrindo espaço. Quando os dois entramos ao mesmo tempo, ela gritou. Não de dor — eu conheço a diferença, e essa diferença era absolutamente clara. Era o som de alguém sendo atingida por uma intensidade que ultrapassa qualquer coisa que ela tenha sentido antes e que o corpo responde antes que a mente possa processar. Um som que ficou pendurado no ar do quarto por um momento antes de se dissolver numa respiração longa e tremida. — Meu Deus — ela disse, baixinho. E depois: — Não para. Por favor. Os movimentos no começo eram lentos, sincronizados, explorando. Havia uma lógica física na situação que exigia atenção — ângulos, ritmo, a comunicação silenciosa entre dois corpos que dividiam o mesmo espaço e precisavam encontrar uma linguagem comum. Mas essa lógica foi se estabelecendo naturalmente, sem esforço consciente, como dois músicos que encontram o mesmo compasso. Ela estava no centro de tudo. Literalmente — o corpo dela o eixo em torno do qual os dois girávamos, o ponto de convergência de cada movimento, de cada toque, de cada som. E ela sabia disso, e a consciência disso era visível nela, na forma como o rosto dela estava completamente aberto, sem nenhuma máscara, apenas presença pura. Eu sentia a pressão do corpo dele através dela. Uma fricção quente, íntima, absolutamente sem precedente em qualquer coisa que eu havia vivido antes. Era estranho e era completamente certo ao mesmo tempo. Não havia espaço para pensar nisso analiticamente — havia apenas a sensação, o calor, o som dela entre os dois. — Assim — ela dizia. — Assim, os dois, assim. As palavras saíam em fragmentos entre as respirações, entre os gemidos, entre as ondas de prazer que a gente podia ver percorrendo o corpo dela em espasmos visíveis. Ela havia cruzado aquela linha onde o corpo age por conta própria e a consciência fica levemente atrás, correndo para alcançar. Aumentamos o ritmo juntos, como se os dois soubéssemos ao mesmo tempo que era hora. As estocadas foram ficando mais firmes, mais profundas, o som dos corpos se encontrando preenchendo o quarto junto com os sons dela que não tinham mais nenhuma contenção. Ela gozou com os dois dentro dela. Foi diferente de qualquer orgasmo que eu havia testemunhado antes — e eu havia testemunhado os dela de perto, por anos, em todos os contextos possíveis. Esse veio de mais fundo, durou mais, envolveu o corpo inteiro de uma forma que parecia estrutural, como se algo no centro dela estivesse se reorganizando. Ela chorou. Não de tristeza, não de dor — as lágrimas que escorrem quando alguma coisa é intensa demais para caber dentro de uma pessoa sem transbordar. Nós dois paramos instintivamente quando o orgasmo chegou, só segurando, deixando o corpo dela viver aquilo sem interferência. Quando foi passando, ela ficou imóvel por um longo momento. Os olhos fechados, a respiração aos poucos voltando ao normal, um sorriso lento se formando no rosto. — Caralho — ela disse, finalmente, e a palavra saiu com aquela leveza específica de quem está completamente satisfeita. VIII. O Que Ela Pediu Pra Ver Ficamos parados por algum tempo. Os três deitados, as respirações se acalmando em frequências diferentes, o quarto cheio do cheiro específico de corpos aquecidos e esforço e sexo. Ela estava no meio, ainda. Passando a mão nas costas dos dois alternadamente, com uma ternura que contrastava com tudo que havia acontecido minutos antes de uma forma que eu achava linda — essa capacidade dela de transitar entre a intensidade crua e a gentileza sem que nenhuma das duas parecesse incongruente com a outra. Depois ela se virou de lado, me olhou. — Você lembra o que eu pedi? — ela disse. Lembrava. Era a última das coisas que ela havia dito naquela noite no sofá, a frase que ela havia deixado para o final com aquela estratégia específica de colocar o mais pesado no fim, quando já não há como recuar. Quero ver você com ele também. Fiz uma pausa. Não de recusa — de organização interna. Havia algo naquilo que precisava de um segundo para se assentar antes de virar ação. Olhei para ele. Havia uma pergunta no olhar que fiz, e ele respondeu com um leve aceno. Sem drama, sem cerimônia. A mesma naturalidade que havia marcado tudo naquela noite. Me aproximei. O que se seguiu foi estranho no melhor sentido possível. Estranho como qualquer coisa nova é estranha — não assustador, não desconfortável, apenas novo. Um território sem mapas onde o corpo tem que encontrar o próprio caminho. Ela assistia com os joelhos dobrados, a mão entre as próprias pernas, os olhos enormes e brilhantes. Havia nela naquele momento uma intensidade que eu raramente havia visto — uma atenção total, sem nenhuma parte de si em outro lugar, completamente dentro daquele