A sombra do desejo e a decepção extrema.

É uma mentira conveniente achar que uma mulher que trai não ama o seu marido. Eu amava o Tiago. Amava a nossa rotina, o cheiro do café que ele passava aos domingos, a segurança do seu abraço e a família linda que construímos juntos. O meu maior pavor era ver esse castelo de cartas desmoronar. Eu não queria outra vida; eu queria exatamente a vida que eu tinha. Mas havia uma força motriz dentro de mim, uma engrenagem que Maicon havia acionado e que agora girava sozinha, independente da minha moralidade. O caminho de descobertas e a realização de experiências sexuais que eu sequer sabia que existiam me puxavam para um abismo de onde eu não queria e não conseguia sair. Eu queria mais. Sempre mais.
E, no topo dessas descobertas, estava a lembrança daquela tarde às cegas.
Aquela venda de cetim parecia ter ficado permanentemente colada aos meus olhos. Eu não conseguia esquecer. Sempre que a casa ficava silenciosa, ou quando eu estava na cama com o Tiago sob o pretexto de ser uma esposa carinhosa, minha mente viajava de volta àquela poltrona erótica. Eu repassava cada toque daqueles três estranhos, mas um deles, em especial, havia se transformado na minha maior obsessão silenciosa.
Havia algo naquele homem. Eu não sabia explicar o que era. Não sabia se era o tamanho, a grossura da pica dele ou a forma como ele se encaixava em mim, mas aquela pica havia me proporcionado um preenchimento diferente de tudo o que já havia experimentado na vida. Era uma sensação física e psicológica que havia se gravado na minha carne. Sempre que o Tiago me possuía com sua doçura habitual, ou quando Maicon me usava com sua força de costume, eu fechava os olhos e imaginava que era aquele estranho me comendo e eu gosava como uma louca. Era a lembrança daquele preenchimento colossal que me fazia alcançar orgasmos violentos, deixando meu marido orgulhoso e meu amante satisfeito, sem que nenhum dos dois soubesse que compartilhavam a cama com o fantasma de um homem sem rosto.
Mas a realidade com o Maicon estava mudando, e não de um jeito bom.
Depois do episódio às cegas, a dinâmica de poder entre nós se consolidou de forma cruel. Ele não fingia mais qualquer ternura. Suas mensagens eram ordens diretas; ele me tratava e falava comigo como uma verdadeira puta, despido de qualquer filtro. Ele sabia que tinha quebrado a minha última barreira e se aproveitava dessa capitulação total. No calor do ato, aquela humilhação me incendiava, mas, com o passar dos meses, notei que o tom dele foi ficando diferente. Não era apenas dominador; estava ficando frio. Distante. As respostas rápidas tornaram-se monossílabas e os encontros, mais escassos.
Até que, após cinco meses de uma distância agonizante, meu celular tocou. Era o nome dele na tela. Atendi com o coração na boca, esperando um comando para um novo motel. Mas a voz do outro lado estava despida de qualquer tesão.
— Maria, estou com alguns problemas particulares sérios — disse ele, a voz seca, quase burocrática. — Preciso de um tempo. Quando eu resolver as coisas por aqui, eu te procuro. Não me mande mensagens.
O clique da ligação encerrada ecoou no meu ouvido como um tiro.
Fiquei sem chão. O impacto me deixou zonza. Eu era madura o suficiente para entender o subtexto daquela ligação: eu tinha acabado de tomar um belo pé na bunda. Sem explicações, sem direito a réplica. O homem que havia reescrito os limites do meu corpo simplesmente me descartou como um brinquedo que perdeu a graça.
As semanas se transformaram em meses, e Maicon realmente sumiu do mapa. Nenhuma mensagem, nenhuma visualização nos stories, nada. A ausência dele me corroía, não apenas pela falta do sexo, mas pela humilhação de ter sido deixada no escuro.
Um dia, incapaz de suportar o silêncio e a dúvida, tive uma ideia arriscada. Busquei no fundo dos meus contatos salvos o número do Gui — o amigo de Goiânia que havia participado do nosso trio e que, no fim, havia confessado ter sentimentos por mim. Eu sabia que ele ainda tinha uma queda por mim e que dificilmente me negaria uma resposta.
Disquei. Gui atendeu no segundo toque, surpreso e claramente balançado ao ouvir minha voz. Conversamos amenidades por alguns minutos até que eu respirei fundo e joguei as cartas na mesa.
— Gui, eu preciso te perguntar uma coisa... É sobre o Maicon. Ele sumiu. Me deu um gelo completo há meses dizendo que tinha "problemas particulares". Você sabe o que aconteceu?
Houve um silêncio pesado do outro lado da linha. Gui hesitou, limpou a garganta e, finalmente, soltou um suspiro carregado de lamentação.
— Maria... eu não devia te contar isso. Mas, pela consideração que tenho por você, acho que você merece saber a verdade. O Maicon caiu.
— Como assim "caiu"? — meu estômago despencou. — A esposa dele descobriu sobre nós?
— Não, Maria. Não foi sobre você — a voz do Gui tinha um tom quase de pena. — A esposa dele descobriu uma traição, sim. Mas foi com outra mulher. Uma vizinha deles, se quer saber. E, pelo que fiquei sabendo, a confusão foi feia. Ele teve que se afastar de tudo para tentar salvar o casamento. E a verdade, Maria... é que você não era a única. O Maicon tinha outras. Várias outras. Em quase toda cidade que ele viajava a trabalho, ele tinha um esquema parecido com o de vocês.
Aquelas palavras entraram na minha mente como estilhaços de vidro.
Desliguei o telefone logo em seguida, mal conseguindo me despedir do Gui. Sentei-me na beira da cama, sentindo uma náusea profunda. Chateada era um termo muito brando para o que eu estava sentindo; eu estava devastada.
Tudo o que Maicon havia construído na minha mente — a imagem de um homem maduro, transparente, que prezava pela discrição e pelo respeito mútuo às nossas famílias — era uma mentira barata. Ele não era um estrategista sofisticado que compartilhava comigo um "pacto de sobrevivência emocional". Ele era apenas um canalha comum, um viciado em adrenalina que colecionava mulheres e usava o discurso da cumplicidade para alimentar o próprio ego e fetiches doentios.
A ilusão do nosso "jogo limpo" havia sido desfeita da pior forma possível. Eu estava sozinha, com o corpo modificado por experiências extremas, viciada em sensações perigosas e com a lembrança obsessiva de um estranho que me preenchera de forma única.
Maicon havia sumido, mas a Maria que ele havia criado continuava ali, faminta e sem rédeas.

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Comentários


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pabulosodre Comentou em 15/07/2026

Um belo relato...espero que de a volta bem por cima...




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Ficha do conto

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Nome do conto:
A sombra do desejo e a decepção extrema.

Codigo do conto:
267243

Categoria:
Traição/Corno

Data da Publicação:
15/07/2026

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3

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