Marcos estava em casa, vestido como sempre ficava quando não esperava ninguém: camiseta velha, bermuda masculina, chinelo. Nada de espelho, nada de Marina naquela manhã, pelo menos não ainda. O dia prometia ser comum, e isso era quase um alívio.
A campainha tocou perto das dez.
Marcos estranhou. Não lembrava de encomenda, visita, nada marcado. Abriu a porta com a expressão de quem ainda estava organizando a própria manhã.
Do outro lado, um rapaz alto, uniforme da operadora, mochila apoiada em um ombro.
— Bom dia — disse ele, fácil, como quem já fala antes de ser convidado.
- Vim fazer a troca de um equipamento aqui da residência.
Marcos franziu o rosto.
— Troca? Mas… ninguém me avisou de nada.
Lucas deu um meio sorriso, desses treinados pela rotina.
— Pois é. A central anda falhando nisso. — Levantou a prancheta. — Mas é coisa rápida. Se você preferir, posso voltar outro dia.
Marcos hesitou menos do que esperava.
— Não… pode entrar.
Quando Lucas passou pela porta, Marcos sentiu o atraso da memória.
— Espera… — disse. — Você não é o técnico que veio aqui da outra vez? Com o Rafael?
Lucas virou o rosto, surpreso só o suficiente para parecer interessado.
— Sou eu mesmo.
O nome “Rafael” ficou no ar por um segundo a mais do que deveria.
Lucas entrou, olhou ao redor com curiosidade prática, e começou a falar enquanto abria a mochila. Falava fácil demais. Sobre o calor, sobre visitas de sábado, sobre prédios onde nada funciona direito.
Marcos respondia. Marina observava.
Lucas fechou a mochila com um estalo discreto e passou os olhos mais uma vez pelo aparelho recém-trocado.
— Pronto. — disse. — Agora é só observar por uns dias, mas em tese está tudo certo.
Marcos assentiu, mas ninguém se moveu imediatamente.
A televisão estava ligada, um programa qualquer passando sem atenção real.
Lucas ficou de pé perto do sofá, apoiando o peso em uma perna só, como quem não tinha pressa. Marcos percebeu isso com um atraso curioso.
— Quer… beber alguma coisa? — perguntou, quase automático.
Lucas arqueou uma sobrancelha, rindo.
— Se eu não estivesse trabalhando, até uma cerveja eu aceitava.
Marcos sentiu o rosto esquentar.
— Cerveja eu tenho… — disse, mais solto do que imaginava.
Lucas riu de verdade dessa vez.
— Água tá ótimo. Antes que eu me complique.
Marcos foi até a cozinha. Marina foi junto. Não no sentido literal — o corpo continuava o mesmo, a camiseta larga, a bermuda masculina. Mas por dentro, ela estava ali. Observando o jeito como Lucas ocupava o espaço da casa, como falava como se já tivesse estado ali outras vezes.
Quando voltou com o copo, Lucas agradeceu com um sorriso aberto, desses que não pedem nada, mas também não afastam.
— Sábado é o melhor dia pra essas trocas — comentou ele. — Casa vazia, menos reclamação depois.
— Pois é — Marcos respondeu. — Normalmente não avisam nada…
— Normal da central — Lucas riu. — Eles avisam quando lembram.
O silêncio que veio depois não foi constrangedor. Foi… curioso.
Lucas olhou ao redor, como quem finalmente repara no ambiente depois do trabalho feito.
— Você mora sozinho?
— Com meu pai — Marcos respondeu. — Hoje ele não está.
— Melhor assim — Lucas disse, sem pensar muito. — Menos gente em cima.
Marcos riu baixo. Marina sentiu o riso também.
Houve um instante em que Lucas olhou direto para ele. Não foi rápido. Não foi invasivo. Apenas um olhar sustentado por um segundo a mais do que o necessário para educação.
— Você mudou um pouco desde a outra vez — comentou Lucas, casual.
Marcos sentiu o estômago apertar.
— Mudei?
— Não sei… — Lucas deu de ombros. — Tá mais solto. Naquele dia você quase não falava.
Era verdade. E Marina percebeu que não tentou negar.
— Acho que era a situação — respondeu Marcos. — Muita gente, correria.
Lucas assentiu, como se entendesse mais do que estava sendo dito.
— Rafael também é mais quieto — comentou. — Eu já falo demais.
— Dá pra perceber — Marcos respondeu, e sorriu.
O sorriso ficou no ar.
Lucas tomou o último gole de água e apoiou o copo na pia, sem pressa de ir embora. Olhou o celular por cima, mas não desbloqueou.
— Bom… — começou. — Em tese, era só isso.
A frase ficou incompleta.
Ele não se mexeu.
Marcos também não.
Marina percebeu, com uma clareza nova, que não estava encolhida. Estava de pé, apoiada no batente da porta, sentindo o próprio peso distribuído no corpo, o calor da casa, o tecido da roupa tocando a pele. Não havia urgência em desaparecer.
— Se der qualquer coisa estranha… — Lucas continuou. — Esse tipo de aparelho às vezes pede um retorno.
— Imagino — Marcos respondeu.
Lucas tirou um cartão do bolso da mochila e colocou sobre a mesa.
— Meu contato direto. Mas eu devo voltar amanhã ou na segunda pra conferir se ficou tudo redondo.
Marcos pegou o cartão.
— Certo.
Lucas caminhou até a porta, abriu, e antes de sair virou o corpo só o suficiente para olhar de novo.
— A cerveja… — acrescentou, com um meio sorriso — eu volto pra conferir o aparelho… e pra isso também.
Gostaria de comentários do que estão achando

Estou acompanhando tudo tbm
Delícia de rabo hein
Delicia de rabo e de pacote