instante. Depois ele fez o mesmo comigo. Com aquela firmeza direta que era característica dele em tudo — sem hesitação, sem construção excessiva, apenas a ação clara. Ela gemeu observando. Gozou pela terceira vez naquela noite só assistindo, sem ser tocada, os dedos trabalhando por conta própria enquanto os olhos não saíam de nós dois. — Beijem — ela disse, a voz um fio rouco. Nos olhamos. Havia entre nós uma cumplicidade que havia sido construída naquele quarto naquela noite, densa e real. Me aproximei. Nossos lábios se encontraram — um beijo que tinha o gosto dela, que ainda estava em nossas bocas, e que durou o tempo suficiente para que ela fizesse um som que era pura e simplesmente satisfação. Ela enlouqueceu. Literalmente se jogou entre os dois, puxando um e depois o outro, os movimentos dela tendo perdido qualquer ordem ou sequência lógica, tornados puro impulso. Não havia mais planejamento naquele quarto. Havia apenas corpos e calor e vontade. IX. A Última Rodada Ela pediu para tentar de novo. De lado, dessa vez — um de cada lado, simultaneamente, o que ela havia pedido especificamente e que a gente havia feito antes mas que ela queria de novo, agora que o corpo dela já sabia o que esperar e podia receber com ainda menos resistência. Nos posicionamos. Ela ficou entre os dois, as costas contra o peito dele, os olhos nos meus. Entrei de frente. Ele entrou por trás, mais devagar, com aquele cuidado que o momento exigia. Ela prendeu a respiração. Depois soltou de vez. — Agora — ela disse. Os movimentos foram se ajustando aos poucos até encontrar um ritmo que funcionava para os três. Era uma dança que exigia atenção — ao corpo dela, um ao outro, à comunicação constante de pressão e resposta e recuo. Mas havia algo profundamente natural nisso também, uma lógica de prazer que o corpo entende antes que a mente consiga articular. Ela gemia sem parar. Sons que já não tinham separação entre si, que formavam uma espécie de continuum de prazer que subia e descia mas nunca caía abaixo de certo nível. A pele dela estava quente, levemente úmida, e eu podia sentir cada micro-movimento, cada contração, cada resposta involuntária do corpo dela ao que estava acontecendo. — Não para — ela dizia. — Por favor. Não para. Não paramos. As mãos dela encontraram as minhas em algum momento. Entrelaçou os dedos, apertou com uma força que eu não esperava, como se precisasse de uma âncora para não se perder completamente no que estava sentindo. Continuamos por mais tempo do que eu seria capaz de estimar. O tempo havia perdido sua textura normal naquele quarto. Havia apenas o presente, perpetuamente renovado, cada segundo tão cheio que não havia espaço para antes ou depois. Ele terminou primeiro. Um som grave e longo, os músculos das costas dele contraindo-se visivelmente, os movimentos ficando por um momento mais profundos antes de se imobilizarem. Ela sentiu. O corpo dela respondeu ao que acontecia dentro dele com outra onda — menor que as anteriores, mais íntima, um tremor que percorreu as costas e os ombros e os desceu pelas coxas. Fiquei mais um pouco. Só os dois, os movimentos mais lentos agora, mais presentes. Ela me olhava diretamente, sem nada entre o olhar dela e o meu. Havia algo naquele olhar que era diferente de tudo que havia acontecido na noite — mais quieto, mais fundo, mais especificamente para mim. Quando terminei, foi dentro desse olhar. Fundo e lento e completo. X. Depois O quarto ficou em silêncio. Não o silêncio vazio, mas o silêncio denso e cheio que existe depois de alguma coisa muito grande — quando o barulho para mas o ar ainda carrega o eco de tudo que aconteceu. Os três ficamos deitados por um longo tempo sem falar nada. Ela estava no meio, como havia estado a noite toda, mas agora com aquela moleza específica de alguém que foi completamente drenada no melhor sentido possível. A respiração dela era lenta, profunda, levemente irregular ainda. Passava de meia-noite quando olhei pro relógio no criado-mudo. Ele foi o primeiro a se mover. Devagar, com aquela discrição natural de quem entende que um momento se encerrou. Se levantou sem fazer barulho, foi ao banheiro, voltou. Se vestiu no escuro com movimentos calmos. Antes de sair, se inclinou sobre ela e a beijou na testa. Ela sorriu sem abrir os olhos. Depois veio até mim. Um aperto de mão que virou um meio abraço, a mão no meu ombro por um segundo. — Obrigado — ele disse, baixo. — Obrigado a você — respondi. Ele saiu. A porta fechou com aquele mesmo clique seco que havia fechado no começo da noite, mas que agora soava completamente diferente. O começo e o fim do mesmo parêntese. Fiquei ouvindo o elevador descer. Depois o silêncio do apartamento voltou