Mateus morava no quadragésimo andar de um edifício de vidro no Jardins.
O apartamento parecia uma suíte de hotel onde ninguém realmente vivia:
silencioso, minimalista, caro demais. Mármore escuro. Livros organizados por tamanho. Obras de arte escolhidas mais pela atmosfera do que pelo significado.
Da varanda, São Paulo brilhava como um organismo infinito.
Ele gostava da cidade à noite. Gostava da maneira como ela escondia tudo.
Durante o dia, executivos, médicos, herdeiros e políticos caminhavam pelas ruas fingindo controle. À noite, tornavam-se outra coisa: solitários, carentes, anônimos.
Era isso que Mateus amava em São Paulo.
Sempre havia alguém procurando alguma coisa.
E ele tinha dinheiro suficiente para circular entre todos os mundos sem pertencer a nenhum. Restaurantes impossíveis de reservar. Hotéis discretos. Bares escondidos atrás de portas sem identificação.
Ninguém perguntava muito quando você chegava bem vestido e deixava gorjetas generosas. O dinheiro funcionava como perfume: encobria odores desagradáveis.
Naquela sexta-feira, a chuva havia parado cedo, deixando a cidade úmida e brilhante sob as luzes.
Mateus vestiu um terno preto leve, sem gravata. Relógio suíço.Perfume amadeirado discreto. Elegância calculada para parecer natural.
Pegou o elevador sozinho.
A recepcionista do prédio sorriu para ele imediatamente.
— Boa noite, senhor Mateus.
Ele retribuiu com gentileza automática.
As pessoas sempre confundiam educação com bondade.
O bar ficava escondido no subsolo de um hotel na Bela Vista. Luz baixa. Jazz antigo.
Homens bonitos fingindo casualidade enquanto observavam uns aos outros através dos copos.
Mateus sentou-se no balcão e pediu uísque.
Não estava com pressa. Nunca tinha.
Parte do prazer estava na observação.
Um homem sozinho mexendo compulsivamente na aliança.
Dois jovens ricos demais para parecer felizes. Executivos bêbados falando baixo perto das cortinas de veludo.
E então viu Clovis. Talvez trinta e poucos anos. Camisa branca aberta no colarinho.
Cansaço elegante no rosto.
O tipo de homem que parecia carregar algum vazio caro dentro de si.
Mateus percebeu imediatamente duas coisas: Clovis estava sozinho.E queria deixar de estar.
Seus olhares se cruzaram apenas uma vez antes de Clovis sorrir discretamente.
Mateus sustentou o olhar por tempo suficiente. Nem demais. Nem de menos.
Exatamente como alguém interessado,
não faminto.
Porque homens percebiam fome. E fugiam dela.
Uma hora depois, conversavam numa mesa afastada perto da parede de vidro.
Clovis trabalhava no mercado financeiro. Divorciado há pouco tempo. Morava sozinho em Pinheiros. Falava com a intimidade rápida de quem estava cansado de não ser ouvido.
Mateus escutava atentamente.
Às vezes tocava de leve o copo.
Às vezes sorria. Às vezes inclinava a cabeça como se cada detalhe importasse profundamente.
Era um talento. As pessoas adoravam ser observadas por ele.
Clovis riu de alguma coisa e encostou a mão na dele por alguns segundos.
Mateus sentiu aquele velho movimento interno. Desejo. Controle. Impulso.
Por trás do vidro do bar, São Paulo pulsava gigantesca e indiferente. Milhões de pessoas vivendo pequenas tragédias particulares enquanto carros riscavam avenidas molhadas lá embaixo. Mateus gostava disso. A cidade fazia tudo parecer menos real.
Clovis aproximou-se um pouco mais.
— Você tem um olhar estranho — disse, sorrindo. — Como se estivesse pensando em alguma coisa o tempo inteiro.
Mateus sorriu de volta.
E, por um instante muito breve, imaginou como Clovis ficaria imóvel.
Clovis percebeu o silêncio repentino.
— O que foi? — perguntou, ainda sorrindo.
Mateus piscou devagar, como se despertasse de um pensamento distante.
— Nada.
Mas era mentira. Já começava.
Aquele processo lento e inevitável em que uma pessoa deixava de ser alguém e se transformava numa possibilidade.
Ele observou Clovis erguer o copo novamente. Os dedos longos. O relógio caro. A tensão escondida atrás da postura relaxada. Homens como ele eram fáceis de reconhecer: bem-sucedidos demais para admitir solidão, tristes demais para recusarem atenção.
E Mateus sabia oferecer atenção como ninguém.
