Quando o amor incomoda - 23

O sol raiou tímido sobre Serra Verde, tingindo as ruas de laranja suave e acordando os galos que cantavam preguiçosos. A porta da clínica se abriu com um rangido familiar, e as enfermeiras do turno da noite se despediram com acenos cansados.
— Bom dia, Eulália. Até amanhã — disse uma delas, já com a bolsa no ombro.
Eulália respondeu com um sorriso exausto, mas genuíno, os olhos castanhos marcados por olheiras suaves. Ela caminhou devagar pela calçada irregular, o uniforme branco amarrotado grudando levemente nas costas pelo suor da noite longa. Chegou em casa, girou a chave na fechadura com um clique seco, virou a maçaneta e empurrou a porta.
— Bom dia, mãe. Como foi o plantão?
A voz de Gurizão veio da cozinha, casual demais para quem acabara de chegar correndo. Ele estava de pé junto à pia, fingindo lavar uma xícara que nem estava suja.
Eulália parou no hall, franzindo a testa.
— Bom dia, filho. O que faz acordado essa hora?
— Na verdade, levantei agora pra mijar. Ouvi a senhora abrindo a porta e vim receber lá.
Ela apertou os olhos, o olhar de mãe que tudo vê.
— Lavou as mãos?
— Óbvio que sim, né mãe. Acha que sou um porco?
— Vindo de alguém que diz “mijar” assim, sem cerimônia…
Retrucou ela, já tirando os sapatos. Gurizão revirou os olhos, mas o sorriso era nervoso.
— Eu desisto de agradar a senhora, viu. Vou comprar pão. Vai querer alguma coisa?
— Não… só confere se tem manteiga e se está fora da geladeira. Vou tomar um banho primeiro.
Eulália seguiu para o banheiro, o som da porta se fechando ecoando pela casa silenciosa. Gurizão esperou exatamente três segundos, depois correu na ponta dos pés até o quarto de Luiz Felipe. Bateu na porta com os nós dos dedos, voz baixa e urgente:
— Acorda, Romeu! A mãe tá no banho. Vou na padaria. Coloquei a sua bagunça atrás do sofá. Vai lá tirar antes que ela saia! Há e tá me devendo uma hem? Vou cobrar!

Minutos antes…
Marilda estacionou o carro no quarteirão de baixo, motor ainda quente. Gurizão abriu a porta do passageiro com cuidado, olhou para os dois lados da rua escura, coração martelando no peito. Deu um beijo rápido na boca dela, molhado, faminto e saiu correndo, passos leves para não acordar ninguém. Marilda acelerou devagar, faróis apagados até virar a esquina.
Gurizão chegou na porta de casa ofegante, suor frio na nuca. Foi quando ouviu alguém cumprimentar sua mãe com um “bom dia” apressado destrancou a porta entrou e a trancou de volta atrás dele e congelou.
A mesa da sala ainda estava posta: velas derretidas pela metade, castiçais de metal torto, garrafa de vinho pela metade, duas taças com restos de vinho. O cheiro de strogonoff misturado a sexo e pétalas de rosa pairava no ar como uma confissão gritante.
— Porra… O Luiz Felipe finalmente pirou e vai sobrar pra mim.
Murmurou Gurizão, olhos arregalados passando a mão na cabeça.
Gurizão então agiu rápido: pegou os pratos sujos, empilhou na pia com cuidado para não tilintar; apagou as velas com os dedos úmidos, o cheiro de cera queimada subindo; guardou a garrafa e as taças atrás do sofá, empurrando tudo com o pé. O coração batia tão forte que ele sentia na garganta.
De volta ao presente: ele bateu na porta do quarto outra vez, mais urgente.
Dentro do quarto, Luiz Felipe acordou sobressaltado. Gustavo ainda dormia profundamente, rosto sereno aninhado no peito largo dele, cabelo castanho claro bagunçado, respiração lenta contra a pele morena. As pétalas vermelhas grudadas nas costas dos dois, lençóis embolados, o cheiro de suor, lubrificante e gozo impregnado no ar.
Luiz Felipe piscou, a realidade caindo como um balde de água fria. Ele não tinha mandado a mensagem para Gurizão. Não tinha limpado nada.
— Tavinho… acorda!
Sussurrou, voz rouca de sono e pânico contido. Balançou o ombro magro de Gustavo com delicadeza.
Gustavo abriu os olhos castanhos devagar, confuso, depois sorriu sonolento.
— Bom dia…
— Não é bom dia ainda. Minha mãe tá em casa. Meu irmão tá batendo na porta. Você tem que sair pela janela. Agora!
O sorriso de Gustavo morreu. Ele sentou rápido, coração disparando. Vestiu a cueca branca e a calça creme às pressas, dedos tremendo nos botões da camisa azul claro. Luiz Felipe se levantou nu, o corpo ainda marcado pelas unhas dele, o braço enfaixado latejando de leve. Pegou Gustavo pela nuca, puxou para um beijo rápido, intenso, cheio de urgência e carinho.
— Vai com cuidado. Te amo. Depois a gente se fala.
Gustavo assentiu, olhos brilhando de emoção e medo. Escalou a janela com agilidade, pulou para o quintal dos fundos e correu pela viela estreita, coração na boca.
Luiz Felipe vestiu a boxer preta correndo, pegou as coisas atrás do sofá, pratos, taças, vela, vinho e levou tudo para a cozinha em uma única viagem desajeitada. Lavou os pratos na pia com água fria, o barulho da torneira abafando o som do chuveiro no banheiro. Secou as mãos na toalha, respirou fundo, tentando acalmar o peito que subia e descia rápido.