completamente. Ela abriu os olhos. Me virei para ela. Estava deitada de costas, os cabelos espalhados no travesseiro, a expressão de quem acabou de sobreviver a algo e ainda está processando o quanto gostou disso. Havia gozo nas coxas, o corpo ainda com aquelas marcas suaves que os toques deixam — vermelhidão leve onde as mãos haviam segurado, os lábios levemente inchados, a pele com o brilho específico do pós-sexo. — Tá bem? — perguntei. — Muito — ela disse. A voz tinha aquela qualidade rouca e mole que ela fica quando foi completamente satisfeita. — Você? — Também. Ficamos em silêncio por um momento. — A sensação de ter os dois ao mesmo tempo — ela disse, a voz pensativa, como se estivesse tentando traduzir alguma coisa que aconteceu num idioma que não tem palavras diretas para isso. — Era como se eu não coubesse mais nada. Como se eu fosse partir. E mesmo assim eu queria mais. — Eu sei — disse. E sabia de verdade. Eu havia visto aquilo. Havia estado presente em cada segundo daquilo. — E ver você com ele — ela continuou, e nessa frase havia uma inflexão diferente, algo mais suave, mais interior. — Foi a coisa mais intensa que vi na vida. Não disse nada. Passei o braço em torno dela, a puxei mais perto. Ela se encostou no meu peito com aquela naturalidade de quem está voltando para o lugar certo. — A melhor até agora — ela disse depois de um tempo. — Até agora — concordei. Ela riu levemente. O riso ficou no ar por um segundo antes de se dissolver no silêncio do quarto. Fomos para o banheiro juntos. O chuveiro quente caiu sobre os dois corpos ao mesmo tempo e a água foi levando embora o suor, os cheiros, a mistura física de tudo que havia acontecido. Mas a memória disso — a textura específica daquela noite, os sons, os momentos de intensidade e os momentos de gentileza e o olhar dela em determinados instantes — essa memória não vai a lugar nenhum com água quente. Fica. O tipo de coisa que fica. Voltamos para a cama molhados e sem pressa. Ela se enroscou de lado, as costas contra meu peito, meus braços em torno dela. Não havia mais palavras necessárias. Do lado de fora, a cidade continuava com seus próprios barulhos noturnos. Dentro do quarto, a respiração dela foi ficando mais lenta, mais funda, até que a gente soube que ela havia dormido. Fiquei mais um tempo acordado, no escuro, com ela nos meus braços. Pensando na linha que a gente havia cruzado. E na forma como atravessar certas linhas juntos, deliberadamente, com honestidade e cuidado e desejo real — como isso tinha o efeito inesperado de não nos afastar, mas de nos aproximar de uma forma que eu não saberia como descrever para alguém que não tivesse vivido algo parecido. Fechei os olhos. Na respiração lenta da Sra. Safada contra o meu peito, havia uma resposta para perguntas que eu nunca havia feito em voz alta. E a resposta era simples: a gente estava bem. Mais que bem. A gente estava inteiro. Pensei nas outras vezes. Na primeira, no motel, com toda aquela carga de novidade e de medo e de excitação que vem quando você atravessa uma linha pela primeira vez sem saber se vai aguentar o que está do outro lado. Na segunda, mais solta, mais confiante, mas ainda com aquele ranço de descoberta que faz tudo brilhar com uma luz levemente irreal. E nessa terceira, que havia sido diferente. Mais inteira. Mais honesta. Com esse elemento novo que ela havia pedido e que eu havia recebido sem saber exatamente o que esperava sentir — e que havia me surpreendido por ser simplesmente humano. Nada mais e nada menos que dois corpos respondendo ao desejo com o pragmatismo e a generosidade que o desejo exige quando você deixa de ter medo dele. Havia algo que a gente estava construindo nessas noites. Eu conseguia ver isso com uma clareza que às vezes me pegava de surpresa. Não era só sexo, embora fosse também sexo — muito sexo, bom sexo, o tipo de sexo que fica na memória do corpo e não só na memória da cabeça. Era uma linguagem. Uma forma específica de falar sobre confiança que não usa palavras mas usa presença, toque, disposição para estar no lugar difícil e descobrir que não era tão difícil quanto parecia. A Sra. Safada se mexeu levemente no sono. Encolheu mais contra mim, os dedos encontrando os meus numa busca involuntária. Apertei a mão dela. Ela não acordou. Mas os dedos responderam, fechando levemente em torno dos meus com aquela firmeza instintiva do sono. Fiquei olhando o teto por mais alguns minutos. O apartamento estava completamente quieto agora, aquele tipo de silêncio profundo da madrugada que faz o mundo parecer menor e mais íntimo ao mesmo tempo. Do lado de fora, muito longe, um carro passou. Depois nada. Dormi.
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