Paulo nunca tinha levado muito a sério aplicativos de relacionamento. Entre cálculos da faculdade de engenharia, noites viradas estudando e a rotina cansativa, ele dizia para si mesmo que não tinha tempo para aquilo. Ainda assim, em uma madrugada chuvosa de terça-feira, sozinho em seu apartamento pequeno e silencioso, decidiu baixar um aplicativo curioso chamado IfoodAmarelo.
O nome era estranho. A proposta também. O aplicativo prometia "conexões discretas e espontâneas". Paulo riu sozinho antes de criar o perfil.
Negro, 25 anos, corpo atlético moldado por corridas ocasionais na praia, olhos negros intensos e cabelo ondulado sempre um pouco bagunçado. Tirou uma foto simples no espelho do banheiro, camiseta preta justa e expressão séria. Sem filtros.
Depois de alguns minutos deslizando perfis exagerados, fotos sem camisa e bios vazias, algo chamou sua atenção.
O perfil de Daniel.
A foto era discreta demais. Apenas o rosto parcialmente iluminado pela luz amarela de uma cozinha. Um sorriso leve, quase tímido. Olhos castanho-claros que pareciam esconder alguma coisa. A bio dizia apenas:
"27 anos. Conversas sinceras valem mais que aparência."
Paulo hesitou antes de curtir.
Dois minutos depois, veio a notificação.
"Daniel curtiu você de volta."
O coração acelerou de um jeito inesperado.
A conversa começou tímida.
— Então você realmente existe? — Daniel escreveu.
Paulo sorriu.
— Dependendo do horário, nem eu tenho certeza.
A partir dali, as mensagens fluíram fácil demais. Daniel trabalhava como atendente em uma loja no shopping da cidade. Tinha humor leve, inteligente, e um jeito tranquilo que fazia Paulo esquecer o cansaço.
Trocaram áudios. Depois fotos mais espontâneas. Depois confidências.
Paulo percebeu que esperava ansiosamente pelas notificações dele.
Numa sexta-feira à noite, Daniel mandou:
— Quer sair do aplicativo e tomar um café comigo amanhã?
Paulo encarou a tela por alguns segundos antes de responder.
— Quero.
No sábado, encontraram-se em uma cafeteria pequena perto da praia.
Daniel era ainda mais bonito pessoalmente. Pardo, sorriso calmo, corpo comum e acolhedor, sem exageros. Vestia uma camisa cinza simples e tinha um perfume discreto que Paulo percebeu no instante em que se aproximaram para se cumprimentar.
A conversa foi natural. Fácil.
Horas passaram sem que percebessem.
Quando anoiteceu, caminharam pela orla iluminada. O vento bagunçava o cabelo ondulado de Paulo enquanto Daniel o observava em silêncio por alguns segundos longos demais.
— O quê? — Paulo perguntou, rindo.
Daniel desviou o olhar, tímido.
— Você é mais bonito do que achei que seria.
Paulo sentiu o rosto aquecer.
Pararam próximos ao mar. O som das ondas preenchia o silêncio confortável entre os dois.
Então Daniel segurou a mão dele.
Devagar.
Como se perguntasse sem palavras.
Paulo entrelaçou os dedos aos dele imediatamente.
E naquele instante percebeu que não era apenas curiosidade ou desejo passageiro.
Era aquela sensação rara de encontrar alguém que parecia enxergá-lo de verdade.
Daniel se aproximou um pouco mais, os olhos presos aos dele, e Paulo sentiu a tensão crescer entre os dois — lenta, quente e irresistível.
O primeiro beijo aconteceu ali mesmo, sob as luzes distantes da avenida e o cheiro salgado do mar.
Calmo.
Intenso.
Como o começo de algo que nenhum dos dois esperava encontrar em um aplicativo de nome ridículo chamado IfoodAmarelo.
Capítulo 2 - Beijos à Beira-Mar
O beijo terminou devagar.
Nenhum dos dois parecia disposto a se afastar completamente. Daniel manteve a testa encostada na de Paulo enquanto o som das ondas preenchia o silêncio entre eles.
— Acho que esse foi o encontro mais estranho e bom da minha vida — Daniel murmurou, sorrindo de canto.
Paulo riu baixo.
— Estranho por quê?
— Porque eu baixei o aplicativo só por curiosidade... e agora tô aqui querendo passar mais tempo com você.
O olhar intenso de Paulo percorreu o rosto dele lentamente. A luz dos postes deixava os olhos castanho-claros de Daniel ainda mais bonitos.
— Então passa.
Daniel hesitou por um segundo antes de perguntar:
— Quer ir lá pra casa?
A pergunta veio carregada de tensão.
Não era apenas desejo. Era expectativa.
Paulo sentiu o coração acelerar enquanto observava Daniel abrir um sorriso tímido, quase nervoso.
— Quero.
O apartamento de Daniel ficava a poucas quadras dali. Pequeno, aconchegante e levemente bagunçado. Havia roupas dobradas no sofá, uma caneca esquecida sobre a mesa e o cheiro confortável de café recém-passado misturado ao perfume dele.
Paulo gostou daquilo imediatamente.
Parecia real.
Daniel fechou a porta atrás deles e os dois ficaram em silêncio por alguns segundos, apenas se olhando.
A tensão voltou mais forte.
Paulo aproximou-se primeiro. Segurou a cintura de Daniel devagar, puxando-o para perto até sentir os corpos encostarem completamente.
O beijo daquela vez foi diferente.
Mais intenso.
Mais quente.
Daniel soltou um suspiro abafado contra os lábios dele enquanto os dedos deslizavam pelos braços fortes de Paulo. A barba curta arranhava levemente sua pele, causando arrepios inesperados.
As mãos de Paulo exploravam o corpo dele com calma, sentindo cada reação, cada respiração acelerada.
Daniel não tinha o corpo perfeito das fotos exageradas de aplicativo. E talvez fosse exatamente isso que deixava tudo ainda mais atraente.
Era verdadeiro.
Quando Paulo deslizou a mão por baixo da camisa dele, Daniel fechou os olhos por um instante, deixando escapar um sorriso pequeno.
— Você me deixa nervoso — confessou.
— Engraçado... porque eu tô tentando parecer calmo faz meia hora.
Daniel riu baixo antes de puxá-lo novamente pela nuca, aprofundando o beijo.
O clima entre os dois aumentava lentamente, sem pressa. Como se cada toque fosse uma descoberta nova.
Paulo sentiu Daniel apertar seus braços enquanto seus corpos se encaixavam naturalmente no meio da sala pouco iluminada.
E naquele instante, entre beijos demorados, respirações quentes e olhares intensos, Paulo percebeu que o aplicativo tinha entregue algo muito mais perigoso do que uma simples noite.
Tinha entregue conexão.
Capítulo 3 - O Frio da Manhã Seguinte
A luz da manhã atravessava lentamente as cortinas finas do apartamento de Daniel quando Paulo abriu os olhos.
Por alguns segundos, ficou apenas observando o teto, sentindo o corpo ainda relaxado da noite anterior. O cheiro do travesseiro, o silêncio confortável do lugar, a lembrança dos beijos demorados... tudo parecia bom demais para acabar tão rápido.
Virou o rosto devagar.
Daniel já estava acordado.
Sentado na ponta da cama, mexia no celular com expressão distante. Vestia apenas uma bermuda escura, os ombros iluminados pela luz suave da manhã. O clima quente e íntimo da noite anterior parecia ter desaparecido completamente.
— Bom dia... — Paulo falou, com a voz rouca de sono.
Daniel levantou os olhos rapidamente.
— Bom dia.
Só isso.
Sem sorriso. Sem aproximação. Sem aquele olhar intenso da noite passada.
Paulo sentiu algo estranho apertar o peito.
Tentou ignorar.
