O Pacto das Predadoras
A água do bar molhado do resort era estupidamente gelada, um contraste violento e agressivo com o sol das duas da tarde que parecia querer derreter o juízo de quem estivesse do lado de fora. O ar cheirava a uma mistura cara de cloro, protetor solar importado, coco e o suor sutil de gente rica torrando no calor litorâneo.
Debruçadas no balcão de pastilhas azuis, com a água batendo na altura da cintura, estavam Sophia e Laura. As duas irmãs, herdeiras da luxúria podre da mãe, eram um espetáculo à parte. Usavam biquínis minúsculos, daqueles que não escondem absolutamente nenhuma intenção, com o tecido molhado grudado na pele perfeitamente bronzeada. Alguns caras em volta, playboys e coroas endinheirados com barrigas flácidas, tentavam disfarçar os olhares famintos na direção delas, mas as duas não davam a mínima foda para nenhum deles. A cabeça das duas estava longe. Os machos daquele hotel eram apenas decoração de fundo; o verdadeiro alvo, a carne que elas queriam devorar, estava trancada na suíte master.
Sophia já estava na segunda caipirinha de vodca dupla. Ela puxou o líquido gelado pelo canudo, sentindo o álcool descer rasgando a garganta e atiçando o sangue que já fervia nas veias. O limão amargo combinava perfeitamente com a ironia que ela carregava no sorriso de canto de boca.
Ao seu lado, Laura girava o canudo no seu drink tropical colorido, o olhar vazio perdido na borda infinita da piscina que se misturava com o azul do oceano. A caçula estava inquieta. Um nervosismo elétrico percorria seu corpo. As pernas se cruzavam e descruzavam debaixo d’água num ritmo frenético, esfregando as coxas uma na outra para tentar aliviar uma pontada constante, um choque térmico quente e úmido que insistia em pulsar bem no meio de suas pernas. Ela cravava os dentes no lábio inferior até quase machucar, os ombros tensos.
Sophia percebeu. Ela sempre percebia. Com 21 anos, Sophia tinha uma capacidade assustadora de ler as pessoas, de farejar o desespero e o tesão alheio como um cão de caça. Ela virou o rosto lentamente, os olhos delineados e afiados como bisturis, analisando a irmã mais nova.
— Desembucha, Laura — Sophia falou, cortando o barulho da música eletrônica ambiente com a voz arrastada, carregada de deboche. — Puta que pariu, você tá tremendo essa perna debaixo d'água igual uma viciada em abstinência desde que a gente saiu daquele carro infernal. O que foi que pegou? O tamanho daquele valet na recepção assustou a princesinha? Bateu uma crise de consciência?
Laura bufou, jogando a água do rosto para trás, revelando a carinha de anjo que contrastava absurdamente com o fogo sujo que queimava nos seus olhos castanhos.
— Vai se foder, Sophia. Vai tomar no seu cu. O negão não é pro meu bico, e você sabe muito bem disso. Aquela montanha de músculos é o prato principal da mãe. Você é cega? Você não viu como a Aline secou o volume na calça do cara? A calcinha da nossa mãe deve ter virado a porra de um pântano lá na recepção. Ela mal conseguia falar direito.
Sophia deu uma gargalhada alta, jogando a cabeça para trás, o som atraindo os olhares de dois caras no bar, que ela prontamente ignorou com um revirar de olhos arrogante.
— A mãe é uma safada enrustida, uma vagabunda de marca maior que finge ser santa no condomínio. Nenhuma novidade no front. Deixa ela se engasgar com os funcionários se ela quiser. Mas eu sei que não é nela e nem em macho nenhum que você tá pensando agora. O teu problema, Laurinha, tem nome, veste shortinho jeans rasgado na bunda, não usa sutiã nem sob tortura e tem a boca mais suja e deliciosa que um bueiro de esquina, não é?
O rosto de Laura corou violentamente. Não foi um rubor de vergonha, de pudor de menina virgem. Foi o sangue subindo para a cabeça impulsionado por um tesão reprimido absurdo. Ela olhou freneticamente para os lados, garantindo que nenhum dos hóspedes intrometidos no bar estivesse ouvindo a conversa, e se inclinou na direção da irmã. O corpo dela pedia por confissão. A voz saiu num sussurro desesperado, quase um gemido estrangulado pela urgência.
