Sozinhas na cozinha, Nathália olhou para ela e disse:
— É, dona Nivânia... — algo dentro de si a impediu de chamá-la de mãe. — Eu sei que a senhora trai meu pai com o tio Francisco.
Dona Nivânia não piscou. Sem qualquer pudor, disparou de volta:
— E eu sei muito bem da sua vida pregressa. Sei da sua vida de putinha.
— Vamos conversar como duas adultas? — atalhou Nathália, com firmeza.
Resignada, a mãe continuou:
— Percebo que, quando estou próxima do Kiko, você é a única que me olha diferente, mas eu nunca quis entrar em detalhes. Seu pai é uma pessoa extraordinária, mas na cama sempre deixou a desejar. Meu relacionamento com seu tio vem de longa data e tem mais: seu pai sempre soube, desde antes do casamento, que temos um caso. Uma vez até o convidei para fazermos um ménage à trois. Ele não topou!
— E depois eu é que sou a putinha — ironizou Nathália.
Nisso, José Pedro, o pai, entrou na cozinha com um sorriso leve:
— Bom dia, meninas! Tudo bem? Nathália, como foi sua semana?
— Bom dia, paizão! Foi ótima, maravilhosa! — respondeu ela, mudando o tom de voz instantaneamente. — Vim aqui hoje para dar a notícia de que estou me divorciando. Ou melhor, já estou separada.
Lá fora, a campainha tocou. Nivânia limpou as mãos no avental e foi atender.
Aproveitando o silêncio da mãe que se afastava, Nathália deu um passo na direção do pai. Ela sorriu, os olhos fixos nos dele, deixando as palavras saírem lentas, quase líquidas. Uma luxúria crua vibrou em sua garganta:
— Eu quero mais. Quero ficar bem mais perto de você, paizão...
Passos ecoaram no corredor. José Pedro empalideceu, o pânico mudo travando seus músculos quando Nivânia retornou à cozinha, acompanhada por um homem.
— Olha quem apareceu! — exclamou a mãe, sustentando o olhar no marido por mais um segundo antes de deslizar aquele veneno visual até a filha. Completou, destilando uma falsa inocência: — O Hugo está solteiro, Nathália... Não é uma maravilha?
O clima pesado da cozinha desfez-se em uma fração de segundo. Nathália mudou a expressão e correu para abraçar seu velho amigo de infância.
Sete dias se passaram como um borrão. Agora, em um endereço completamente diferente, pai e filha organizavam a casa nova.
— Aquele dia em Sinop, pai, foi meu último dia como acompanhante.
— Entendo. E pretende se casar de novo? O Hugo está disponível, o que você acha? Ele é só um ano mais novo que você.
— Se eu for me casar de novo, com certeza será com ele. Já até rolou um clima da última vez que nos vimos. Mas falando nisso... — Ela fez uma pausa, fixando os olhos nele. — Sondei minha mãe sobre a traição com o tio Francisco. Ela me disse um monte de coisas. Falou até que você já sabia de tudo... É verdade?
Antes que ele pudesse responder, um estrondo ecoou pela sala. Um grande espelho despencou da parede, estilhaçando-se no chão.
— Ih... Sete anos de azar — comentou José Pedro, tentando desviar do assunto.
— Que é isso, pai? Não acreditamos nem em Deus, quanto mais em ditado popular. Deixa que eu varro isso aqui. Vai lá fazer um café para nós.
O aroma do café fresco preenchia a cozinha. Ela aproximou-se sem ruído e o abraçou pelas costas.
— Triste por causa do espelho quebrado?... Será que aqui também está Tristão?
Nathália deslizou as mãos pela calça dele até encontrar seu pau rígido.
— Olá, Tristão... Vem brincar com a sua Isolda.
Em um movimento rápido, José Pedro a pegou pela cintura, levantou-a sem esforço até a mesa da cozinha e arrancou, com um único gesto, sua calcinha. Possuíram-se com uma intensidade ainda maior que da primeira vez. Ao sair de dentro dela, ele percebeu que não tinha usado nenhuma precaução.
Caro leitor, estou ciente de que já tomei muito do seu tempo. Como a minha história é um conto e não uma novela, terei que resumir os acontecimentos futuros, que avançaram de forma muito rápida.
Nathália engravidou e deu à luz uma criança muito saudável. Logo em seguida, ela e Hugo se casaram.
No entanto, após a descoberta da gravidez de Nathália, José Pedro — pai e agora suposto avô da criança — entrou em pânico definitivo. Ao contrário da filha, que esteve o tempo todo serena assumindo a gestação, ele foi tomado pelo desespero. Sem saída, decidiu confessar o caso e dividir o peso do segredo com a esposa.
Encurralada pela gravidade da situação e pela ironia do destino, dona Nivânia não teve escolha. Olhou nos olhos do marido e revelou o segredo guardado por mais de três décadas: Nathália não era filha dele, sim de Francisco.
arcanjo1917