Levantou-se devagar, passando a mão pelos cabelos ondulados bagunçados. Daniel se afastou um pouco para deixá-lo passar, quase automático demais.
Aquilo incomodou.
Na cozinha, Daniel preparava café em silêncio enquanto Paulo o observava discretamente. O som da colher batendo na xícara parecia alto demais naquele apartamento quieto.
— Dormiu bem? — Paulo perguntou, tentando puxar assunto.
— Dormi.
Resposta curta outra vez.
Paulo desviou o olhar para a janela.
Ele conhecia aquele comportamento.
Conhecia homens que ficavam intensos numa noite e distantes na manhã seguinte. Já tinha vivido aquilo mais vezes do que gostaria. Conversas bonitas antes do toque virar indiferença depois dele.
Mas daquela vez tinha sido diferente.
Ou pelo menos ele achou que fosse.
Daniel colocou a xícara na mesa sem encará-lo diretamente.
— Você quer açúcar?
Paulo quase riu da formalidade.
— Pode ser.
O silêncio voltou.
Pesado.
Paulo começou a perceber pequenos detalhes. Daniel evitava contato físico. Evitava olhá-lo por muito tempo. Mexia no celular entre uma frase e outra como se procurasse distrações.
E então veio o pensamento que ele mais tentava evitar:
"Talvez ele tenha percebido."
Percebido que Paulo não queria apenas uma noite qualquer.
Que enquanto se beijavam no sofá, Paulo imaginou como seria voltar ali outras vezes. Que gostou do jeito simples de Daniel existir naquele apartamento bagunçado. Que pela primeira vez em muito tempo ele não sentiu vazio depois de dormir ao lado de alguém.
Daniel apoiou as mãos na pia, respirando fundo antes de falar:
— Paulo... você é um cara legal.
Aquilo atingiu Paulo imediatamente.
Era sempre assim que começava.
Ele tentou manter a expressão neutra.
— Mas?
Daniel demorou alguns segundos para responder.
— Acho melhor a gente não criar expectativa.
O peito de Paulo pesou.
Daniel finalmente virou para encará-lo. Os olhos castanho-claros agora pareciam mais fechados, defensivos.
— Ontem foi bom. De verdade. Mas eu não tô procurando relacionamento sério agora.
Paulo engoliu seco.
Parte dele queria fingir que não ligava. Fazer piada. Agir como se fosse só mais uma manhã qualquer.
Mas estava cansado daquilo.
Cansado de conexões rápidas. De pessoas emocionalmente ausentes. De noites intensas que amanheciam frias.
— E você acha que eu tô criando expectativa? — perguntou baixo.
Daniel hesitou.
— Acho que você sente as coisas de um jeito mais... profundo.
O silêncio entre os dois ficou doloroso.
Paulo abaixou os olhos para a xícara de café ainda intacta.
Talvez Daniel estivesse certo.
Talvez ele realmente tivesse começado a desejar algo que nem deveria existir depois de uma única noite.
E talvez o pior de tudo fosse perceber que, antes mesmo de ir embora daquele apartamento, ele já sentia falta de alguém que ainda estava ali.
Capítulo 4 - O Silêncio Depois do Adeus
O café terminou rápido demais.
As xícaras ficaram pela metade sobre a mesa enquanto o silêncio entre os dois parecia crescer a cada minuto. Paulo sentia que qualquer tentativa de prolongar aquela manhã só tornaria tudo mais desconfortável.
Então pegou o celular.
— Vou chamar um carro.
Daniel apenas assentiu com a cabeça.
Poucos minutos depois, a notificação apareceu na tela informando que o motorista estava chegando.
Daniel pegou a chave do apartamento automaticamente.
— Vamos... eu te deixo lá embaixo pra esperar.
Paulo apenas confirmou com um movimento leve da cabeça.
Os dois desceram pelo elevador em silêncio. O reflexo deles no espelho metálico parecia estranho agora. Horas antes estavam se beijando como se existisse algo intenso nascendo entre eles. Agora pareciam quase desconhecidos dividindo o mesmo espaço.
No estacionamento do prédio, o vento da manhã estava mais frio do que Paulo esperava.
Daniel manteve as mãos nos bolsos enquanto aguardavam o carro encostar. Não havia toque, nem aproximação, nem qualquer resquício da intimidade da noite passada.
Quando o veículo finalmente chegou, Paulo abriu a porta traseira devagar.
Mas antes de entrar, virou-se para Daniel.
Talvez esperando alguma mudança.
Algum sinal.
Qualquer coisa.
— Tchau... até mais.
Daniel sustentou o olhar dele por apenas alguns segundos.
— Tchau.
Frio.
Simples.
Definitivo demais.
Paulo entrou no carro sentindo o peito apertar.
Enquanto o automóvel se afastava do prédio, ele olhou pela janela até Daniel desaparecer completamente de vista.
Então desviou os olhos e encostou a cabeça no banco.
Um turbilhão começou dentro dele.
Não conseguia acreditar que estava vivendo aquilo de novo.
Outra vez alguém parecia interessado. Outra vez as conversas tinham sido intensas, profundas, promissoras. Daniel falava sobre medo de solidão, sobre conexão verdadeira, sobre como odiava superficialidade.
Paulo acreditou.
Talvez porque quisesse acreditar.
Fechou os olhos tentando afastar a sensação amarga no peito, mas só conseguia lembrar da noite anterior.
Os beijos lentos.
O cheiro do perfume de Daniel misturado ao café.
A forma como ele o olhava no sofá.
A mão deslizando pela sua nuca como se quisesse mantê-lo perto.
Como alguém consegue mudar tanto em poucas horas?
Ao chegar em casa, Paulo jogou as chaves sobre a mesa e caminhou lentamente até o quarto.
O apartamento parecia silencioso demais.
Tirou a camisa, sentou na beira da cama e passou as mãos no rosto, cansado emocionalmente.
Mas quanto mais tentava esquecer, mais Daniel ocupava seus pensamentos.
O corpo dele.
A voz baixa.
O sorriso discreto que aparecia entre uma provocação e outra.
Até a bagunça do apartamento parecia agora carregada de lembranças.
Paulo pegou o celular várias vezes ao longo da tarde.
Abriu a conversa.
Fechou.
Pensou em mandar mensagem. Pensou em fingir que não ligava. Pensou em perguntar diretamente o que tinha mudado.
Mas o medo de parecer emocionado demais o travava.
Então deixou o celular de lado e encarou o teto do quarto.
O pior não era o silêncio de Daniel.
Era perceber que, mesmo depois daquela despedida fria, Paulo ainda desejava vê-lo de novo.
Capítulo 5 - Online, Mas Distante
Os dias começaram a passar devagar para Paulo.
Na faculdade, tentava se concentrar nas aulas de engenharia, nos cálculos intermináveis e nos trabalhos acumulados, mas sua mente sempre acabava voltando para o mesmo lugar.
Daniel.
Era ridículo o quanto alguém podia ocupar seus pensamentos depois de tão pouco tempo.
O celular se tornou quase um vício silencioso. Paulo desbloqueava a tela sem perceber, abria o aplicativo, observava o perfil de Daniel e fechava novamente.
Online há 5 minutos.
Online agora.
Visto por último às 02:13.
Pequenos detalhes que começavam a consumir sua cabeça.
O pior era que Daniel não havia desaparecido completamente. Isso teria sido mais fácil. Ele ainda curtia uma foto aqui, respondia um story ali com uma reação simples, mandava mensagens espaçadas de madrugada.
Sempre o suficiente para manter Paulo preso.
Nunca o suficiente para parecer interessado.
Numa quarta-feira à noite, Paulo postou uma foto no espelho do elevador da faculdade. Camiseta preta justa, mochila pendurada no ombro e expressão cansada depois de horas estudando.
Menos de dez minutos depois, veio a notificação.