— Caralho, Sophia... A Darlene. Você não tem noção. Você viu os peitos dela esmagados naquele top de crochê ridículo? A bunda daquela mulher engolindo a porra da calcinha fio-dental na hora que ela desceu do carro? Eu não consigo parar de imaginar aquela mulher gigante e sem filtro me pegando de jeito. Eu quero que ela me ensine a ser puta. Eu quero que ela me rasgue no meio. Ela tem uma energia caótica, saca? Uma energia de quem fode, goza e destrói até a alma sair do corpo, sem pedir desculpa no dia seguinte. Eu tô tão molhada só de pensar na voz rouca de fumante dela gemendo no meu ouvido que a dobra da minha virilha chega a doer de tanto pulsar.
Laura apertou a borda do balcão, a respiração ofegante, os seios jovens subindo e descendo rapidamente.
— Eu olhava pra mão dela no volante, Sophia, os dedos grossos, as unhas, e eu só conseguia visualizar aqueles dedos abrindo as minhas pernas, apertando a minha pele, deixando marca roxa na minha coxa. Eu quero ser a cadelinha dela nesse fim de semana. Eu quero me jogar no colo dela e implorar pra ela fazer o que quiser comigo.
Sophia ouviu a confissão da irmã com um sorriso lento, quase predatório e sinistro se espalhando no rosto perfeito. Ela passou a ponta da língua nos lábios úmidos, sentindo o gosto cítrico da vodca com limão, deliciando-se com a devassidão da própria família.
— Eu sabia. Você é uma cadelinha mesmo, Laurinha. Sempre foi. Quer ser dominada pela tia porra-louca, quer ser jogada na cama igual um pedaço de carne e usada sem dó. Tudo bem, eu não julgo. A Darlene é um pedaço de mau caminho, um vulcão em erupção. Mas quer saber de uma coisa? Você pensa muito, mas muito pequeno. Você não tem ambição.
Laura franziu a testa, confusa com o desprezo repentino na voz da irmã.
— Como assim penso pequeno? A Darlene é a mulher mais gostosa e intensa que eu já vi na vida.
— A Darlene é fácil — Sophia explicou, a voz transbordando uma arrogância sombria, o olhar fixo no fundo do próprio copo. — Darlene dá pra qualquer um, em qualquer lugar, na hora que bater a vontade. Se bobear, ela já tá dando pro mensageiro agora mesmo enquanto a gente tá aqui. Onde tá a graça de caçar um bicho que já se joga pelado e de pernas abertas direto na tua panela? Não tem jogo. Não tem conquista. É só chegar, pegar e foder. O verdadeiro prêmio desse resort não é a puta assumida, Laura. A glória de verdade é quebrar quem finge que não quer. É a falsa santa.
Laura arregalou os olhos, a boca se abrindo numa expressão de choque genuíno, a água da piscina balançando ao redor dela.
— A Dayse?! Você tá de sacanagem com a minha cara. Sophia, a mulher parece uma estátua de gesso de igreja. Ela é insuportável, chata, seca! Ela passou a viagem inteira com cara de cu, julgando a Darlene, julgando a mãe, julgando a gente! Ela nem respira direito pra não amassar a roupa!
— Insuportável e a maior hipócrita que já respirou oxigênio na face da terra — Sophia rebateu, os olhos brilhando com uma malícia diabólica e uma crueldade calculista. Ela se virou de frente para Laura, o tom de voz baixando, tornando-se perigoso. — Você que é cega, Laurinha. Você tava tão ocupada babando na bunda da Darlene que não prestou atenção no espetáculo de nojeira e tesão reprimido que tava acontecendo bem na sua frente, no banco do carona.
Sophia bebeu mais um gole da caipirinha, como se preparasse o terreno para o seu grande monólogo.
— Você não viu? Você não reparou nela puxando aquele vestido vermelho pra baixo a cada maldito buraco na estrada? Aquele vestido de lycra vagabunda que parecia que ia rasgar a qualquer segundo? Ela tava estourando ali dentro. Ela não tava usando calcinha, Laura. O bico do peito dela tava duro, mas duro igual duas pedras pontiagudas, furando o tecido o tempo inteiro, e não era por causa do ar-condicionado do carro. Ela finge que tem nojo da Darlene, finge que tem asco da vulgaridade da irmã, mas a verdade suja e fedorenta é que a Dayse é a mais doente das três. O tesão dela tá estrangulado por uma máscara de moralismo. A buceta daquela mulher devia estar pingando no banco de couro da SUV. Eu via a veia do pescoço dela saltar toda vez que a Darlene falava alguma atrocidade. Ela odeia o pecado em voz alta, mas goza com ele em silêncio.