Enquanto isso, Gustavo contornava a rua, quase esbarrando em Eduardo, que saía de casa de short e regata, mochila de academia no ombro. Gustavo se jogou atrás de um carro estacionado, agachado, coração martelando tão forte que achava que o pai ia ouvir. Eduardo passou reto, assobiando baixo, sem notar.
Gustavo esperou mais dez segundos, saiu do esconderijo… e deu de cara com Marcelo e Brian parados na calçada, se despedindo de Kenji na porta da casa.
— Bom dia. Você é o Gustavo, irmão do Eduardo amigo do meu primo Romário, não é?
Perguntou Marcelo, sobrancelha erguida, tom curioso e ligeiramente malicioso.
Gustavo congelou, rosto queimando. Gaguejou:
— É… sou. Bom dia.
Brian cruzou os braços, olhando Gustavo de cima a baixo.
— Impressão minha ou você tá tendo que entrar escondido na sua própria casa?
— Miguel, deixa pra lá. Você não tem nada a ver com isso!
Repreendeu Kenji, voz baixa, mas firme, os olhos escuros fixos em Gustavo com uma mistura de preocupação e cumplicidade.
— Eu não entendi nada.
Disse Brian, franzindo a testa.
Kenji suspirou.
— É melhor vocês irem trabalhar ou vão chegar atrasados.
Gustavo aproveitou a brecha.
— Eu já vou indo. Um bom dia e bom trabalho pra vocês.
Gustavo correu para o outro lado da rua, pernas tremendo, o rosto quente de vergonha e alívio. Entrou em casa pela porta dos fundos, andando na ponta dos pés e se jogou na cama, cobrindo o rosto com o travesseiro. O cheiro de Luiz Felipe ainda estava na sua pele, misturado ao suor da correria. Sorriu sozinho, coração ainda acelerado, mas agora de uma felicidade nervosa e doce.
Na casa próxima, Luiz Felipe terminou de guardar tudo, sentou na cama desfeita e passou a mão pelos cachos suados. Olhou para a janela por onde Gustavo saiu, o peito apertado de saudade e tensão. Pegou o celular e digitou uma mensagem rápida:
“Chegou bem? Tô morrendo de saudade já. Te amo, Tavinho.”
Enviou. E esperou, o sorriso crescendo devagar no rosto cansado, enquanto o som do chuveiro parava e os passos de Eulália ecoavam pelo corredor.


