A casa é simples, mas acolhedora, com cheiro de comida caseira no ar. A luz amarela quente do corredor contrasta com a tensão que começa a se formar. A porta da frente se abre com um rangido.
Marcelo entra saltitante, sorriso largo e brilhante, rebolando levemente os quadris como quem desfila em uma passarela invisível. Seus lábios estão pintados com gloss de morango que reluz sob a luz. Ele carrega uma energia leve, quase provocativa.
Vindo da cozinha ao ouvir um barulho, Eduardo surge como um trovão. Seu rosto se contorce instantaneamente em fúria pura. Os olhos se arregalam, as narinas inflam, os punhos se fecham com força ao lado do corpo. A veia no pescoço pulsa visivelmente.
— Que porra essa bixinha tá fazendo aqui dentro da minha casa?!
O grito de Eduardo ecoa pelo corredor com sua voz grave e cortante. Dona Mirian aparece rapidamente da cozinha, enxugando as mãos no avental, o rosto já carregado de preocupação e cansaço.
— Eduardo! Que escândalo é esse? O que está acontecendo aqui?!
Questiona a mãe do rapaz que apontando o dedo trêmulo de raiva para Marcelo, quase cuspindo as palavras diz:
— Essa bixa aqui de novo! Eu já tinha dito que não quero o Gustavo andando com esse tipo de gente!
Ouvindo a gritaria vindo da sala, Gustavo se levanta da mesa e indo de encontro aos demais com a voz firme, mas controlada transparecendo uma irritação crescente questiona.
— E desde quando minhas amizades são da sua conta, Eduardo? Eu não me meto nas suas amizades de merda e não quero que você ofenda meus amigos!
Dona Mirian olhando severamente para o filho mais velho o repreende.
— Eduardo, essa não foi a educação que eu te dei. Você não pode falar assim com as pessoas!
Eduardo ri com sarcasmo venenoso, aproximando-se um passo para mais perto de Marcelo o encara, o corpo tenso como se fosse explodir, mas o rapaz não se intimida e provoca o encarando de volta e depois se voltando para a matriarca da casa.
— Eu não me importo, Dona Mirian. Eu sei muito bem o tipo de educação que a senhora deu pros seus filhos… Basta olhar pro Gustavo. Infelizmente nem todo mundo tem capacidade cognitiva pra absorver certas coisas.
Eduardo não desvia o olhar de Marcelo. Com os olhos queimando de desprezo cospe a palavra em tom de nojo.
— Viaaadooooo!
— Ha, já ha! Acha que tá me ofendendo me chamando de bixa, viado… você está enganado pra caralho. Porque eu SOU bixa, Bixinha, Viado, Viadinho, Viadeeeerrrrimo. E eu amo pra porra ser assim. Não tenho vergonha nenhuma. Seria o mesmo que eu te chamar de hetero… não seria ofensa nenhuma, né? Ao menos parece que você é.
O ar fica ainda mais pesado. Silêncio cortante por alguns segundos até Eduardo explodindo, gritando com ódio puro.
— Ora seu viadinho de merda!!!
Dona Mirian percebendo que a ofensa verbal se transformaria em fisica berrando, com a voz cortando o ar como um chicote se coloca na frente do filho entre o visitante.
— EDUARDO! Já pra dentro agora!
Neste momento Jorge aparece na sala. Ainda fervendo, gesticulando agressivamente, Eduardo tenta argumentar.
— Mas mãe… é que…
— Chega! Pra dentro AGORA ou você fica sem jantar hoje!
Se impõe Dona Mirian com dedo em riste apontando para a cozinha.
Eduardo olha para a mãe, depois para o pai com os braços cruzados e semblante fechado na entrada do cômodo e então Eduardo bate o pé com força no chão, os passos pesados ecoando como marteladas enquanto ele volta para a cozinha tentar terminar o jantar, murmurando xingamentos baixos. Seus ombros estão rígidos de raiva contida. Jorge, o pai escolta o rapaz.
Marcelo, por sua vez, não esconde o sorriso. Um sorriso de deboche puro misturado com triunfo. Ele requebra levemente o corpo, o gloss brilhando enquanto morde o lábio inferior, como quem saboreia a vitória pequena.
Dona Mirian virando-se para Marcelo, voz mais baixa, mas firme.
— Marcelo, peço desculpas pelas grosserias do meu filho. Vou ter uma conversa séria com ele… Mas agora não acho que seja uma boa ideia você ficar.