Sophia apertou o copo de acrílico com tanta força que as juntas dos dedos ficaram brancas. A respiração dela ficou mais pesada, o peito subindo e descendo com o ritmo acelerado de um predador que avista a caça ferida.
— A minha fantasia, a minha obsessão doentia há meses... é quebrar aquela mulher no meio. Destruir o mundinho de vidro dela. Eu quero encurralar a Dayse num canto escuro, longe da mãe e da escandalosa da Darlene. Quero arrancar aqueles óculos escuros ridículos da cara dela pra ela ter que olhar bem nos meus olhos. Quero rasgar, literalmente rasgar, aquele vestido vermelho de puta que ela não tem peito pra assumir que adora usar.
A voz de Sophia era quase um rosnado úmido, os olhos dilatados pela imaginação doentia.
— Quero ver a cara de choque e pavor dela virar puro desespero quando eu enfiar a mão com força no meio das pernas dela e provar pra ela mesma que ela tá encharcada. Quero calar a boca cheia de sermão daquela hipócrita com os meus dedos. Quero fazer a santinha perder as forças nas pernas, cair de joelhos e rezar ajoelhada no meio das minhas coxas, gemendo o meu nome, tremendo, babando e implorando pra eu não parar de foder com o juízo e com o corpo dela. Eu vou desconstruir a Dayse, Laura. Vou transformar a madre superiora na minha cadelinha submissa. Ela vai chorar de tesão.
O clima entre as duas irmãs ficou subitamente pesado, denso, carregado de uma energia sexual quase tóxica. O calor do sol parecia ter se multiplicado. A perversidade, a necessidade de domínio e o instinto carnal cru corriam soltos, envenenando o sangue daquela família. Não havia limites.
Laura deu um sorriso torto, admirada, quase assustada, mas profundamente instigada com a crueldade afiada e a mente pervertida da irmã mais velha. Era um plano sujo. Era nojento. Era perfeito.
— Caralho. Você é doente da cabeça, Sophia. Você é uma psicopata.
— Sou. E você também é, só é mais frouxa pra admitir. — Sophia levantou o copo, a água pingando do pulso. — Seguinte. O relógio tá correndo. A gente tem um fim de semana inteiro pra fazer um estrago irreversível. Um brinde.
Laura levantou a sua taça tropical, os olhos fixos nos da irmã.
— Qual é a regra? — Laura perguntou.
— Regra nenhuma. Só objetivo. A gente volta pro quarto agora. Você joga a sua isca pra Darlene. Se joga no colo dela, faz a carente, faz a novinha confusa que precisa de atenção corporal. Deixa ela achar que tá no controle, deixa ela passar a mão. E eu... eu vou encurralar a madre superiora na primeira oportunidade que eu tiver. Vou cercar ela como um lobo cerca uma ovelha cega. Vamos ver quem faz o melhor serviço. Vamos ver qual de nós quebra a própria tia primeiro e a faz gritar mais alto.
As taças de acrílico bateram no meio da água azul. Clink. O pacto sombrio das predadoras estava oficialmente selado com vodca e intenções malignas.
Elas viraram o resto dos drinks num gole só, entregando os copos vazios para o barman assustado. Saíram da piscina pela escada de inox, a água escorrendo pelos corpos perfeitos, esculpidos e perigosos. Elas caminharam de volta para a área dos quartos com a postura inabalável de quem ia dominar o mundo, rebolando num ritmo predatório, prontas para atacar, encurralar e devorar as melhores amigas da própria mãe.
A confiança das duas era cega, estúpida e absoluta. Elas se achavam o topo da cadeia alimentar daquele resort. Se achavam as grandes manipuladoras do jogo. O que as duas idiotas arrogantes não faziam a menor ideia, é que o verdadeiro abatedouro já estava pacientemente preparado no quarto 402. A armadilha já estava armada, as garras já estavam afiadas, e as presas daquela história, de forma alguma, eram quem elas pensavam ser. O inferno estava prestes a abrir as portas, e elas iriam entrar marchando e sorrindo de mãos dadas.