“Você gostaria que eu estivesse?”
Eu tinha escrito aquilo.
Eu
Não o vinho
Não a solidão
Não a fantasia
Eu
E talvez fosse justamente isso que me deixasse tão inquieta
Ele demorou alguns minutos para responder
Tempo suficiente para eu imaginar dezenas de respostas possíveis
Quando finalmente apareceu a notificação, meu coração acelerou
— Gostaria
Só isso
Uma palavra
Fiquei olhando para ela
Ele sabia como mexer comigo
Eu poderia responder
Poderia transformar aquilo em uma conversa de verdade
Poderia descobrir o que ele queria
Mas não respondi
Coloquei o celular virado para baixo e fui até a cozinha
Abri a geladeira sem fome
Peguei água
Voltei para a sala
O apartamento estava silencioso
André estava longe
E, pela primeira vez, aquela distância parecia ter criado um espaço que eu não sabia se queria preencher ou preservar
Sentei no sofá
Meu celular vibrou novamente
Não era ele
Era André
— Como você está?
Sorri
— Bem. E você?
A resposta veio quase imediatamente
— Com saudade
Fiquei alguns segundos sem escrever
Depois perguntei:
— E ele?
Demorou
Então apareceu:
— Achei que você não fosse perguntar
Sorri
— E?
— Acho que está por aí
— Onde?
— Não sei
— Você está imaginando?
— Talvez
Fechei os olhos por um instante
Era estranho
Enquanto eu conversava com um homem real que morava alguns andares acima, enquanto conversava com aquele que estava na minha cabeça, André e eu continuávamos brincando com uma presença que talvez nunca tivesse um nome dentro da nossa relação
E aquilo me fez perceber uma coisa
Eu não queria perder nenhuma das sensações
A realidade
E a fantasia
Talvez porque uma me lembrasse de quem eu era
E a outra me permitisse descobrir quem eu poderia ser
O celular vibrou outra vez
O vizinho
— Você desapareceu
Olhei para a mensagem
Dessa vez, não sorri
Fiquei pensando
Havia uma diferença entre gostar de ser desejada e querer alguma coisa daquela pessoa
Eu ainda não sabia exatamente onde estava essa diferença
Digitei:
— Eu estava ocupada
Ele respondeu:
— Pensando em quê?
Apaguei a primeira resposta
Depois a segunda
Até que escrevi:
— Em coisas que não são da sua conta
Enviei
Meu coração acelerou
Alguns segundos depois:
— Então deve ser interessante
Sorri
Era
Mas não respondi
Naquela noite, dormi pensando na conversa com ele, não o vizinho
Na manhã seguinte, encontrei o vizinho no elevador
Foi inesperado
Eu entrei no elevador olhando para o celular e só percebi que ele estava ali quando as portas começaram a fechar
— Bom dia
Levantei os olhos
— Bom dia
Houve um silêncio
Um daqueles silêncios que antes seriam completamente normais
Agora não eram
Ele me olhou
Eu olhei para ele
Nenhum dos dois mencionou as mensagens
E percebi que ele havia aberto uma porta e acabei, sem perceber, não deixando que ele entrasse
— Dormiu bem? — ele perguntou
— Mais ou menos
— Eu também
Sorri
— Insônia?
— Talvez
As portas se abriram
E eu saí
Caminhei pelo corredor sem olhar para trás.
Até ouvir:
— Ei
Virei
Ele estava parado na porta do elevador
— Sim?
Ele sorriu
— Nada
E as portas se fecharam
Fiquei olhando para o elevador vazio
Meu coração estava acelerado novamente
Mas, dessa vez, não era pela atenção do vizinho
Era pela dúvida
Até onde aquilo poderia chegar?
Com o vizinho?
Com aquele que vinha na minha cabeça?
Voltei para o apartamento e encontrei uma mensagem de André
— Está tudo bem?
Parei
Era como se ele tivesse percebido alguma coisa mesmo estando a quilômetros de distância
Respondi:
— Está
Depois acrescentei:
— Acho que estou descobrindo algumas coisas sobre mim
Ele demorou um pouco
— E está gostando?
Pensei antes de responder
— Estou
A resposta dele foi simples:
— Então continua descobrindo
Fiquei olhando para aquela frase
André não estava me dando permissão
Eu sabia disso
Também não estava pedindo
Talvez aquilo fosse ainda mais importante
Ele confiava em mim
E, naquele instante, percebi que confiança não significava ausência de limites
Significava poder falar sobre eles
Levantei do sofá
Fui até o espelho
Olhei para mim mesma
A mulher que estava ali ainda era a mesma
Esposa
Companheira
Mulher casada
Mas agora havia alguma coisa a mais
Uma curiosidade que eu não conseguia mais fingir que não existia
O celular vibrou
Uma mensagem:
— Café, cerveja ou água qualquer dia?
Fiquei imóvel
Parecia que ele lia meus pensamentos
Que sabia que me visitava sempre
Era uma pergunta simples
Mas eu sabia que não era apenas sobre café
Poderia ser
E talvez esse fosse o problema
Havia sempre uma explicação inocente disponível
Um café
Uma conversa
Um sorriso
Uma mensagem
Uma porta entreaberta
O que importava não era o que cada coisa significava para ele
Era o que significava para mim
Digitei uma resposta
Apaguei
Digitei outra
Apaguei novamente
Até que percebi que estava sorrindo
Então escrevi:
— Talvez
Enviei
Coloquei o celular sobre a mesa
E, pela primeira vez, não senti culpa
Senti curiosidade
Porque agora eu sabia que a verdadeira pergunta não era se aquela porta deveria permanecer aberta
Era outra
Eu queria descobrir até onde iria antes da porta ser escancarada
ramone84