Saíram do bar perto das duas da manhã.
A cidade continuava viva ao redor deles.
Luzes vermelhas refletidas no asfalto molhado. Motocicletas cortando avenidas.
Casais fumando nas calçadas.
Música eletrônica escapando de portas entreabertas. São Paulo parecia infinita naquele horário.
Clovis sugeriu outro lugar. Um bar menor em Pinheiros. Mateus aceitou.
Dentro do carro, o silêncio entre eles tornou-se confortável. Clovis dirigia com uma das mãos enquanto a outra descansava perto do câmbio. Em determinado momento, tocou de leve o joelho de Mateus. Um gesto pequeno.
Humano. Mateus virou o rosto discretamente para a janela. Às vezes odiava o quanto desejava essas coisas.
O segundo bar era mais íntimo.Escuro.
Quase clandestino.
Sentaram-se perto do fundo, longe da música. Clovis falava mais agora.
Sobre o fim do casamento. Sobre noites vazias no apartamento. Sobre o medo absurdo de envelhecer sozinho.
Mateus escutava tudo com expressão calma. Por dentro, porém, começava a sentir aquela alteração familiar, o estreitamento da atenção, a percepção obsessiva dos detalhes, o impulso crescendo devagar sob a superfície elegante.
Clovis passou os dedos pelo próprio cabelo e riu cansado.
— Estou falando demais.
— Não . Mateus respondeu suavemente. Continue.
E era verdade. Ele gostava daquele momento.! A parte anterior à destruição.
A ilusão de intimidade.
Horas depois, já perto do amanhecer, estavam no apartamento de Mateus.
A cidade brilhava enorme além das janelas de vidro.
Clovis caminhava lentamente pelo lugar, impressionado sem querer demonstrar.
— Você vive bem.
Mateus serviu uísque para os dois.
— Eu gosto de conforto.
Clovis sorriu.— Não parece alguém que precise de companhia.
Mateus entregou o copo a ele.
— Todo mundo precisa.
A frase ficou pairando entre eles. Clovis aproximou-se devagar. Muito perto agora.
Mateus conseguia sentir o calor do corpo dele, o perfume misturado ao álcool, a expectativa silenciosa crescendo no apartamento. E junto dela veio outra coisa.
A necessidade. Fria. Precisa. Antiga.
Aquele olhar fixo de Clóvis, o deixou curioso Levantou e ficou de frente para Clovis baixou a calça com a cueca e aguardou a reação dele. Clovis olhou e não tocou na sua pica, mole: chegou bem perto, cheirou e colocou a glande na boca, começando uma chupada lenta, engolindo centímetro a centímetro.
A boca de Clóvis era quente, macia, aconchegante e Mateus teve uma ereção na mesma hora. Estava gostando daquilo. Com mais alguns minutos de mamada, pegou na mão de Clovis e o levou direto para a cama. Tirou toda sua roupa deixanso ele também nu, pegou toda a roupa, dobrou meticulosamente e colocou em uma mesinha que havia no quarto.
Clovis sentou na borda da cama e seguiu chupando a rola de Mateus. Mamava delicadamente, sem pegar na sua rola. A boca dele ia e voltava no seu caralho, suave, sem mordidas, sem apertar o seu pau, sem babar, sem bater na língua nem esfregar no rosto. Apenas mamava e se masturbava, enquanto Mateus curtia aquela novidade de olhos fechados. De repente, aquilo estava cada vez melhor e ele resolveu ir adiante.
Delicadamente, fez sinal para que Clovis deitasse, de bruços, fez com que levantasse os quadris e colocou sob ele um travesseiro grande. Passivamente, Clovis atendeu. Não falavam um com o outro, tudo acontecia automaticamente, como se tivessem ensaiado.
Apanhou um tubo de gel lubrificante, passou bastante na sua rola, e se abaixou, deu muitos beijos na bundinha branca, redondinha e arrebitada de Clóvis, lambeu muito o anelzinho, chupou por uns segundos e também passou bastant ok e gel na entradinha. Clovis apenas gemia baixinho. Feita essa preparação, montou nas costas dele, colocou a cabeça do caralho bem na entrada do furinho e empurrou para dentro. Clóvis deu um gemido longo, mas baixinho, e arrebitou a bundinha. Entendeu como sinal verde e devagar, foi penetrando até o fim.
