Mas sempre que Marcos sugeria um encontro, de forma leve, quase casual, vinha a recusa. Trabalho acumulado. Semana cheia. Cansaço. Não era a primeira, nem a segunda. Já eram várias, espalhadas ao longo daquelas duas semanas. Marcos entendia. Sempre entendia. Ainda assim, algo se acumulava no fundo do peito: a sensação de estar disponível demais para alguém que nunca estava.
Lucas havia aparecido uma semana depois da última visita de Rafael. Uma visita inesperada, direta, física, sem planejamento. O corpo de Marcos ainda guardava aquela memória como algo recente, quase quente demais para ser organizada. Eles haviam trocado algumas mensagens após, mas tudo parecia muito nebuloso.
Naquela sexta-feira à noite, Marcos estava cansado de pensar nisso.
O dia havia sido comum demais. Trabalho, transporte, calor. Ao chegar em casa, tomou um banho rápido, vestiu uma camiseta escura e uma calça jeans simples. Não havia intenção de se produzir. Não havia espelho. Não havia Marina declarada. Ainda assim, ao sair, algo nele já estava levemente inclinado para frente, o corpo se apoiando mais na ponta dos pés do que nos calcanhares, um detalhe quase imperceptível, mas antigo.
Ele não tinha destino. Apenas andou algumas quadras, sentindo o ar da noite mais fresco que o de dentro de casa. Parou em frente a um bar que já havia passado inúmeras vezes sem entrar. Luz amarela, mesas simples, televisão ligada acima do balcão. Não estava cheio, mas também não estava vazio. Um meio-termo confortável.
Marcos hesitou apenas alguns segundos antes de entrar.
Sentou-se em uma das cadeiras altas de frente para o balcão. Apoiado levemente para frente, os cotovelos próximos às coxas. A postura fazia com que o quadril se projetasse um pouco mais para trás, mesmo sem intenção consciente. Pediu uma cerveja ao barman, quase sem voz, e ficou observando o ambiente enquanto esperava.
O bar tinha um cheiro misturado de álcool, fritura e fumaça antiga. Algumas pessoas conversavam em mesas ao fundo. Dois homens discutiam algo baixo perto da porta. A televisão transmitia um jogo, mas Marcos só percebeu isso depois.
Quando a cerveja chegou, ele deu um gole pequeno, mais para ocupar as mãos do que por gosto. Não tinha costume de beber. Sentia o corpo atento demais, como se estivesse fora de casa pela primeira vez em muito tempo.
Foi quando alguém se sentou ao seu lado.
Marcos percebeu primeiro pelo peso deslocando o ar, depois pelo cheiro de cigarro recente. Virou o rosto de leve. O homem era mais alto que ele, por volta dos trinta e cinco anos, talvez um pouco mais. Tinha uma barriga discreta que esticava a camiseta, braços peludos apoiados no balcão e uma barba por fazer que dava ao rosto um aspecto cansado, mas firme. Não era bonito de forma óbvia, mas havia algo sólido ali.
— Boa noite — disse o homem, já sinalizando ao barman com familiaridade.
— Boa — Marcos respondeu, quase automático.
O barman trouxe a bebida dele sem perguntar o que era. Isso chamou a atenção de Marcos.
— Sempre isso — o homem comentou, levantando o copo em agradecimento.
Havia algo no jeito como ele ocupava o espaço. Não expansivo, mas seguro. Como alguém que sabia exatamente onde estava e por que estava ali.
— Bruno — disse ele, depois de alguns segundos, estendendo o copo levemente na direção de Marcos. — E você?
— Marcos.
Bruno assentiu, como se confirmasse algo para si mesmo. Olhou rapidamente para a televisão, depois voltou o olhar para Marcos.
— Jogo tá feio hoje — comentou. — Mas sexta à noite aqui nunca foi sobre a TV.
Marcos sorriu de canto, sem responder. Sentiu o olhar de Bruno deslizar rapidamente por ele, não de forma escancarada, mas suficiente para ser percebido. Passou pelos ombros, pela postura inclinada, demorou um pouco mais nas pernas.
— Não te vejo muito por aqui — Bruno disse. — Ou talvez eu só tenha começado a reparar agora.
Marcos deu outro gole na cerveja, sentindo o amargor se misturar com um calor leve no estômago.
— Primeira vez — respondeu.
— Faz sentido.
Bruno tirou um cigarro do bolso, levou à boca e acendeu, inclinando-se um pouco para frente. A chama iluminou o rosto por um segundo. Quando soltou a fumaça, falou com a voz baixa, quase casual demais:
— Costumo vir aqui e raramente vejo alguém dando mole assim sem nem perceber.
Marcos sentiu o impacto da frase antes mesmo de processá-la. O coração acelerou de leve. Não havia sorriso provocador exagerado no rosto de Bruno, apenas um canto de boca levantado, como quem diz algo óbvio.
— Não estou dando mole — Marcos respondeu, mais rápido do que pretendia.
Bruno riu baixo.
— Quase ninguém acha que está.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Pelo contrário. Havia uma tensão simples, direta, sem floreios. Marcos percebeu como Bruno era diferente de Rafael, menos cuidadoso, menos observador, e ainda mais diferente de Lucas, que parecia sempre em movimento. Bruno era estável. Presente. O tipo de homem que não precisava se explicar muito.
Bruno terminou o cigarro, apagou no cinzeiro e virou o corpo um pouco mais para Marcos.
— Olha — disse, sem rodeios — ali perto tem uma rua mais tranquila. Costumo ir lá quando quero conversar sem barulho… ou quando a conversa pode ficar menos conversa.
Falou isso já se levantando da cadeira, como se a decisão estivesse tomada antes mesmo da frase terminar.
— Vou indo — completou. — Se quiser, aparece.
Bruno saiu primeiro, empurrando a porta do bar com o ombro. Marcos ficou parado, a cerveja ainda pela metade na mão. Sentia o coração bater forte demais para algo tão simples. Apesar de tudo o que já havia vivido, aquilo era diferente. Não havia promessa, não havia vínculo, não havia histórico.
Havia apenas a escolha.
Marcos terminou a cerveja de uma vez só, deixou o dinheiro no balcão e respirou fundo antes de se levantar.
Do lado de fora, a noite parecia mais silenciosa do que antes.
Ele deu o primeiro passo sem saber exatamente por quê.
E isso, por si só, já era novidade demais.
Que Marcos de sorte!