Daniel respondeu ao story.
"Engenharia tá acabando contigo."
Paulo sentiu o coração acelerar de forma patética.
Ficou olhando a mensagem por alguns segundos antes de responder.
"Você sumiu."
Daniel demorou quase vinte minutos.
"Correria."
Só isso.
Paulo mordeu o canto da boca, frustrado.
Mesmo assim continuou a conversa.
Perguntou do trabalho. Perguntou como ele estava. Tentou puxar o clima leve que existia antes.
Daniel respondia.
Mas sem profundidade.
Sem curiosidade de volta.
Sem continuidade.
Como alguém respondendo por educação.
E ainda assim Paulo permanecia ali.
Naquela madrugada, deitado sozinho na cama, o brilho da tela iluminava parcialmente seu rosto enquanto observava Daniel ficar online e offline várias vezes.
Então apareceu a mensagem:
"Saudades daquela noite."
O peito de Paulo apertou imediatamente.
Talvez fosse aquilo. Talvez Daniel só tivesse dificuldade para demonstrar sentimento. Talvez estivesse com medo. Talvez—
A próxima mensagem chegou segundos depois.
"Você beija muito bem."
Paulo ficou imóvel olhando para a tela.
Ali estava.
Tudo reduzido àquilo.
A noite.
O corpo.
Os beijos.
Nunca sobre ele.
Nunca sobre o que sentiram.
Paulo respirou fundo antes de responder:
"Achei que tivesse sido mais do que isso."
Dessa vez Daniel visualizou rápido.
Mas demorou quase uma hora para responder.
"Paulo... não complica as coisas."
Aquela frase atingiu mais do que deveria.
Ele encarou a conversa em silêncio enquanto uma sensação amarga crescia dentro do peito.
Talvez Daniel nunca tivesse mentido.
Talvez Paulo tivesse criado expectativas sozinho.
Porque no fundo, aplicativos como aquele não eram feitos para conexões profundas. Eram feitos para noites intensas e despedidas frias na manhã seguinte.
Mesmo assim, Paulo não conseguia sair.
Porque toda vez que Daniel aparecia online, uma parte dele ainda esperava receber algo diferente.
Algo que nunca vinha.
Capítulo 6 - O Mesmo Perfil
A quinta-feira parecia arrastada.
Paulo estava sentado no fundo da sala da faculdade tentando prestar atenção em uma explicação sobre estruturas metálicas, mas as palavras do professor entravam por um ouvido e saíam pelo outro.
O celular permanecia virado para baixo sobre a mesa.
Nenhuma mensagem nova de Daniel.
De novo.
— Tu tá com uma cara péssima hoje — Rodrigo comentou, sentando ao lado dele.
Rodrigo era um dos poucos amigos próximos que Paulo tinha na faculdade. Falante, exagerado e incapaz de ficar cinco minutos em silêncio.
Paulo soltou um suspiro cansado.
— Dormi mal.
— Dormiu mal nada. Tá com cara de homem sofrendo por macho.
Paulo riu sem humor.
— Vai se ferrar.
Rodrigo abriu um sorriso divertido enquanto pegava o celular.
— Falando em macho... acho que finalmente arrumei um encontro decente naquele aplicativo amaldiçoado.
Aquilo chamou a atenção de Paulo imediatamente.
— IfoodAmarelo?
— Sim. Milagre, né? Porque só aparece doido naquele lugar.
Rodrigo aproximou a cadeira.
— Mas esse aqui parece diferente.
Paulo sentiu algo estranho no peito sem nem saber o motivo.
Rodrigo abriu a conversa no aplicativo e mostrou a tela.
— Olha.
E então o mundo pareceu desacelerar por alguns segundos.
Era Daniel.
A mesma foto discreta.
O mesmo sorriso leve.
A mesma bio.
"Conversas sinceras valem mais que aparência."
Paulo ficou imóvel.
O coração bateu forte demais.
Rodrigo continuava falando animado, sem perceber absolutamente nada.
— O cara é bonito, né? E conversa bem pra caramba. A gente vai se ver hoje à noite.
Paulo desviou os olhos da tela lentamente, tentando manter a expressão neutra.
— É... bonito.
Por dentro, sentiu o estômago afundar.
Uma sensação amarga começou a crescer no peito.
Fazia quanto tempo desde que Daniel tinha dito que estava "na correria"? Dois dias? Três?
Enquanto Paulo passava noites encarando conversas frias e respostas vazias, Daniel já estava marcando encontro com outra pessoa.
E pior.
Com alguém próximo dele.
Rodrigo continuou falando.
— Acho que dessa vez vai dar bom.
Paulo forçou um sorriso pequeno.
— Espero que sim.
Mas a verdade é que naquele momento ele não conseguia mais pensar direito.
A aula terminou e Paulo inventou qualquer desculpa para ir embora cedo.
Precisava ficar sozinho.
No caminho para casa, dentro do ônibus, observava a cidade pela janela enquanto sua mente repetia a mesma pergunta sem parar:
"Que tipo de pessoa o Daniel realmente era?"
Porque agora tudo parecia confuso.
As conversas profundas.
Os elogios.
A intensidade daquela noite.
Será que Daniel fazia aquilo com todo mundo?
Talvez Paulo tivesse sido apenas mais um nome na lista de encontros dele.
Mais um corpo.
Mais uma madrugada passageira.
Ao chegar em casa, jogou a mochila no sofá e caminhou lentamente até o quarto. Sentou na cama e pegou o celular quase no automático.
Daniel estava online.
Paulo encarou a tela durante alguns segundos.
Não mandou mensagem.
Pela primeira vez desde que se conheceram, sentiu orgulho ferido maior do que saudade.
Mas aquilo não durou muito.
Porque mais tarde, perto das onze da noite, o celular começou a tocar.
Rodrigo.
Paulo encarou o nome na tela enquanto sentia o peito apertar novamente.
Atendeu.
— E aí? — perguntou tentando soar normal.
Do outro lado da ligação, Rodrigo parecia animado.
— Irmão... preciso te contar como foi meu encontro com aquele cara. O Daniel. Tu não vai acreditar.
Capítulo 7 - O mesmo perfil Parte 2
Paulo segurou o celular por alguns segundos antes de responder.
— Rodrigo... foi mal, cara. Eu não tô muito bem hoje.
Do outro lado da linha, o amigo ficou em silêncio por um instante.
— O que houve?
Paulo passou a mão no rosto cansado enquanto encarava a parede escura do quarto.
— Dor de cabeça. Sério. Minha cabeça tá explodindo.
Era mentira.
Ou talvez não completamente.
Porque a dor que ele sentia naquele momento parecia realmente física.
Rodrigo soltou um suspiro leve.
— Ah... tranquilo então. Depois eu te conto.
— Conta outro dia.
— Beleza. Melhoras aí.
Quando a ligação terminou, Paulo deixou o celular cair ao lado do corpo na cama.
Ficou olhando para o teto em silêncio.
Ele sabia exatamente como Rodrigo falaria daquele encontro. Conhecia o amigo bem demais. Viriam detalhes, risadas, comentários maliciosos, talvez até comparações.
E Paulo simplesmente não suportaria ouvir.
Não suportaria imaginar Daniel repetindo os mesmos olhares, os mesmos toques, as mesmas frases com outra pessoa tão rapidamente.
Aquilo já estava machucando mais do que deveria.
Naquela noite, Paulo percebeu algo que tentou negar desde o começo.
Daniel não estava procurando amor.
Talvez nem conexão.
Talvez apenas companhia temporária. Corpos novos. Conversas intensas o suficiente para criar desejo, mas rasas demais para criar permanência.
Como tanta gente fazia hoje em dia.
Aplicativos lotados de pessoas emocionalmente indisponíveis tentando preencher vazios momentâneos sem nunca realmente se entregar.
