Por isso, passou a caminhar por trechos mais fechados, diminuiu a velocidade e se atentou às movimentações. Seu maior desafio foi quando, ao anoitecer, se deparou com os Falcões, grupo inimigo mortal dos Astros e de número amplamente superior com cerca de 200 integrantes.
Ao avistar, ainda distante, Kiara desviou o percurso. Resolveu tirar a diferença durante a noite, passando pelos morros sorrateiramente. Sua tática funcionou porque sempre teve habilidades de camuflagem à noite. Várias foram as vezes que conseguia surpreender animais de médio porte.
Mas agora ela poderia se tornar o alvo. E seria picadinha pelos Falcões se vacilasse.
Na madrugada, já do outro lado e prestes a sair definitivamente do campo de visão dos Falcões, uma gritaria lhe surpreendeu. Parecia uma espécie de festejo. Era a chegada do trio de Soberanos e os 20 membros de seu grupo.
Kiara tinha ficado tão possessa que não percebeu que ao pegar atalhos e outros percursos, tinha deixado os Soberanos para trás.
- Mas porque os Soberanos foram recepcionados pelos Falcões. Nenhum grupo tem relação com eles. - pensou.
Ela então voltou a se reaproximar, agora por meio de uma pequena floresta com árvores espaçadas. A movimentação aparentemente fez as linhas de defesa recuarem para o interior do acampamento.
Assim que se fixou no ponto mais próximo, ouviu tambores. Haveria uma festa. Estava na cara que iriam comemorar o fim dos Astros.
Ela então viu grupos de homens arrastarem suas poucas amigas sobreviventes para tendas. Elas berravam, pediam piedade, se humilhavam pedindo para serem liberadas. Mas em seguida, a algazarra indicava que eles iriam abusar delas, uma por uma.
Não era possível avançar sem ser notada e era mais impossível tomar qualquer providência. À medida que os fatos ocorriam, Kiara não podia fazer nada a não ser assistir e chorar.
Após os abusos, uma a uma era colocada numa cela a céu aberto. Elas tremiam, tinham perdido o brilho dos olhos. Não pareciam acreditar naquilo. Kiara pensava em ajudar ou fazer algo, mas nada seria possível de ser feito sem ser notada.
Ela então viu dois Soberanos relaxados saírem do acampamento e ouviu parte da conversa deles.
- Foi a melhor coisa que fizemos!
- Com certeza. Aquelas Soberanas já estavam me deixando enlouquecido. Não bastasse ser brocha, ainda tínhamos que fazer tudo. Agora podemos influenciar esses otários sem sermos surpreendidos. É ótimo ser Traidor do Império.
- E o melhor, eliminando qualquer ameaça em sua origem. O próximo passo será organizar esses grupos para dominarmos os continentes, repelir os Soberanos e, quem sabe, tomar as Ilhas e eliminar as Soberanas!
Os dois riram.
- As Soberanas acham mesmo que todos vão viver aquilo pra sempre. Eu pensei nisso até conhecer os continentes. Nunca imaginei que por aqui a nossa leitura mental nos tornaria reis.
- Primeiro agrupamos os Falcões. Com a nossa fama se espalhando, amanhã será os Kalahari e em breve teremos o maior exército continental.
- Eu queria mesmo era conhecer a Kiara, também!
- Nossa, sim! Você viu os pensamentos de Orlando? Ela é bem sexy.
- Sim, é a mulher mais gostosa que eu já vi. E olha que as Soberanas são bem lindas. Mas ele é bem pervertido também.
- Mas você viu o que ele já fez antes. Tá explicado porque os Falcões queriam matar os Astros. O cara praticamente abusou tudo que existia e se mexia.
- Pois é, no final fizemos um ato de bravura ao entregar esse cara pra eles.
- Fora que ele é um baita de um covarde. Tentou nos enganar quando cercamos ele falando que oferecia seu grupo em sinal de obediência. Mas a mente dele estava além, pensando que assim ganharia tempo pra depois nos eliminar.
- É um otário.
E riam novamente.
Kiara então voltou à realidade. Percebeu que os Soberanos acessavam a mente das pessoas. Orlando a desejava mesmo. E que ele não era nada do que tinha dito antes. Tudo a assolou.
O terceiro Soberano surgiu.
- Ei, venham, eles querem nos agradecer e formalizar parceria e amizade após trazer os Astros para eles eliminarem.
Então se afastaram. Kiara recobrou a consciência após não parar de pensar sobre o que ouviu e notou que a guarda tinha ficado mais baixa. Era possível avançar, mas com cuidado. Ela se dirigiu até próximo de onde as amigas Astro tinham sido jogadas, mas elas não a notavam. Passou a temer que isso pudesse lhe expor e então resolveu tentar ver o que aconteceria no acampamento.
Ela não ouviu mais nada que fosse possível entender claramente. Mas conseguiu ver gestos.
No centro do acampamento havia um círculo com uma fogueira no meio. Logo Orlando surgiu totalmente nu, com marcas de sangue e contusões. Estava claro que tinha apanhado bastante. Um dos Falcões trouxe a última mulher dos Astros, Fernanda, a mais bonita do grupo após Kiara, que ainda não tinha sido abusada. Tirou sua roupa com suas mãos e pés atados e comeu ela na frente dele enquanto Orlando era colocado em uma estrutura que lhe deixava com os braços esticados para cima.
Depois do primeiro, Fernanda foi entregue para os demais. Um por um comia Fernanda enquanto prendiam e ajustaram Orlando numa estrutura metálica cuspindo em seu rosto, humilhando e garantindo que ele veria tudo.
Quando Fernanda estava quase sem forças e Orlando estava preso a uma estrutura maior, os Falcões buscaram as outras mulheres presas. Algo que deixou Kiara amedrontada por passarem tão perto dela.
Orlando foi colocado sobre a fogueira. Mas não diretamente no fogo. E a estrutura passou a rodar seu corpo, como se ele estivesse sendo assado vivo. E enquanto seu corpo aquecia e ele gritava, os Falcões foram eliminando uma por uma, com requintes de crueldade. Fernanda, a última, foi eliminada quando Orlando aparentemente já estava com queimaduras e assaduras em todo o corpo. Em seguida, vários espetos foram usados para perfura-lo.
Em um único grito, o grupo festejou o fim dos Astros. Kiara, ainda assombrada com tudo e desesperada, saiu dali o mais rápido que pode sem olhar para trás. Não se importava se seria vista, apenas foi.
E ninguém a notou...