Clovis sentiu que estava tudo dentro, gemeu de novo e deu uma reboladinha. Passou, então, a ir e vir, metia tudo e tirava quase tudo, deixando somente a glande no cu de Clóvis, que passou a rebolar a bundinha em sincronia. Quando Mateus metia tudo e parava uns segundos, ele rebolava mais rápido, quando começava a tirar, ele mexia os quadris mais devagar. Aquilo foi causando um enorme grau de excitação. De repente, o abraçou forte, passou os braços sob a barriga dele e colou seus corpos. Aquele sincronismo se tornou mais intenso. O prazer era grande, para ambos. Gemiam baixinho e suas respirações começaram a ficar descompassadas. Com uma das mãos, Clóvis batia punheta e com a outra, estendida para trás, procurando Mateus. Que logo entendeu o que ele queria. Enquanto o estocava, levantou o corpo um pouco mais, Clovis alcançou o seu pescoço, virou a cabeça para o lado e se beijaram na boca, de língua. A boca e a língua de Clóvis eram deliciosas, o tesão duplicou, além de beijá-lo, passou a língua na nuca de Mateus, foi com a ponta da língua invadindo a orelha dele, que se arrepiou todo, e gemeu mais ainda. Aquilo o deixou mais excitado ainda e ele beijou novamente a boca de Clóvis que correspondeu e segurou a sua cabeça, E foi assim que veio o gozo, forte, eletrizante, em meio a muitos gemidos e respirações fortes. Mateus inundou o reto de Clóvis de esperma e ele, não gozou. E, enquanto o pau de Mateus amolecia, e saía de dentro dele, Clovis se masturbava e teve um abundante orgasmo.
Clovis tocou seu rosto com cuidado inesperado.Aquilo quase estragou tudo.
Porque gentileza ainda conseguia confundi-lo por alguns segundos.Só alguns.
Lá fora, São Paulo começava lentamente a clarear.
E Mateus já pensava em como faria aquilo desaparecer antes do amanhecer completo.
Clovis o beijou primeiro. Lento.Cansado.
Como alguém tentando esquecer a própria vida por algumas horas.
Mateus correspondeu com a precisão de sempre, mas sua mente já começava a se afastar da cena, observando tudo de longe.
O desejo nunca durava muito nele. Transformava-se rapidamente em outra coisa. Controle.
Clovis encostou a testa na dele e sorriu de leve.
— Você parece triste até beijando.
A frase atravessou Mateus como uma lâmina fina. Por um segundo, Gabriel reapareceu em sua memória: a chuva,
o medo nos olhos, o silêncio depois.
Mateus afastou o pensamento imediatamente. Memórias eram perigosas.
A cobertura permanecia silenciosa ao redor deles, envolta naquela luz azulada do começo da manhã paulistana. O céu atrás dos prédios começava a perder a escuridão absoluta.
Clovis observava tudo com curiosidade discreta: os quadros,os livros,a organização impecável.
— Você mora aqui sozinho há muito tempo?
— Tempo suficiente.
Clovis riu baixo.
— Você sempre responde como se escondesse alguma coisa.
Mateus tirou o relógio devagar e o deixou sobre a mesa de cabeceira.
— Talvez eu esconda.
Aquilo deveria soar sedutor. Mas houve algo frio na maneira como falou.
Clovis percebeu.
Mateus viu a mudança mínima em sua expressão, quase imperceptível para qualquer outra pessoa.
A hesitação. Sempre começava assim.
Mais tarde, Clovis dormiu.
O quarto estava parcialmente iluminado pelo amanhecer. O trânsito distante começava a despertar lá embaixo, dezenas de andares abaixo da cobertura.
Mateus permaneceu sentado na poltrona perto da cama, observando-o.
A cena parecia familiar demais.
Homens dormindo em sua casa.
Corpos vulneráveis sob lençóis caros.
A cidade viva lá fora enquanto ele permanecia imóvel como alguma coisa artificial.
Clovis dormia de lado, respirando lentamente. Confiando nele.
Mateus sentiu o impulso surgir com força repentina. Não raiva. Nem prazer.
Necessidade. Como fome.
Levantou-se devagar e caminhou até a janela. São Paulo amanhecia cinza e gigantesca: helicópteros cruzando o céu,
ônibus começando rotas, padarias abrindo,
pessoas correndo para trabalhos que odiavam.
A cidade nunca parava. Talvez por isso ele a amasse tanto. Sempre havia outro rosto.
Outro corpo. Outra chance de começar a mesma história. Atrás dele, Clovis se moveu levemente na cama.
Mateus fechou os olhos por um instante. Depois virou-se lentamente.
E sorriu sozinho no quarto silencioso.
Clovis acordou perto das oito da manhã.
A cobertura estava vazia. Por um instante, pensou ter imaginado a noite inteira. O bar, o apartamento, os beijos, a sensação estranha de estar ao lado de alguém ao mesmo tempo elegante e profundamente distante.