E Paulo estava cansado daquilo.
Cansado de pessoas que confundiam intimidade com conexão.
Cansado de migalhas emocionais.
Levantou da cama devagar e caminhou até a janela do apartamento. A cidade seguia viva lá fora, cheia de luzes e gente provavelmente repetindo exatamente o mesmo ciclo.
Match.
Desejo.
Noite intensa.
Distância.
Substituição.
Paulo fechou os olhos por alguns segundos.
Gostava de Daniel. Talvez mais do que deveria.
Mas naquele instante decidiu que precisava parar de alimentar algo que claramente só existia dentro dele.
Porque enquanto Paulo criava sentimentos, Daniel parecia apenas colecionar momentos.
E pela primeira vez desde que o conheceu, Paulo decidiu que precisava voltar a viver sua própria vida em vez de esperar mensagens que nunca chegavam da forma que ele queria.
Capítulo 8 - Recomeços de Verão
Na manhã seguinte, Paulo acordou decidido.
Ainda deitado na cama, pegou o celular e abriu o IfoodAmarelo pela última vez. Observou o ícone amarelo na tela durante alguns segundos enquanto pensamentos embaralhados passavam pela sua cabeça.
As conversas vazias.
As noites rápidas.
Daniel.
Principalmente Daniel.
Talvez o maior erro tivesse sido acreditar que alguém emocionalmente distante poderia oferecer exatamente o que ele procurava.
Respirou fundo.
Então apagou o aplicativo.
Sem despedida. Sem drama. Sem olhar para trás.
Uma sensação estranha tomou conta dele logo depois. Não exatamente felicidade, mas alívio.
Como se estivesse finalmente cansado de esperar algo que nunca aconteceria.
Paulo levantou da cama decidido a não passar o fim de semana preso dentro do apartamento sofrendo por alguém que provavelmente já estava conversando com outros homens naquele exato momento.
Pegou o notebook e começou a pesquisar praias próximas da cidade.
Precisava respirar.
Precisava se sentir vivo de novo.
Ainda mais porque o fim de semana estava chegando e ele já tinha combinado com Rodrigo de saírem para um pagode num barzinho bastante conhecido da cidade. Beber, rir, esquecer a pressão da faculdade e principalmente esquecer Daniel.
Ou pelo menos tentar.
Horas depois, Paulo já caminhava pela areia quente da praia sob o sol forte do início da tarde.
O mar brilhava intensamente enquanto o vento bagunçava seus cabelos ondulados. Pela primeira vez em dias, sua mente parecia menos pesada.
Deitou na cadeira de praia usando apenas uma bermuda clara e óculos escuros, deixando o sol atingir sua pele negra enquanto sentia o corpo relaxar lentamente.
Precisava daquilo.
Precisava voltar a gostar de si mesmo antes de procurar qualquer conexão em outra pessoa.
O bronze destacava ainda mais seu físico atlético. Alguns olhares discretos surgiam ao redor, mas Paulo já não parecia interessado em atenção momentânea.
Ele queria paz.
Passou horas ali, ouvindo o som do mar, bebendo água de coco e tentando convencer a si mesmo de que Daniel não tinha mais espaço em sua cabeça.
Mesmo que ainda tivesse.
Quando o sol começou a baixar, Paulo tomou outra decisão impulsiva.
Mudança.
Se era para seguir em frente, queria sentir isso externamente também.
Foi direto para um salão no shopping.
Enquanto o barbeiro ajustava o corte degradê em seus cabelos e alinhava cuidadosamente sua sobrancelha, Paulo observava seu reflexo no espelho.
Parecia cansado nos últimos dias.
Agora começava a se reconhecer novamente.
Mais leve.
Mais bonito.
Mais seguro.
Depois do salão, caminhou pelo shopping ainda sentindo o perfume fresco pós-barbear na pele. Entrou em algumas lojas até encontrar uma roupa que realmente gostou para a noite de sábado com Rodrigo.
Camisa preta ajustada ao corpo.
Corrente prata discreta.
Perfume novo.
Queria voltar a se sentir desejado, mas principalmente queria voltar a se sentir suficiente sem depender da atenção de ninguém.
Enquanto saía da loja carregando as sacolas, o celular vibrou no bolso.
Rodrigo.
"Sábado tu não vai fugir não, hein? Hoje a gente bebe até esquecer os problemas."
Paulo sorriu sozinho pela primeira vez em dias.
Talvez fosse exatamente disso que precisava.
Não de aplicativos.
Não de promessas vazias.
Apenas viver um pouco sem transformar cada conexão em esperança.
Capítulo 9 - O Cheiro do Caos
O barzinho estava lotado.
O som do pagode preenchia o ambiente enquanto grupos cantavam alto, brindavam cervejas e riam como se não existisse preocupação no mundo. Luzes amarelas iluminavam parcialmente o lugar, criando aquela atmosfera quente e caótica típica das noites de sexta-feira.
Paulo tentava entrar no clima.
Vestia a camisa preta nova que comprou no shopping, o cabelo recém-cortado valorizava ainda mais seus traços e o perfume amadeirado que escolheu parecia finalmente devolver parte da confiança que tinha perdido nos últimos dias.
Rodrigo, ao contrário, já estava claramente bêbado.
— Irmão... essa cerveja aqui tá descendo igual água! — falou alto, rindo sozinho enquanto batia a mão no ombro de Paulo.
Paulo riu de canto.
Talvez aquela noite realmente ajudasse a esquecer Daniel.
Ou pelo menos era o que ele queria acreditar.
Mas bastou Rodrigo pegar o celular e começar a rir sozinho para o peito de Paulo ficar estranho outra vez.
— O que foi? — perguntou tentando soar casual.
Rodrigo aproximou-se da mesa.
— Lembra do cara que eu te falei? O Daniel?
O nome atingiu Paulo como um soco invisível.
Mesmo assim, manteve a expressão neutra.
— Hum.
— Cara...
Rodrigo soltou uma gargalhada baixa, já alterado pela bebida.
— O homem é perigoso.
Paulo pegou a cerveja tentando disfarçar o desconforto.
— É mesmo?
— Tu não faz ideia.
E então Rodrigo começou.
Falava sobre o beijo intenso de Daniel, sobre o jeito provocante que ele olhava, sobre a tensão entre os dois no apartamento. Comentava rindo sobre como Daniel parecia saber exatamente o que fazer e falar para deixar alguém completamente envolvido.
Cada detalhe entrava na cabeça de Paulo como veneno lento.
Porque não era apenas ciúme.
Era perceber que tudo aquilo que parecia especial talvez fosse apenas um roteiro repetido por Daniel com outras pessoas.
Rodrigo não fazia ideia do estrago que causava.
Continuava falando naturalmente, sem perceber Paulo cada vez mais distante.
— E o pior é que o cara tem um perfume absurdo... aquele tipo de cheiro que fica na roupa, sabe?
Aquilo foi o limite.
Paulo levantou rapidamente.
— Vou no banheiro.
Rodrigo ainda tentou falar algo, mas Paulo já caminhava em direção ao corredor apertado ao fundo do bar.
O coração estava acelerado.
Raiva.
Vergonha.
Ciúme.
Tudo misturado.
Ao se aproximar do banheiro, Paulo diminuiu os passos de repente.
Um cheiro familiar invadiu o ambiente.
Perfume amadeirado.
Marcante.
Seu corpo reconheceu antes mesmo da mente processar.
Paulo franziu a testa lentamente e virou o corredor.
Então viu.
Um homem de costas falando ao telefone próximo à entrada do banheiro masculino.
Alto parecido.
Mesmo corte de cabelo.
Mesmo jeito de ficar levemente inclinado enquanto escutava alguém.
O coração de Paulo disparou.
Não.
Não podia ser.
Mas então o homem virou parcialmente o rosto.