Gurizão entrou pela porta da cozinha com a sacola de pão balançando como se fosse um troféu de guerra, o cheiro de pão quente se espalhando. Avistou Luiz Felipe de costas, mexendo no café, e sem perder tempo desferiu um pescotapa estalado na nuca do irmão, daqueles que fazem eco.
— Fala, vacilão! Por que você não me mandou nem um “tô vivo” ontem, seu filho da mãe?
Luiz Felipe girou num pulo, olhos arregalados, e tapou a boca do irmão com a mão inteira, quase enfiando os dedos na garganta dele.
— Fala baixo, seu idiota! — sibilou, olhando freneticamente para o corredor. — Foi mal, apaguei. Dormi pesado.
Gurizão arrancou a mão do irmão com um tapa no pulso e abriu um sorriso malicioso, aproximando o rosto a centímetros.
— Ficou cansadinho foi? — sussurrou com voz de deboche, erguendo as sobrancelhas até quase sumirem na franja. — Então o chá de buceta foi daqueles bons, hein? Fala aí quem foi, vai! Foi a gostosa da Milena?
Luiz Felipe empurrou o peito do irmão com as duas mãos.
— Que Milena o caralho! Sai pra lá, seu arrombado!
— O quê que tem? — Gurizão abriu os braços dramaticamente, balançando a cabeça. — Só porque a mina vende foto e vídeo da xota? Tá rendendo uma grana preta, irmão! Sabe que até eu já pensei em abrir um privê meu? “Gurizão 18+”, o que acha?
— Gurizão, pelo amor de Deus, sete e meia da manhã e tu já com esses papos?
— Que papo é esse, eu posso saber?
A voz de Eulália cortou o ar como faca. Ela surgiu na porta da cozinha, braços cruzados, chinelo de dedo batendo no chão ritmadamente.
Luiz Felipe engoliu seco e abriu a boca, mas Gurizão foi mais rápido:
— É que…
— Nada não, mãe! — interrompeu Luiz Felipe, quase gritando, e deu um beliscão discreto, mas forte no braço do irmão. — O senhor aqui só tem tamanho, juízo mesmo é zero.
Eulália soltou uma risadinha seca. Enquanto todos sentavam a mesa, Eulália na cabeceira e cada um dos irmãos de um lado. Eulália disse:
— Puxou o pai. Ainda bem que você puxou a mim, senão eu tava ferrada com dois iguais.
Luiz Felipe deu uma gargalhada nervosa. Gurizão, no entanto, ficou vermelho igual pimentão, os olhos azuis saltando de raiva. Sem dizer nada, chutou violentamente a canela de Luiz Felipe por baixo da mesa. O outro devolveu na hora, um chute tão forte que a mesa tremeu e o açucareiro quase voou.
— Dá pra se comportar, seus dois marmanjos?! — Eulália bateu a mão aberta na mesa, fazendo os pães quicarem. — Será que dá pra tomar um café em paz uma vez na vida?
Gurizão se inclinou para frente, apontando o dedo na cara do irmão, voz tremendo de ódio contido:
— A senhora fala isso de mim, mãe, mas sabe o que o filhinho perfeito da mamãe fez ontem?
Luiz Felipe quase derrubou a xícara. Mas conseguiu se controlar e tomar as rédeas da narrativa:
— Desculpa, mãe! Eu sei que a senhora deixou janta pronta, mas deu uma vontade louca de strogonoff… Fiz uma bagunça na cozinha, mas juro que lavo tudo antes de ir pra loja!
Eulália estreitou os olhos, deu uma olhada da pia cheia de louça suja, voltou o olhar para Luiz Felipe e disse:
— Vai lavar mesmo, porque eu não sou empregada de ninguém. Deixei tudo impecável ontem e hoje eu quero sossego.
Enquanto ela falava, Luiz Felipe chutou Gurizão de novo por baixo da mesa. Gurizão devolveu com força dobrada. A perna da mesa rangeu.
— Gente, eu tô falando sério! — Eulália ergueu a voz, batendo o pé. — Vou ter que pegar o chinelo em dois marmanjo desses?
Gurizão explodiu, jogando a cadeira pra trás com um estrondo.
— Saco! Eu não vejo a hora de dar o fora dessa casa!
— Por mim pode sair agora! — retrucou Eulália, apontando o dedo. — Mas já fique sabendo que mulher e filho não são boneco, precisam de estrutura, de grana. Ainda mais hoje em dia que essas meninas não sabem nem fazer arroz e feijão direito, acham que estão fazendo muito! Querem delivery, unha de gel, cabelo até a bunda comprado na lojinha chinesa… Você sabe quanto custa uma unha daquelas?
— E o que isso tem a ver comigo sair de casa? — berrou Gurizão, veias saltando no pescoço.
— Tem que filho meu só sai de casa casado! Você não sabe nem fritar ovo, seu irmão pelo menos cozinha mais ou menos. Você? Nada!
— E eu vou aprender cozinhar pra quê, mãe? Tem lanchonete, restaurante, iFood, caralho!
Diz Gurizão já saindo da mesa indo para seu quarto.
— Eu tenho é dó da infeliz que pegar esse aí. Mas já vai avisada, no dia que eu descobrir que esse moleque tá namorando, eu chamo a coitada aqui e conto a vida inteira dele! Por falar nisso e você?
Luiz Felipe engasgou com o leite, tossiu violentamente, leite espirrando no queixo. Bateu no peito como se fosse morrer.
— Eu? Eu o quê, mãe?
— Quando é que você vai trazer uma nora pra mamãe conhecer? — Eulália cruzou os braços de novo, inclinando a cabeça. — Você já tem 26 anos, menino! E eu tô ligada que aquela piranha da Milena…
— Iiiii, a senhora também?! — Luiz Felipe se levantou num pulo, derrubando a cadeira pra trás. — Não quero nem saber o resto dessa novela!
Ele saiu marchando pro quarto, resmungando alto:
— Luiz Felipe! Volta aqui! A louça, Luiz Felipe! — Eulália gritou pro corredor. — Mas não tô falando, gente! Esses dois vão me matar do coração!