Então viu o bilhete deixado sobre a mesinha ao lado da cama.
“Preciso resolver algumas coisas. Me encontre para almoçar.
Vou te mandar o endereço.”
Sem assinatura.
Ainda assim, Clovis sorriu.
Havia alguma coisa intoxicante em Mateus.
Algo calculadamente incompleto que fazia os outros quererem se aproximar mais.
Mesmo quando não deviam.
O endereço levou Gabriel até um restaurante discreto na região da Serra da Cantareira, afastado do centro de São Paulo. Lugar sofisticado. Reservado.
Frequentado por gente rica demais para gostar de multidões.
O almoço foi agradável.
Vinho caro. Conversa leve.Olhares demorados. Mateus parecia relaxado novamente, como se a tensão silenciosa da madrugada tivesse desaparecido.
Clovis começou a acreditar nisso. Quase acreditou.
Depois do almoço, Mateus sugeriu uma pequena trilha próxima ao restaurante.
— Tem uma vista bonita da cidade — disse calmamente. Clovis hesitou por poucos segundos antes de aceitar.
O caminho era úmido por causa das chuvas recentes. O som distante de carros desapareceu aos poucos enquanto avançavam entre árvores altas e neblina leve.
Mateus caminhava na frente. Elegante até naquele cenário.
Clovis observou o movimento tranquilo de seus ombros e sentiu novamente aquela estranha mistura de atração e desconforto.
Como se estivesse seguindo alguém que jamais conheceu de verdade. Quando chegaram ao mirante, São Paulo aparecia ao longe: imensa, acinzentada, quase irreal sob a fumaça e o céu pesado.
Os dois permaneceram em silêncio por alguns instantes.
Então Clovis falou:
— Acho que você é a pessoa mais difícil que já conheci.
Mateus sorriu sem virar o rosto.
— E mesmo assim você veio.
Clovis deu uma risada curta.
— Talvez eu goste de gente complicada.
Aquilo despertou imediatamente algo escuro dentro dele.
Porque Clovis ainda tentava aproximar-se.
Ainda insistia em enxergar humanidade onde não existia.
Mateus finalmente virou-se para ele. Os olhos calmos. Bonitos.Vazios.
— Você deveria ter ido embora hoje cedo.
A mudança no clima foi instantânea.
Clovis percebeu tarde demais.
— Mateus…
Havia medo agora. Pequeno. Crescente. O mesmo medo que ele já vira dezenas de vezes.
Mateus aproximou-se devagar.
Clovis recuou um passo instintivamente, o chão úmido deslizando sob seus pés.
— Espera. O que está acontecendo?
Mateus não respondeu. Porque explicar seria inútil. Como explicar um vazio?
Clovis tentou se afastar, mas Mateus segurou seu braço com força súbita e precisa. Os dois perderam equilíbrio por um instante perto da borda do mirante.
Clovis lutou imediatamente, confuso, aterrorizado.
— Mateus! Para!
A voz ecoou entre as árvores.
Mateus segurou seu pescoço. Não havia raiva em seu rosto.Nem prazer.Apenas concentração.
Clovis tentou empurrá-lo, arranhou seus braços, tropeçou na lama. O pânico deformava lentamente suas feições bonitas.
E aquilo, aquele instante exato em que alguém compreendia, sempre fazia o mundo ficar silencioso para Mateus.
Os sons da floresta desapareceram.
O vento desapareceu. A cidade desapareceu.
Só restava Clovis olhando para ele como se finalmente enxergasse alguma coisa monstruosa atrás da aparência perfeita.
Segundos depois, seu corpo parou de resistir.
Mateus o soltou lentamente.
Clovis caiu de lado na terra molhada, imóvel. A neblina avançava devagar entre as árvores. Por muito tempo, Mateus apenas observou o corpo. Então ajeitou o próprio casaco. Limpou discretamente as mãos.E voltou caminhando sozinho pela trilha.
Ao longe, São Paulo continuava pulsando sob o céu cinza. Indiferente.





A continuação consegue manter a qualidade do primeiro conto e aprofundar ainda mais os personagens. Mateus se torna um protagonista cada vez mais interessante. O suspense é bem construído, e explora um erotismo Dark. Em vez de focar apenas no romance tradicional, ele explora a atração em cenários de tensão, poder, perigo ou transgressão. sem perder o clima sombrio e misterioso que tornou o primeiro conto e tão marcante.
A densidade do enredo, com tantas nuances, deixa tudo sombriamente excitante. Que delícia de estória!!!