Daniel.
No mesmo instante, Daniel arregalou levemente os olhos ao vê-lo.
A ligação foi encerrada imediatamente.
— Paulo—
Mas Paulo desviou o olhar e entrou rápido no banheiro, ignorando completamente sua presença.
Precisava fugir dali.
Precisava respirar.
Entrou na primeira cabine disponível e trancou a porta rapidamente enquanto tentava controlar a própria respiração.
Do lado de fora, ouviu a porta do banheiro abrir novamente.
Daniel tinha entrado atrás dele.
— Paulo, espera.
Silêncio.
Paulo permaneceu imóvel dentro da cabine, encarando o chão.
O coração batia tão forte que chegava a incomodar.
Depois de alguns minutos, tudo ficou quieto.
Nenhuma voz.
Nenhum passo.
Apenas o som distante do pagode ecoando do lado de fora.
Então Paulo respirou fundo.
"Ele foi embora."
Destrancou a cabine devagar e saiu.
Mas congelou imediatamente.
Daniel ainda estava ali.
Encostado próximo à pia, observando-o em silêncio.
Paulo desviou o olhar na mesma hora e caminhou diretamente até a pia para lavar as mãos, fingindo indiferença.
— Vai continuar me evitando? — Daniel perguntou baixo.
Paulo ignorou.
Abriu a torneira.
A água gelada escorreu entre seus dedos enquanto tentava manter o controle.
Então Daniel se aproximou.
Rápido demais.
Antes que Paulo pudesse reagir, sentiu suas costas sendo pressionadas contra a parede ao lado da pia.
O corpo de Daniel estava perigosamente próximo.
Quente.
Intenso.
— Por que você apagou o aplicativo? — perguntou encarando-o diretamente.
Paulo sentiu a respiração falhar.
Daniel estava perto demais.
O perfume dele invadia tudo outra vez.
Aquele mesmo cheiro que Paulo tentou esquecer durante dias.
— E por que tá me evitando? — Daniel insistiu.
Paulo abriu a boca para responder, mas nenhuma palavra saiu.
Seu coração parecia completamente descontrolado.
Daniel percebeu.
Os olhos castanho-claros desceram lentamente até a boca dele.
E então aproximou-se ainda mais.
O beijo aconteceu de repente.
Impulsivo.
Quente.
Perigoso.
Paulo sentiu o corpo inteiro arrepiar no instante em que os lábios dos dois se encontraram novamente depois de tantos dias tentando fingir distância.
As mãos de Daniel seguravam sua cintura firme contra a parede enquanto o beijo se aprofundava rápido demais.
Intenso demais.
O som distante do pagode, o risco de alguém entrar no banheiro a qualquer momento e a adrenalina daquela situação deixavam tudo ainda mais caótico.
E Paulo odiava admitir.
Mas naquele instante, preso entre a parede e o corpo de Daniel, percebeu que ainda não tinha conseguido esquecê-lo nem por um segundo.
Capítulo 10 - Entre o Orgulho e o Desejo
Paulo ainda tentava entender o que estava acontecendo.
Seu corpo permanecia quente pelo beijo inesperado enquanto Daniel continuava perto demais, respirando de forma pesada, os olhos presos nos dele como se quisesse arrancar alguma reação.
Então vozes ecoaram do lado de fora do banheiro.
— Paulo? Ô Paulo!
Rodrigo.
O desespero bateu imediatamente.
Paulo empurrou Daniel para trás rapidamente.
— Entra na cabine. Agora.
Daniel segurou o braço dele antes.
— Só se você for comigo pra casa.
Paulo arregalou os olhos.
— Daniel, pelo amor de Deus...
— Responde.
Os passos de Rodrigo estavam cada vez mais próximos.
— Tá certo, tá certo! — Paulo respondeu baixo e apressado. — Mas se afasta.
Daniel soltou um sorriso discreto, satisfeito, antes de entrar rapidamente na cabine.
Segundos depois, Rodrigo abriu a porta do banheiro.
— Caralho, pensei que tu tinha morrido aqui dentro — disse rindo enquanto se aproximava da pia. — Sumiu faz tempo.
Paulo abaixou a cabeça rapidamente para lavar as mãos outra vez, tentando esconder o nervosismo.
— Só tava lavando o rosto.
— Vamos voltar pra mesa. Não gosto de ficar sozinho, ainda mais agora que acho que tem um cara interessado em mim ali naquela mesa do lado.
Rodrigo apontou para fora do banheiro, animado.
— Inclusive, posso ver se algum amigo dele tá solteiro pra te apresentar.
Paulo quase riu da ironia da situação.
Ainda sentia o gosto de Daniel na boca enquanto escutava o amigo tentando arrumar outro cara para ele conhecer.
— Tá tranquilo — respondeu tentando soar normal. — Não quero conhecer ninguém não. Vamos só voltar.
Os dois saíram do banheiro juntos.
Assim que Rodrigo virou o corredor, Daniel saiu lentamente da cabine observando Paulo se afastar.
Seu olhar ficou preso nele por alguns segundos.
Então franziu levemente a testa.
A voz daquele amigo parecia familiar.
Muito familiar.
Mas Daniel não conseguia ligar os pontos.
Talvez pela bebida. Talvez pela confusão do momento.
Ainda assim, alguma coisa naquela situação incomodava.
Daniel passou a mão na nuca, respirando fundo.
"Droga... nem consegui o número dele."
Enquanto isso, Paulo retornava para a mesa tentando agir normalmente, embora seu coração ainda estivesse completamente descontrolado.
Sentou ao lado de Rodrigo, pegou o copo de cerveja e tentou prestar atenção na conversa ao redor.
Inútil.
Porque do outro lado do bar, Daniel apareceu.
Encostado próximo à saída.
Observando-o.
Discretamente, Daniel começou a fazer pequenos sinais com a cabeça, indicando a porta de saída.
Como se pedisse silenciosamente para Paulo ir com ele.
Paulo fingiu não perceber.
Mas percebeu.
Cada gesto.
Cada olhar.
E aquilo só piorava tudo.
Porque Rodrigo não podia desconfiar de nada.
Ainda mais depois de ter contado tantos detalhes sobre sua própria noite com Daniel.
A situação era absurda demais.
Então Rodrigo levantou da mesa novamente ao avistar os rapazes da mesa ao lado.
— Já volto. Acho que agora eu desencalho oficialmente hoje.
Paulo aproveitou imediatamente.
— Rodrigo... acho que eu vou embora.
— Já? — perguntou confuso.
— Tô cansado. Mas fica aí, aproveita tua noite.
Rodrigo, já claramente bêbado, apenas deu risada.
— Fechou então. Depois a gente se vê na faculdade.
Paulo assentiu e pegou o celular do bolso antes de caminhar em direção à saída do bar.
Mas ao sair, parou imediatamente.
Daniel estava esperando por ele do lado de fora.
As mãos nos bolsos da calça.
O olhar intenso preso diretamente nele.
Como se soubesse que Paulo realmente iria aparecer.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou nada.
O som abafado do pagode escapava pela porta do bar enquanto o vento da madrugada balançava levemente a camisa preta de Paulo.
Então Daniel se aproximou devagar.
— Vai comigo pra casa?
Paulo desviou o olhar imediatamente.
— Pra quê?
Daniel respirou fundo.
— Pra conversar.
Paulo soltou uma risada desacreditada.
— Conversar? Agora você quer conversar?
Daniel aproximou-se mais um pouco.
— A gente precisa.
— Não tem mais o que falar, Daniel.
O nome saindo da boca de Paulo daquela forma fez Daniel ficar em silêncio por um instante.
Paulo continuou:
— Você deixou bem claro o que queria desde o começo.
Daniel abaixou os olhos rapidamente antes de voltar a encará-lo.
— Não foi tão simples assim.