Autor: Mrpr2

Foto 1 do Conto erotico: Quando o amor incomoda - 23


Faca o seu login para poder votar neste conto.


Faca o seu login para poder recomendar esse conto para seus amigos.


Faca o seu login para adicionar esse conto como seu favorito.


Twitter Facebook



Atenção! Faca o seu login para poder comentar este conto.


Ultimos 30 Contos enviados pelo mesmo autor


254335 - Quando o amor incomoda - 22 - Categoria: Gays - Votos: 0
254275 - Quando o amor incomoda - 21 - Categoria: Gays - Votos: 0
254023 - Quando o amor incomoda - 20 - Categoria: Gays - Votos: 0
253835 - Quando o amor incomoda - 19 - Categoria: Gays - Votos: 0
253731 - Quando o amor incomoda - 18 - Categoria: Gays - Votos: 1
253497 - Quando o amor incomoda - 17 - Categoria: Gays - Votos: 2
253410 - Quando o amor incomoda - 16 - Categoria: Gays - Votos: 1
253345 - Quando o amor incomoda - 15 - Categoria: Gays - Votos: 0
253294 - Quando o amor incomoda - 14 - Categoria: Gays - Votos: 0
252868 - Quando o amor incomoda - 13 - Categoria: Gays - Votos: 1
252715 - Quando o amor incomoda - 12 - Categoria: Gays - Votos: 2
252561 - Quando o amor incomoda - 11 - Categoria: Gays - Votos: 0
252325 - Quando o amor incomoda - 10 - Categoria: Gays - Votos: 0
252269 - Quando o amor incomoda - 9 - Categoria: Gays - Votos: 0
252035 - Quando o amor incomoda - 8 - Categoria: Gays - Votos: 1
251878 - Quando o amor incomoda - 7 - Categoria: Gays - Votos: 1
251429 - Quando o amor incomoda - 6 - Categoria: Gays - Votos: 1
251320 - Quando o amor incomoda - 5 - Categoria: Gays - Votos: 1
251147 - Quando o amor incomoda - 4 - Categoria: Gays - Votos: 1
251068 - Quando o amor incomoda - 3 - Categoria: Gays - Votos: 0
250929 - Quando o amor incomoda - 2 - Categoria: Gays - Votos: 1
250834 - Quando o amor incomoda - 1 - Categoria: Gays - Votos: 0
247411 - A invasão da ex - Categoria: Gays - Votos: 3
247288 - Flagrados - Categoria: Gays - Votos: 14
246833 - Nosso segredo - Categoria: Gays - Votos: 2
246709 - Também tenho um segredo - Categoria: Gays - Votos: 5
246661 - Meu segredo - Categoria: Gays - Votos: 5
245684 - Não estou sozinho. - III - Final. - Categoria: Gays - Votos: 3
245431 - Não estou sozinho. - II - Categoria: Gays - Votos: 4
245280 - Não estou sozinho. - Categoria: Gays - Votos: 8

Ficha do conto

Foto Perfil mrpr2
mrpr-2

Nome do conto:
Quando o amor incomoda - 23

Codigo do conto:
254429

Categoria:
Gays

Data da Publicação:
11/02/2026

Quant.de Votos:
0

Quant.de Fotos:
1