Olhando para a mãe, com voz urgente Gustavo diz:
— Mas mãe…
Marcelo colocando a mão no ombro de Gustavo, voz suave mas decidida explica.
— Gustavo, sua mãe tem razão. Eu ficar aqui agora é só jogar mais lenha na fogueira. A gente conversa outro dia, quando seu irmão não estiver… ou estiver menos irritado.
Gustavo olhando para Marcelo concorda.
— Ok, você não fica… mas eu preciso falar com você. Rápido.
Dona Mirian suspirando, já exausta diz voltando para a cozinha.
— Certo, meninos. Boa noite, Marcelo. Gustavo, não demora… a comida vai esfriar.
Enquanto isso, em um ambiente mais sofisticado. Marilda está no escritório, cercada de fotos, moodboards e peças de roupa espalhadas na mesa de centro. A luz é mais fria, de abajures modernos. Ela parece empolgada olhando tudo. Rogério se aproxima por trás, abraça a esposa pela cintura e beija lentamente seu pescoço. O beijo é carinhoso, mas tem um leve tom possessivo.
Com voz baixa praticamente um sussurro com a boca próxima do ouvido dela pergunta.
— Ainda vendo isso, Marilda? Vem jantar, meu amor…
Marilda virando o rosto, olhos brilhando de excitação.
— Já estou indo! Nossa, Rogério… olha isso! Essa campanha vai ser um arraso!
Rogério ainda abraçado, mas tom mais cético, quase irritado.
— Arraso será se der retorno financeiro… porque os custos estão nas alturas.
Virando-se bruscamente, visivelmente irritada, saindo do abraço Marilda responde.
— Aí credo, Rogério! Larga de ser pessimista, homem! Pra pescar, você precisa jogar a isca!
Rogério levantando as mãos, voz cansada.
— Mas não precisa ser a isca mais cara do mercado, né?
Marilda bufa, claramente irritada com a negatividade do marido. Ela junta as fotos e documentos com movimentos rápidos e bruscos, quase batendo os papéis na mesa e caminhando em direção à sala de jantar, voz cortante
— Sinceramente, não sei como conseguimos abrir três lojas com essa sua mão de vaca, Rogério!
Seguindo atrás da esposa, voz firme, mas com leve mágoa Rogério explica.
— Com muito esforço, muito trabalho… e sem jogar dinheiro fora! Isso eu garanto.
O clima entre eles fica carregado de tensão conjugal irritação misturada com o cansaço de anos de convivência.
Já na praça próxima dali, iluminada apenas por postes amarelados. O vento leve balança as folhas das árvores. Luiz Felipe solta Kenji e se afasta alguns passos, enxugando as lágrimas com as costas da mão. Seus ombros tremem levemente.
Ele se senta no banco ao lado de Kenji que também se senta. Os dois ficam próximos quase coxa com coxa. A proximidade carrega uma tensão sutil, quase tesão contido por parte do nissei.
Com a voz embargada, levemente vulnerável, Luiz Felipe se desculpa.
— Desculpa, Kenji… eu tava precisando disso. De um apoio. Eu tô sem chão… não sei o que fazer.
O jovem de olhos puxados olhando para ele com preocupação genuína, voz calma pergunta.
— O que aconteceu? Pode contar comigo.
Olhando nos olhos de Kenji, Luiz Felipe expõe.
— Nós mal nos conhecemos… mas você me traz uma paz tão grande. Não sei o que é… eu sinto uma ligação muito forte com você desde o primeiro dia.
Respira fundo o moreno de cabelos cacheados, o peito subindo e descendo rápido continua.
— Talvez eu esteja assim porque não posso falar sobre isso com ninguém. Nem com minha mãe… nem com meu irmão… e eu não sei como vou falar isso pro Gustavo.
Kenji confuso, franzindo a testa questiona.
— Gustavo? O que o Gustavo tem a ver com isso?
Luiz Felipe baixando o olhar, voz pesada confessa.
— Preciso ser sincero com você… O Gustavo e eu… nós… nós somos namorados.
Kenji sente um aperto forte no peito. Ele suspira, tentando manter a expressão neutra, mas os olhos traem uma pontada de ciúme ou decepção. Mas forçando naturalidade o nissei questiona.
— Ah… sim. Mas qual o problema disso?
Olhando ao redor desconfiado, como se alguém pudesse ouvir Luiz Felipe diz.