— Pra você talvez não.
O clima entre os dois voltou a ficar pesado.
Tenso.
Cheio de coisas mal resolvidas.
Daniel passou a mão pelo rosto, claramente frustrado.
— Eu sei que agi estranho depois daquela noite.
— Estranho? — Paulo soltou uma risada amarga. — Você praticamente sumiu.
Daniel permaneceu em silêncio.
Porque no fundo sabia que Paulo tinha razão.
Então deu mais um passo em direção a ele.
Perto o suficiente para Paulo sentir novamente o perfume marcante que tanto tentou esquecer.
— Só vai comigo — pediu baixo. — Nem que seja pra gente colocar um ponto final nisso direito.
Paulo o encarou em silêncio.
E talvez o pior de tudo fosse perceber que, mesmo magoado, uma parte dele ainda queria ir.
Capítulo 11 - Entregues ao Desejo
Então Daniel pega pelo braço do Paulo e o puxa em direção ao carro que se aproxima. Ao entrar no carro, eles mantêm um silêncio ensurdecedor. A caminho da casa de Daniel, Paulo fica pensando o que realmente pode acontecer lá, qual era realmente a intenção de Daniel, ele ficava se perguntando. Ao chegarem na casa, Daniel abre a porta para Paulo entrar. Quando Paulo entra, Daniel fecha a porta rapidamente e puxa Paulo para mais próximo dele e, antes que Paulo falasse algo, Daniel o puxa para um beijo bem quente. Paulo sente como se Daniel quisesse o devorar ali mesmo e, mesmo que ambos tenham se afastado há um tempo, era nítido que a química entre os dois ainda existia. Seus corpos reagiam com um calor como se fosse a chama de vulcão.
Entre beijos e sarros, mãos bobas, Paulo tentava evitar, mas não conseguia resistir ao Daniel. Seu corpo falava mais alto, seus desejos ocultos, a saudade que ele sentia do corpo, do cheiro do Daniel, a saudade falava mais alto, então ele não o rejeitava, deixava apenas seu corpo, seus desejos, falarem mais alto. Então Daniel, beijando o Paulo, o leva lentamente, sem interromper o beijo, até o sofá da sala. Paulo se assusta um pouco ao encostar no sofá, como se fosse cair, então Daniel o segura sem deixar cair.
Daniel deita o Paulo no sofá e continua os beijos e sarros. Daniel sente a respiração ofegante do Paulo. Quanto mais o Daniel o pegava com força, mais o Paulo se empinava, como se quisesse que o Daniel o possuísse. Daniel, ao notar que o Paulo estava totalmente entregue ao momento, não contou conversa, abriu a camisa do Paulo e, ao ver aquele corpo que tanto lhe atraía, interrompeu o beijo por uns instantes e desceu para seu pescoço, passando a língua até descer aos seus peitos. Quanto mais Daniel lambia os peitos do Paulo, Paulo se entregava de prazer. Paulo falava baixinho, como se fosse um sussurro: "Aí Daniel, isso, não para, aaa que delícia".
Então Daniel, continuando obedecendo o Paulo, sem deixar Paulo na vontade do desejo, Paulo lentamente pega na cabeça do Daniel e vai descendo devagar. Daniel lentamente vai descendo sua língua quente de desejo até a virilha do Paulo. Sem antes perceber, Paulo já estava com seu pau estralando de prazer. Daniel, ao perceber aquele pau marcando a roupa do Paulo, então Daniel, sem perder tempo, abre devagar a bermuda do Paulo e, quando vê aquele pau marcando a cueca, todo babado de prazer, Daniel não sabia se conseguia dar conta de novo daqueles 19 cm, cheio de veias e com uma cabeça bem vermelhinha, aquela grossura onde as veias saltavam, que chegava a marcar na própria cueca branca.
Paulo já não aguentava mais de tanto prazer, então não esperou mais. Ao ver que Daniel estava ali apenas alisando seu pau que pulsava de prazer, ele baixou sua própria cueca e empurrou devagar para Daniel chupar seu pau, que babava de tanto prazer. Daniel já não resistia mais só olhar, então chupou como se não houvesse amanhã. Sentia cada gota daquele líquido que escorria daquele pau grosso, veiudo, sentia cada centímetro com sua língua, o pau do Paulo. Quanto mais ele chupava, mais Paulo se inclinava de prazer, como se quisesse gozar o mais rápido possível. Quanto mais o Daniel chupava, mais ele se deliciava naquele pau preto, grosso.
Daniel decidiu se entregar também àquele prazer por completo, então baixou suas calças, ficando totalmente nu. Quanto mais ele chupava, mais ele batia uma em seu próprio pau, que tinha uns 17 cm, grosso, rosado. Então Daniel decidiu também sentir aquele prazer que o Paulo estava sentindo, então interrompeu um pouco de chupar o pau do Paulo, subiu lentamente novamente, passando a língua, subindo pelo abdômen do Paulo até chegar à sua boca. Quando finalmente o Daniel chegou à boca do Paulo, eles se perdiam de prazer, totalmente entregues um ao outro. Quanto mais eles se beijavam, eles se punhetavam, unindo um pau no outro.
Então Paulo já não aguentava mais, chamou o Daniel para o quarto. Daniel perguntou: "Por que não continuarem ali mesmo?". Paulo respondeu: "Então tá bom". Paulo não contou mais conversa, pegou o Daniel com força e o virou de costas, passou sua língua pelo seu pescoço, descendo lentamente pelas suas costas até chegar na bunda redondinha do Daniel. Quanto mais a língua do Paulo descia pelas costas do Daniel, o Daniel se empinava lentamente. Então o Paulo continuou até chegar ao seu cuzinho. Quanto mais o Paulo chupava aquele cuzinho do Daniel, Daniel suspirava, pedindo para o Paulo não se conter e meter logo, pois já não aguentava. Quanto mais o Paulo chupava, mais o Daniel se masturbava lentamente, tentando segurar o alívio que poderia sentir ao gozar só com o Paulo chupando seu cuzinho.
Então, antes que se entregasse ao gozo do alívio, Daniel pediu para Paulo meter. Então Paulo simplesmente obedeceu o desejo do seu querido, subiu novamente até seu pescoço, dava leves mordidas enquanto tentava colocar a cabecinha. Enquanto ele tentava colocar, Daniel suspirava de prazer, sussurrando baixinho: "Aí ai, isso, vai, mete, que delícia". Paulo perguntava se tava doendo, se ele queria que parasse. Daniel apenas dizia: "Vai meter, vai, estou tão perto de gozar, isso, a a a".
Então, quanto mais o Paulo metia, o Daniel se masturbava mais e mais rápido, até que o Daniel finalmente gozou. Quando Daniel gozou, ele olha para o Paulo enquanto o Paulo o socava com força, sentindo cada centímetro do seu pau dentro do cuzinho do Daniel. Daniel pede em sussurro: "Goza dentro, vai, isso, goza, quero sentir todo o seu leitinho quente dentro do meu cuzinho".
Capítulo 12 - Entre Sentimentos e Conveniências
A madrugada na casa de Daniel foi intensa.
Não apenas pelos beijos demorados ou pela forma como os dois pareciam incapazes de manter distância um do outro, mas pela sensação perigosa de intimidade que surgia quando o silêncio tomava conta do apartamento.
Depois de tantas semanas de tensão, mágoa e desejo acumulado, Paulo acabou cedendo outra vez.
E Daniel também.
Naquela noite, os dois pareciam esquecer toda confusão que existia fora daquele quarto.
Os olhares.
As mãos se procurando no escuro.
As conversas baixas entre um beijo e outro.
Tudo parecia real demais.
Quase como um casal.
E talvez fosse exatamente isso que assustava Daniel.
Na manhã seguinte, Paulo despertou lentamente ao sentir a luz do sol atravessando parcialmente a cortina do quarto.
