A noite em que finalmente entrou no Clube do Olhar parecia inventada.
Uma porta estreita em uma ruazinha escondida da cidade, neon vermelho suave,
e um aviso claro na recepção:
“Aqui, tudo que acontece é consensual e ninguém finge que não quer ver.”
O salão principal era amplo, iluminado só por lâmpadas âmbar que deixavam as sombras mais interessantes do que os corpos. Pessoas conversavam baixinho, taças tilintavam, e o ar era carregado daquela energia densa de expectativa que só existe quando todos ali compartilham o mesmo segredo.
No centro, uma estrutura enigmática:
uma sala de vidro fumê, quadrada, suspensa levemente acima do chão.
De fora, só se via silhuetas.
De dentro, via-se tudo.
Quando a anfitriã — vestido preto, sorriso perigoso — tocou seu ombro, Marcos sentiu a pele inteira responder.
— É a sua primeira vez?
Ele assentiu.
— Então comece devagar — disse ela. — Deixe que te olhem. Quando você quiser ir além… eles vão saber.
A porta se fechou atrás dele com um clique suave.
Ali dentro, som abafado, luz mais quente, apenas uma poltrona e a própria coragem.
Lentamente, tirou a jaqueta.
Depois a camisa.
Os vidros escurecidos funcionavam como espelho: ele via a si mesmo e, ao mesmo tempo, sentia centenas de olhares atravessando a camada fumê.
Do lado de fora, as conversas diminuíram.
A curiosidade coletiva ganhou peso.
O calor veio primeiro no estômago, depois no peito, depois em toda a pele.
Finalmente permitiu que seus movimentos fossem guiados pelo desejo de ser observado — postura aberta, respiração mais lenta, a mão segurando o ritmo das próprias intenções.
E foi então que notou elas.
Três mulheres se aproximaram do vidro, como que sincronizadas.
Uma loira de batom escuro mordeu o lábio inferior.
Outra, ruiva, inclinou a cabeça, os olhos percorrendo cada detalhe da silhueta dele.
A terceira — morena, sorriso enviesado — levou a mão ao pescoço, como se precisasse de apoio para continuar olhando.
Nenhuma delas desviou.
Pelo contrário — se aproximaram mais.
A sensação de ser desejado por olhares nus sem que ninguém tocasse nele incendiou Marcos de um jeito que nunca conhecera.
Naquele clube, o jogo era honesto:
quem quer ver, olha; quem quer ser visto, se mostra.
Quando ele finalmente encostou a palma da mão no vidro, a ruiva fez o mesmo do lado de fora.
Dois mundos separados por alguns milímetros.
Quase o suficiente para confundir fronteiras.
A anfitriã reapareceu ao longe e sorriu.
Ele entendeu o convite implícito.
Se quisesse ser mais ousado, a porta estaria aberta.
Se quisesse parar ali, seria aplaudido do mesmo jeito.
Marcos respirou fundo, saboreando o momento.
A primeira vez que não era segredo, não era risco, não era vergonha:
era escolha.
E, pela primeira vez, queria ser visto — não escondido.
