Osom do aspirador cortava o silêncio da tarde de quarta-feira quando Mariana ouviu a campainha. Ela desligou o aparelho com um pontapé no botão e foi até a porta, ainda segurando o cabo suado. Do outro lado, parado no corredor com uma caixa de papelão nos braços, estava o novo vizinho do 304.
Ele era mais novo. Muito mais novo. Olhos castanhos com aquele brilho de quem ainda não aprendeu a desconfiar do mundo. Camiseta regada colada ao corpo, cabelo bagunçado de quem carregou móveis a manhã inteira. Um sorriso largo, dentes branquíssimos.
— Oi — ele disse, ajustando a caixa contra o peito. — Sou o Lucas. Acabei de me mudar ao lado. Pensei em me apresentar antes de fazer muito barulho.
Mariana ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha. Sentiu o calor subir pelo pescoço e se espalhar nas bochechas. Sempre fora assim — qualquer situação inesperada e o sangue subia à face como se o corpo a denunciasse antes de qualquer palavra.
— Mariana. Prazer, Lucas. Precisa de ajuda com alguma coisa?
— Na verdade, sim. — Ele ergueu a caixa um pouco mais. — Minha chave caiu dentro do apartamento e a porta trancou. Síndico só vem amanhã. Eu estava pensando em pular pela sua varanda, já que é colada na minha. Posso?
Ela arregalou os olhos. A ideia era absurda. O vão entre as duas varandas era de quase dois metros, no décimo andar. Mas Lucas já estava olhando para ela com aquela expressão confiante, como se pular entre prédios fosse a coisa mais natural do mundo.
— Isso é perigoso, Lucas. Você pode cair.
— Eu faço parkour. Há três anos. É tranquilo.
Mariana mordeu o lábio inferior. O rubor na face dela intensificou-se. Ela abriu espaço para ele entrar e notou como ele se movia — ágil, leve, cada passo calculado. Os braços definidos pulsavam ao colocar a caixa no chão da sala. Ele vestia um short que terminava acima do joelho, mostrando pernas musculosas e bronzeadas.
— Pode ir pela varanda — ela disse, apontando para o fundo do apartamento. — Mas se machucar, eu não vou assumir a culpa.
Lucas riu. Um som solto, sem malícia. Passou por ela e o cheiro dele atingiu Mariana como uma onda — suor fresco, amaciante barato, algo adocicado por baixo. Ela ficou parada no mesmo lugar por alguns segundos, respirando o rastro que ele deixou no ar.
Na varanda, Lucas apoiou as mãos no corrimão de metal e avaliou a distância. O vento da tarde jogava o cabelo dele para o lado. Mariana ficou na porta de vidro, braços cruzados sobre o peito, observando. Ele subiu no corrimão com a facilidade de quem sobe um degrau, equilibrando-se com os braços abertos. Os músculos das costas se desenharam por baixo da camiseta — a linha da coluna, as escápulas movendo-se como dobradiças.
— Tá tudo certo? — ela perguntou, a voz mais fina do que pretendia.
— Tá. Já volto.
Ele saltou. O corpo dele cruzou o espaço entre as duas varandas com uma precisão cirúrgica, pousando com os dois pés no piso do 304. Mariana soltou o ar que nem percebera que estava segurando. A mão dela estava apertando o próprio braço com força.
Lucas acenou de lá, desapareceu para dentro do apartamento. Ela ouviu o barulho de uma porta se abrindo, passos, e depois silêncio. Voltou para a sala e sentou no sofá, pernas cruzadas, tentando organizar os pensamentos. O coração batia mais rápido do que o normal. Ela culpou o susto.
Dez minutos depois, a campainha tocou novamente. Era Lucas, agora do lado de fora, com a chave na mão e um sorriso vitorioso.
— Consegui. Muito obrigado, Mariana. — Ele fez menção de ir embora, mas parou. — Olha, eu vou terminar de desembalotar umas coisas agora. Vai fazer um barulho danado. Queria te convidar pra tomar uma cerveja mais tarde, como pedido de desculpa pelo incômodo. Aceita?
Ela ia recusar. A palavra "não" estava na ponta da língua, pronta para sair com a naturalidade de quem sempre diz não a convites inesperados. Mas o rosto dele era aberto, expectante, sem nenhuma segunda intenção visível. E o calor nas bochechas dela estava de volta, espalhando-se até as orelhas.
— Tá bom. Que horas?
— Oito?
— Oito está bom.
Ele sorriu novamente, acenou com a cabeça e foi embora pelo corredor. Mariana fechou a porta e encostou nela. O coração continuava acelerado. Foi até o banheiro, lavou o rosto com água fria e se olhou no espelho. As bochechas estavam rosadas, os olhos um pouco arregalados. Ela respirou fundo três vezes, como havia aprendido na aula de yoga, e voltou para a sala.
Continua...