Virou o rosto devagar.
Daniel estava acordado.
Sentado na beira da cama, mexendo distraidamente nos dedos enquanto parecia pensar em alguma coisa.
O clima daquela manhã era diferente da primeira vez.
Não havia frieza.
Mas existia tensão.
Daniel percebeu que Paulo havia acordado e soltou um suspiro baixo antes de falar:
— A gente precisa conversar.
A frase fez o coração de Paulo apertar imediatamente.
Mesmo assim, tentou manter a calma.
Sentou-se na cama devagar enquanto observava Daniel evitar encará-lo diretamente.
— Sobre o quê?
Daniel passou a mão na nuca.
Claramente nervoso.
— Sobre nós.
O silêncio tomou conta do quarto por alguns segundos.
Paulo permaneceu quieto.
Esperando.
Daniel finalmente criou coragem para continuar:
— Eu sei que provavelmente te machuquei depois da primeira vez que a gente ficou.
Paulo desviou o olhar.
Porque ouvir aquilo doía mais do que gostaria de admitir.
— E eu também sei que passei uma imagem errada no começo.
Daniel agora o encarava diretamente.
Os olhos castanho-claros carregavam culpa verdadeira.
— Quando a gente conversava no aplicativo... eu gostava daquilo. Gostava de falar contigo. Só que eu acho que deixei você acreditar que eu tava pronto pra algo sério.
Paulo sentiu o peito pesar lentamente.
Porque, no fundo, aquela era exatamente a sensação que teve desde o início.
Daniel respirou fundo antes de continuar:
— Faz pouco tempo que eu saí de uma relação muito ruim. E desde então eu meio que... desaprendi a confiar nas pessoas.
A voz dele saiu mais baixa agora.
Mais vulnerável.
— Eu não me sinto preparado pra namorar alguém.
As palavras pairaram no quarto como um peso inevitável.
Paulo abaixou os olhos lentamente.
Parte dele já esperava por aquilo.
Mesmo assim, ouvir em voz alta machucava.
Daniel aproximou-se um pouco mais na cama.
— Mas isso não significa que eu não goste de você.
Paulo soltou uma pequena risada amarga.
— Parece exatamente isso às vezes.
Daniel fechou os olhos por um instante, frustrado consigo mesmo.
— Eu sei.
O silêncio voltou.
Lá fora, o som distante da cidade começava a crescer enquanto o quarto permanecia preso naquela conversa desconfortável.
Então Daniel perguntou, quase hesitando:
— Você conseguiria... tentar outra forma comigo?
Paulo franziu levemente a testa.
— Como assim?
Daniel demorou alguns segundos para responder.
Como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado.
— Amigos com benefícios.
A frase atingiu Paulo diretamente.
Porque naquele momento ele percebeu que Daniel queria mantê-lo por perto.
Mas sem responsabilidade emocional.
Sem compromisso.
Sem promessas.
Apenas presença quando fosse conveniente.
Paulo ficou em silêncio.
Tentando entender por que aquilo machucava tanto, mesmo depois de tudo que já tinha percebido sobre Daniel.
E talvez a pior parte fosse admitir para si mesmo que, apesar de tudo, ainda existia uma parte dele considerando aceitar.
Capítulo 13 - A Tentativa
Paulo não respondeu imediatamente à proposta de Daniel naquela manhã.
O silêncio que se instalou no quarto parecia durar uma eternidade.
"Amigos com benefícios."
A frase continuava ecoando em sua mente.
Ele sabia exatamente o que aquilo significava.
Significava estar presente sem poder cobrar presença.
Significava sentir ciúmes sem ter o direito de reclamar.
Significava gostar de alguém que continuaria livre para procurar outras pessoas.
No fundo, Paulo sabia que aquilo provavelmente terminaria em dor.
Mas também sabia que ainda não estava pronto para perder Daniel completamente.
— Eu posso pensar? — perguntou por fim.
Daniel assentiu.
— Claro.
Mas os dois já sabiam qual seria a resposta.
Nas semanas seguintes, a vida dos dois entrou em uma estranha rotina.
Não eram namorados.
Também não eram apenas amigos.
Ficaram presos em algum lugar entre os dois.
Às vezes Daniel aparecia de surpresa no campus da faculdade para buscar Paulo após as aulas.
Outras vezes era Paulo quem passava no shopping para encontrá-lo durante o horário de almoço.
Conversavam.
Riam.
Compartilhavam pequenos momentos.
E eram justamente esses momentos que confundiam Paulo.
Porque quando estavam juntos, Daniel parecia exatamente o homem por quem ele havia se apaixonado.
Atencioso.
Engraçado.
Carinhoso.
Presente.
Mas bastava cada um voltar para sua casa para a realidade reaparecer.
Daniel desaparecia por horas.
Às vezes por dias.
As mensagens voltavam a ficar curtas.
Distantes.
Imprevisíveis.
E Paulo nunca sabia qual versão de Daniel encontraria.
Numa sexta-feira à noite, os dois estavam sentados na areia da praia observando o mar.
O vento soprava forte.
Daniel desenhava distraidamente formas na areia com um pedaço de madeira enquanto Paulo observava as ondas.
Por alguns minutos permaneceram em silêncio.
Até que Daniel comentou:
— Eu gosto quando a gente faz isso.
Paulo virou o rosto.
— Isso o quê?
— Nada.
Só ficar aqui.
Sem pressão.
Sem cobrança.
Paulo sorriu de leve.
Mas algo dentro dele doeu.
Porque para Daniel aquilo era tranquilidade.
Para Paulo era esperança.
E esperança sempre cobrava um preço.
Os sinais começaram a aparecer aos poucos.
Primeiro foi uma notificação.
Depois outra.
Uma madrugada em que Daniel visualizou uma mensagem e desapareceu por horas.
Uma foto no celular dele recebendo curtidas de perfis desconhecidos.
Pequenas coisas.
Nada que comprovasse algo.
Mas suficiente para despertar inseguranças.
Paulo tentou ignorar.
Tentou lembrar que não existia compromisso.
Tentou repetir para si mesmo que havia aceitado aquelas condições.
Mesmo assim, não era fácil.
Porque quanto mais tempo passava ao lado de Daniel, mais difícil ficava separar sentimento de realidade.
Uma noite, enquanto assistiam a um filme no apartamento de Daniel, Paulo observou o rosto dele iluminado pela televisão.
Daniel estava concentrado na tela.
Completamente relaxado.
Bonito.
Familiar.
Próximo.
E ainda assim distante.
Paulo sentiu uma tristeza inesperada.
Aquela sensação de estar ao lado de alguém sem realmente possuí-lo.
Sem poder chamá-lo de seu.
Sem saber se estaria ali na semana seguinte.
Daniel percebeu o olhar.
— O que foi?
Paulo demorou alguns segundos para responder.
— Nada.
Mas não era verdade.
Porque naquele instante ele começava a perceber algo perigoso.
Enquanto Daniel estava confortável naquela relação sem nome...
Ele estava se apaixonando cada vez mais.
E talvez estivesse caminhando exatamente para o tipo de sofrimento que tentou evitar desde o início.
Capítulo 14 - O Adeus Necessário
As semanas continuaram passando.
Paulo e Daniel mantinham aquela relação indefinida que nunca era nomeada.
Às vezes passavam horas juntos.
Outras vezes Daniel desaparecia por dias.
E Paulo continuava fingindo que aquilo não o afetava.
Mas afetava.
Mais a cada dia.
O problema não era mais Daniel.
Era ele próprio.
Porque Paulo já não conseguia fingir que aquilo era apenas uma amizade com benefícios.
Ele estava apaixonado.
E apaixonado sozinho.
Numa noite de sábado, Paulo estava no apartamento de Daniel.
