Todos foram embora.
Meu pai foi o primeiro. Deu um beijo na minha testa, disse "melhora, filha", e saiu. Minha mãe foi depois, depois de lavar a louça e guardar as sobras. Fernando levou o Antônio pro quarto, colocou ele pra dormir, e saiu pra trabalhar (ele tinha voltado só pro almoço).
A casa ficou em silêncio.
Eu fiquei sozinha.
Deitei no sofá por um tempo. Fechei os olhos. Respirei fundo. A febre tinha baixado. A diarreia tinha parado. O cu ainda ardia, mas menos. O corpo ainda doía, mas menos. A vergonha... a vergonha ainda estava lá.
O cocô.
O cocô no corredor.
O pedaço de cocô que tinha caído no chão enquanto o pau do meu marido saía da minha vagina.
Eu não tinha limpado. Não tinha conseguido. Na hora, eu só queria descer pro almoço, fingir que nada tinha acontecido, e esquecer. Mas não tinha esquecido. Não dava pra esquecer. O cocô estava lá. No chão do quarto. Esperando.
Levantei. Cambaleando. Fui até o quarto.
Lá estava ele.
O pedaço de cocô. A obra de arte do desespero. No piso claro do quarto. Já estava meio seco, meio grudento. Eu olhei pra ele e pensei: "Como eu cheguei a esse ponto?"
Não sei.
Respirei fundo. Peguei um rolo de papel toalha. Me abaixei. O cheiro ainda estava lá — um cheiro azedo, de diarreia, de humilhação. Meu nariz escorria, a febre ainda estava baixa, mas eu sentia o cheiro.
Peguei o cocô com o papel.
A sensação foi estranha. O cocô estava mole, grudento, quente ainda (mesmo depois de tanto tempo). Eu senti ele esmagar entre os dedos, através do papel. A textura, a consistência, a temperatura. Minha mão tremeu. Meu estômago revirou.
Eu queria matar o Fernando! Estava cheia de ódio dele! Passei 3 dias sem falar com ele.
Coloquei o cocô no lixo. Limpei o chão. Passei desinfetante. Passei de novo. Passei mais uma vez. O cheiro sumiu. O chão ficou limpo. Mas a vergonha e o ódio não sumiu.
Joguei o papel no lixo. Fechei a tampa. Fiquei ali, parada, olhando pro lixo. O cocô estava lá. O cocô que tinha saído de mim. O cocô que eu tinha recolhido.
Fui pro banheiro. Tirei a calcinha amarela. Ela estava manchada de bosta atrãs e de porra na frente. Joguei no lixo. Tirei o short. Também estava manchado. Joguei no lixo. Fiquei pelada.
A água do chuveiro caiu no meu corpo. Quente. Aliviando. A água descia pelas minhas costas, pelas minhas pernas, levando o suor, a febre, a vergonha mas não a raiva do Fernando. O vapor encheu o banheiro.
Fiquei ali por muito tempo. A cabeça encostada na parede. A água quente escorrendo. Os olhos fechados.
O Antônio acordou. Ouvi o choro. Saí do chuveiro, enrolei a toalha na cintura, fui buscar ele. Ele arregalou os olhos olhando pros meus peitos.
— Mamãe! — ele gritou.
— Tô aqui, filho. Tô aqui.
Peguei ele no colo. Ele parou de chorar. Colou a mãozinha no meu peito e apertou.
— Mamãe! — ele disse, apontando os meus peitos.
— Vamos tomar banho?
— BANHO!
Levei ele pro banheiro. Coloquei ele de baixo do chuveiro. Lavei o cabelo, as costas, a barriga, o bumbum e o pintinho dele. Ficou durinho ele riu. Fez bolhas. Jogou água em mim.
E naquele momento, no banheiro, com a água morna, o cheiro de sabão, a risada do meu filho, eu esqueci um pouco do cocô. Esqueci um pouco da vergonha. Esqueci um pouco do dia horrível.
O Antônio olhou pra mim. Sorriu. A mãozinha dele tocou meu rosto.
— MAMÃE! — ele disse, feliz.
— Isso, filho. Mamãe.
Eu sorri de volta.
Porque, no fundo, a vida é isso. É cagar no chão, recolher o próprio cocô, tomar banho com o filho, e rir.
Depois do banho, vesti o Antônio. Coloquei ele pra brincar no tapete. Fiquei na sala, deitada no sofá, exausta.
Mas mais leve.
O cocô tinha sido recolhido. O chão tinha sido limpo. A vergonha ainda estava lá, mas menor. Porém a raiva do Fernando durou dias.
Dormi.
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Vc cagou e o Fernando se fuder kkkkk. Amei o relato inteiro. Começo, meio e fim.
morenossaba literalmente na merda kkk
Você deve ser uma pessoa muito boa de se conviver, esse seu humor mesmo na "merda" é hilário! Kkkk que bom que no final o filho pelo menos tirou um pouco de sua raiva...
Ah aí sim agora estar o espírito renovado
Kkkkkk Mais tbm depois de tudo que aconteceu kkkk
negao34 tirei ferias kkk
negao34 fiquei quase duas semanas sem dar
Oi Pamela senti sua falta Coitado do Fernando ficou dias sem dar um boa transada
charmer kkkkk
"Porque, no fundo, a vida é isso. É cagar no chão, recolher o próprio cocô, tomar banho com o filho, e rir." Bela filosofia de vida.... kkkkkk