Sentamos. As luzes foram baixando.
Foi então que senti.
A mão chegou devagar — sem pressa, sem violência, com aquela naturalidade desconcertante de quem age como se tivesse todo o direito. Primeiro sobre o vestido, percorrendo a extensão das minhas coxas com uma leveza que era quase pergunta. Olhei pro lado sem virar o rosto — perfil masculino na penumbra, olhos na tela, como se nada estivesse acontecendo.
Fiquei imóvel.
Não por medo. Por algo mais complicado do que medo — aquela paralisia específica de quando o corpo decide antes da cabeça, e o que o corpo decidiu foi ficar.
O casaco foi pro meu colo. Reflaxo de sobrevivência — disfarce antes mesmo de saber do que precisava me disfarçar. Virei pro meu noivo, dei-lhe um beijo no pescoço, passei os dedos no seu cabelo. Ele sorriu sem tirar os olhos da tela.
Não viu nada.
A mão de baixo do vestido tinha uma qualidade que não sei nomear de outro jeito senão mágica — e eu sou pessoa cética com relação a esse tipo de palavra.
Mas era isso.
Dedos finos que conheciam a geografia feminina melhor do que qualquer homem que eu havia deixado me tocar antes — como pianista que não precisa olhar pras teclas, que ouve o que está produzindo e ajusta em tempo real. Ele encontrou o grelinho com aquela precisão de quem não está procurando, que já sabia onde estava, e começou um dedilhar lento que me fez morder o interior da bochecha pra não fazer som.
Meu noivo comentou alguma coisa sobre o filme.
Concordei com a voz completamente estável.
Não sei o que concordei.
Os dedos desceram, subiram, voltaram, entraram — com aquele ritmo que parece improviso mas é na verdade a coisa mais calculada do mundo, ajustado milimetricamente à minha resposta. Gozei uma primeira vez sem me mexer, com o corpo inteiro contraído na imobilidade, os dedos do meu noivo no meu cabelo, os dedos do desconhecido em outro lugar completamente.
Gozei uma segunda vez.
Uma terceira.
Em algum momento minha mão escorregou no escuro.
Ele a encontrou antes que eu soubesse o que estava fazendo — a conduziu, sobre a calça, onde estava duro e quente e impossível de ignorar. Ele era grande. Tirou pra fora com um movimento discreto e eu fiz com a mão o que os dedos dele faziam em mim — sem olhar, sem falar, sem sequer virar o rosto na direção dele.
Dois estranhos no escuro, sem rosto um pro outro, trocando prazer com a intermediação de mãos enquanto um terceiro assistia ao filme a trinta centímetros de distância.
Senti quando ele chegou perto — a mão dele segurando a minha pra diminuir o ritmo, depois o calor, o leite quente escorrendo pelos meus dedos. Ele passou um lenço — cuidadoso até no fim. Limpou o que havia na roupa dele, estendeu o lenço pra mim.
Eu o ignorei.
Levei os dedos à boca devagar, com o olhar na tela, e provei.
Salgado e quente e completamente real.
Pouco antes do filme terminar ele se levantou.
Saiu sem pressa, sem olhar pra mim, como quem vai ao banheiro e volta. A cadeira ao meu lado ficou vazia e o frio do assento abandonado foi a única despedida.
Esperei dois minutos.
Cochichei no ouvido do meu noivo — não tô me aguentando, vou ao banheiro — e ele assentiu sem tirar os olhos da tela, me deu um beijinho no cabelo, completamente alheio.
Me levantei.
O corredor estava vazio.
Fui em direção aos banheiros com aquele andar casual de quem não está procurando nada, o coração numa velocidade que o rosto não mostrava. A porta do banheiro masculino estava entreaberta — e ele estava ali, de costas, lavando as mãos, quando entrei.
Ele ergueu os olhos pro espelho.
Me viu.
Não se virou imediatamente — ficou me olhando pelo reflexo por um momento, aqueles olhos que eu havia visto só de relance na penumbra do cinema e que agora, na luz branca do banheiro, eram escuros e completamente calmos.
Como quem esperava.
Como quem sabia.
Me aproximei.
Ele se virou quando eu estava a um passo — as mãos ainda úmidas, o mesmo rosto que não havia me olhado durante todo o filme e que agora não desviava. Peguei a gravata dele, que eu não havia notado no escuro, e puxei devagar.
— Os dedos — eu disse, em voz baixa. — Quero sentir de novo.
Ele não respondeu com palavras.
As mãos — aquelas mãos — foram pro meu vestido.
E o banheiro vazio do cinema de Natal foi, naquela noite de frio, o lugar mais quente do mundo.
Para as fantasias que merecem um final à altura.
FIM
Uma pena que esse conto, foi apenas para os mais românticos kkkkkk