Daniel havia saído para tomar banho enquanto o celular permanecia sobre a mesa da sala.
Paulo nunca foi do tipo que mexia nas coisas dos outros.
E não mexeu.
Mas uma notificação apareceu na tela iluminando o ambiente.
Uma mensagem.
Depois outra.
E mais outra.
Todas de pessoas diferentes.
Conversas novas.
Convites.
Flertes.
O suficiente para fazê-lo entender algo que talvez já soubesse há muito tempo.
Daniel continuava vivendo exatamente da mesma forma que antes.
Continuava conhecendo pessoas.
Continuava aberto a novas possibilidades.
Continuava livre.
Enquanto Paulo permanecia emocionalmente preso.
Quando Daniel voltou do banho, encontrou Paulo sentado no sofá olhando para o chão.
Pensativo.
Silencioso.
— O que aconteceu? — perguntou.
Paulo demorou alguns segundos para responder.
Então levantou os olhos.
— Você tá feliz assim?
Daniel pareceu confuso.
— Assim como?
— Sem compromisso.
Sem saber onde as coisas vão chegar.
Sem construir nada.
A expressão de Daniel mudou imediatamente.
Ele já conhecia aquela conversa.
— Paulo...
— Não. Hoje você vai me ouvir.
Pela primeira vez, Paulo não parecia triste.
Parecia cansado.
— Eu aceitei tudo porque não queria te perder.
Aceitei esperar.
Aceitei entender teu tempo.
Aceitei fingir que tava tudo bem.
Mas não tá.
Daniel ficou em silêncio.
— Eu gosto de você.
E acho que você gosta de mim também.
Mas não do mesmo jeito.
As palavras ficaram suspensas entre os dois.
Porque ambos sabiam que eram verdadeiras.
Daniel sentou-se na poltrona à frente dele.
Passou as mãos pelo rosto.
— Eu avisei que não tava preparado.
— Eu sei.
— Então por que continua me cobrando?
Paulo respirou fundo.
— Porque eu achei que, com o tempo, alguma coisa mudaria.
E não mudou.
O silêncio que se seguiu foi doloroso.
Porque não existia vilão naquela história.
Apenas duas pessoas querendo coisas diferentes.
Então Paulo tomou sua decisão.
A mais difícil desde que conheceu Daniel.
— Eu preciso me afastar.
Daniel levantou os olhos imediatamente.
— O quê?
— Eu não consigo continuar desse jeito.
Não consigo continuar te encontrando.
Te beijando.
Dormindo do teu lado.
E depois fingindo que não espero mais nada.
A voz de Paulo tremia levemente.
Mas ele continuou.
— Eu gosto de você mais do que deveria.
E é justamente por isso que eu preciso ir embora.
Pela primeira vez desde que se conheceram, Daniel não soube o que responder.
Porque finalmente percebeu que estava perdendo alguém importante.
Mas ainda não conseguia oferecer aquilo que Paulo precisava.
E ambos sabiam disso.
Quando Daniel foi embora naquela noite, não houve discussão.
Não houve drama.
Não houve promessas.
Apenas um abraço longo.
Silencioso.
E doloroso.
Porque, às vezes, o amor não termina por falta de sentimento.
Termina porque sentimento, sozinho, não é suficiente.
Capítulo 15 - O Homem Que Ficou
Seis meses depois.
A vida continuava.
E por mais estranho que parecesse naquele momento, Paulo descobriu que a vida sempre continuava.
Mesmo depois das despedidas.
Mesmo depois dos amores inacabados.
Mesmo depois das pessoas que juramos nunca esquecer.
A faculdade seguia exigindo cada vez mais dele.
Os trabalhos.
As provas.
Os projetos.
A reta final do curso de engenharia consumia boa parte dos seus dias.
Mas agora era diferente.
Pela primeira vez em muito tempo, Paulo não acordava procurando mensagens.
Não verificava horários de visualização.
Não criava expectativas sobre quem iria aparecer ou desaparecer.
A paz havia voltado aos poucos.
Silenciosamente.
Sem que ele percebesse.
Rodrigo continuava sendo Rodrigo.
Falante.
Exagerado.
Incapaz de ficar calado durante uma aula inteira.
Numa tarde qualquer, enquanto os dois saíam da faculdade, o amigo comentou:
— Cara, tu tá diferente.
Paulo riu.
— Diferente como?
— Mais leve.
Mais feliz.
Mais você.
Paulo ficou em silêncio por alguns segundos.
Talvez fosse verdade.
Porque durante muito tempo ele havia vivido esperando que alguém o escolhesse.
Agora estava aprendendo a escolher a si mesmo.
O verão havia chegado novamente.
Numa manhã de domingo, Paulo caminhava pela mesma praia onde meses antes tentou esquecer Daniel.
O mar continuava igual.
As ondas continuavam chegando e partindo.
Mas ele já não era o mesmo homem.
Havia amadurecido.
Aprendido.
Mudado.
Algumas cicatrizes ainda existiam.
Mas já não doíam.
Eram apenas lembranças.
Às vezes Daniel ainda aparecia em seus pensamentos.
Principalmente quando sentia algum perfume parecido.
Ou quando passava perto do shopping onde ele trabalhava.
Ou quando escutava determinada música.
Mas agora era diferente.
Não havia mais saudade.
Nem esperança.
Apenas memória.
Daniel havia se tornado uma parte da sua história.
Não do seu futuro.
Naquela mesma noite, Paulo estava em casa terminando um relatório da faculdade quando seu celular vibrou sobre a mesa.
Uma mensagem.
Número desconhecido.
Ele quase ignorou.
Mas acabou abrindo.
A tela iluminou o quarto silencioso.
A mensagem era curta.
Simples.
Mas suficiente para fazer seu coração acelerar por um instante.
"Oi, Paulo. Como você está?"
Ele permaneceu olhando para a tela.
Sem responder.
Sem saber quem era.
Mas, no fundo, imaginando.
Talvez fosse Daniel.
Talvez não fosse.
E pela primeira vez desde o dia em que baixou o IfoodAmarelo, aquilo não importava tanto.
Porque sua felicidade já não dependia daquela resposta.
Nem daquela pessoa.
Nem daquela história.
Paulo apoiou o celular sobre a mesa novamente.
Levantou-se.
Foi até a varanda.
O vento da noite soprou suavemente contra seu rosto.
Lá embaixo, a cidade seguia viva.
Cheia de encontros.
Despedidas.
Promessas.
E recomeços.
Ele sorriu sozinho.
Porque finalmente compreendeu uma verdade que demorou muito para aprender.
Nem todo beijo é promessa.
Nem toda conexão é destino.
E nem todo amor foi feito para permanecer.
Alguns entram em nossas vidas apenas para nos ensinar quem somos quando o outro vai embora.
E Paulo gostava do homem que havia ficado.
Fim.
Epílogo
Meses depois, em algum lugar da cidade, Daniel caminhava sozinho após encerrar mais um dia de trabalho.
Seu celular estava cheio de conversas.
Novos contatos.
Novos encontros.
Novas possibilidades.
Mas nenhuma delas parecia durar.
Nenhuma delas parecia permanecer.
Ao passar diante de uma vitrine iluminada, ele viu seu próprio reflexo.
E pela primeira vez em muito tempo lembrou-se de Paulo.
Do sorriso dele.
Da forma como o olhava.
Da tranquilidade que sentia quando estavam juntos.
Parou por alguns segundos.
Então pegou o celular.
Abriu uma conversa antiga.
A única que nunca conseguiu apagar completamente.
Digitou lentamente:
"Oi, Paulo. Como você está?"
E apertou enviar.
Sem saber que, naquele momento, a pergunta já não tinha o mesmo poder que teria meses atrás.
Porque algumas pessoas só percebem o valor de uma presença quando ela deixa de esperar por elas.