— Ninguém sabe. Ou melhor… quase ninguém. Principalmente minha mãe… e a família do Gustavo. Especialmente o Eduardo.
Kenji ri sem humor.
— É, já percebi que o irmão do Gustavo é um ogro. Bem parecido com o Romário.
— Não é à toa que são melhores amigos. Eu e o Eduardo nos damos bem… somos amigos. Gostamos de musculação, futebol… essas coisas de “homem”.
Explica Luiz Felipe.
— Entendi. Você performando masculinidade… ok.
Diz Kenji levanta uma sobrancelha, tom irônico
Olhando para Kenji com desespero crescente, Luiz Felipe expõe.
— O problema é que ele é extremamente homofóbico. Quando ele descobrir que eu e o irmão dele estamos juntos…
Luiz Felipe para por um momento como se visse a cena do que poderia acontecer diante de seus olhos, o medo evidente no rosto e continua.
— …vai ser o fim do mundo.
Kenji coloca a mão no ombro de Luiz Felipe. O toque é quente, carregado. Há uma faísca de atração no ar, mesmo na conversa pesada.
— Vocês são adultos. Ele não tem que se meter nisso.
Negando com a cabeça, voz baixa e ansiosa Luiz Felipe responde.
— Aqui é cidade do interior, Kenji. Todo mundo acha que pode se meter na vida alheia. Fofoca, risadinha, cochicho… O Eduardo é estourado, metido a machão. Gosta de arrumar encrenca pra se provar superior.
— Babaca… Mas se vocês já estão juntos em segredo, por que não continuar assim? O Gustavo quer assumir?
Questiona o nissei.
— Não… ele entende a situação. Não quer que venha a público. Esse é o problema… Fomos descobertos. Tem uma pessoa me chantageando. Se eu não fizer o que ela quer, vai mandar fotos minhas com Gustavo pra todo mundo.
Kenji fica em silêncio por um segundo, processando. A tensão emocional entre eles fica palpável.
Olhando nos olhos de Luiz Felipe, com voz séria Kenji diz
— Se você ceder uma vez, vai ficar pra sempre nas mãos dessa pessoa. E não tem garantia de que ela não vai te expor mesmo assim.
Suspirando preocupado, mas mais leve como quem decide algo Luiz Felipe diz.
— É… você tem razão.
Ele sorri pela primeira vez, ainda com os olhos cor de mel agora com um tom esverdeado e úmidos.
— Obrigado, Kenji. Tô bem melhor agora, cara.
Kenji sorrindo de volta, mas com um fundo de melancolia responde.
— Sempre que precisar.
Kenji se despede. Luiz Felipe caminha mais leve em direção à casa de Gustavo.
Manu, Gustavo e Marcelo estão na porta. Marcelo está com a língua coçando, claramente ansioso para contar o que viu na praça. Seus olhos brilham de fofoca e quando começava a contar… a voz grave de Luiz Felipe ecoa na rua. Marcelo quase desmaia, o corpo amolecendo dramaticamente. Gustavo e Manu o seguram.
Preocupado, aproximando-se rápido Luiz Felipe questiona.
— Aconteceu alguma coisa, Marcelo? Tá passando mal?
Levantando-se rápido demais, com sua voz esganiçada cheio de trejeitos Marcelo responde rapidamente.
— Não… nada! Deve ser uma queda de pressão, mas já estou melhor e… Acabei de me lembrar que tenho algo urgente pra fazer em casa.
Ele começa a sair borboletando, rebolando rápido demais na direção errada.
Rindo, apontando o lado correto Gustavo chama.
— Marcelo, sua casa é pra lá.
Marcelo virando-se, sem graça responde.
— Eu sei… eu só tava… deixa pra lá.
Maria Eduarda olhando para Luiz Felipe, pergunta.
— E aí, Luiz? Tudo bem com você? Fiquei sabendo que você passou mal hoje na loja.
Aproximando-se de Luiz Felipe, voz cheia de carinho e preocupação, quase sussurrando Gustavo pergunta.
— O que aconteceu, meu amor? Você tá bem? Tá melhor?
Luiz Felipe olha para Gustavo com urgência nos olhos. O ar entre eles fica carregado amor, medo, desejo e tensão.
Segurando o braço de Gustavo com força, voz baixa e urgente Luiz Felipe diz
— Sim, tô bem melhor agora… mas eu preciso conversar com você, Gustavo, urgente!
Autor Mrpr2