Certa vez eu estava navegando pelo Instagram, distraidamente, quando apareceu uma sugestão de amizade. Por curiosidade, resolvi entrar no perfil. Ele tinha poucos seguidores, quase nenhum amigo em comum comigo, mas havia alguma coisa ali que chamou minha atenção. Talvez o sorriso nas fotos... ou aquele ar misterioso que certas pessoas carregam sem perceber.
Sem pensar muito, resolvi seguir.
O que eu não esperava era que ele fosse me seguir de volta tão rápido. E menos ainda receber uma mensagem logo em seguida:
— Bom dia, obrigado por me seguir. Seja bem-vindo.
Achei aquilo estranho de um jeito engraçado. Quem agradece por um follow hoje em dia? Mas ao mesmo tempo aquilo pareceu... fofo.
Respondi apenas:
— De nada kkk, bom dia.
Mais tarde, enquanto eu estava indo para a faculdade, meu celular vibrou com várias notificações seguidas. Quando abri, vi que era ele curtindo praticamente todos os meus posts e destaques.
Na mesma hora eu pensei:
"Hm... essa alma tá querendo reza." rsrs
Entrei no perfil dele de novo e curti umas duas fotos. Mas não fotos recentes. Porque, sinceramente, quando eu me interesso por alguém, faço questão de curtir umas fotos antigas só pra deixar aquele indício no ar... tipo: "você realmente chamou minha atenção".
E aparentemente ele entendeu o recado.
Naquela mesma noite chegou outra mensagem:
— Boa noite, como você está?
Respondi quase na mesma hora:
— Boa noite, estou bem... e você?
E foi assim que tudo começou.
As conversas que antes pareciam simples começaram a virar rotina. Todo dia tinha mensagem. Desde o primeiro "bom dia" sonolento até as conversas intermináveis de madrugada, quando o sono já nem importava mais.
A gente falava sobre tudo. Faculdade, músicas, infância, traumas, desejos, coisas bobas... e sem perceber eu comecei a esperar pelas notificações dele.
Porque às vezes o amor começa assim:
com um follow,
algumas curtidas estratégicas
e alguém desconhecido fazendo seu coração sorrir para a tela do celular.
Capítulo 2 - Do Bom Dia à Boa Madrugada
Toda vez que a gente marcava de se encontrar, alguma coisa acontecia e nunca dava certo. No começo eu não estranhava tanto, afinal a vida é corrida, imprevistos acontecem... mas com o tempo aquilo começou a me incomodar.
Eu comecei a perceber alguns detalhes estranhos.
Os horários dele eram confusos. Às vezes sumia em determinados períodos do dia e depois aparecia como se nada tivesse acontecido. Ele também evitava áudios o máximo possível. Sempre dizia:
— Me manda mensagem, é melhor.
E eu respeitava.
As nossas conversas eram frequentes demais para serem apenas passageiras. Ele respondia rápido, fazia questão de saber do meu dia, perguntava se eu tinha comido, se eu tinha chegado bem da faculdade... e sem perceber, ele foi ocupando um espaço enorme dentro de mim.
Até que um dia ele me enviou um áudio.
Enquanto eu escutava, ouvi ao fundo uma voz chamar:
— Amor...
Na hora meu coração estranhou, mas minha mente tentou ignorar. Talvez fosse impressão minha. Talvez fosse alguém da família. Talvez eu só estivesse criando coisa na cabeça por medo de me decepcionar.
Então não falei nada.
Guardei aquilo só pra mim.
Até porque eu também vivia ocupado. Minha rotina era puxada, eu me dedicava muito aos estudos e quase não tinha tempo pra muita coisa. Mas, ainda assim, em cada intervalo livre do meu dia, era nele que eu pensava.
Já fazia mais de três meses que a gente conversava.
Três meses de mensagens diárias.
Três meses de expectativa.
Três meses criando intimidade com alguém que eu nunca tinha tocado.
E mesmo sem nunca ter encontrado ele pessoalmente, eu já me sentia preso naquele sentimento.
Porque ele me entendia como ninguém.
Eu queria conhecê-lo de qualquer jeito. Queria olhar nos olhos dele sem a luz de uma tela entre nós. Queria sentir o cheiro do perfume misturado na pele, sentir o toque das mãos dele nas minhas, descobrir se o abraço dele era tão acolhedor quanto as palavras.
E, principalmente, queria descobrir se o beijo dele tinha o mesmo efeito que a voz dele tinha sobre mim nas madrugadas.
Porque quanto mais o tempo passava, mais eu sentia falta de alguém que, na verdade, eu nunca nem tinha visto de perto.
Capítulo 3 - Sozinho no Cinema
Era véspera de feriado e, milagrosamente, eu não teria aula no dia seguinte. Na minha cabeça, aquela era a oportunidade perfeita pra finalmente encontrar ele. E provavelmente ele também estaria livre.
Então tomei coragem e chamei:
— Vamos ao cinema comigo? Depois a gente pode ir pra praia... comer alguma coisa, conversar, curtir a noite.
Na verdade, eu nem ligava tanto pro filme.
Eu queria era sentir ele perto de mim.
Andar lado a lado.
Sentir o cheiro do perfume dele.
Talvez ficar de mãos dadas no escurinho do cinema... quem sabe trocar alguns beijos, umas mãos bobas aqui e ali... vocês sabem como é rsrs.
Mas, mais uma vez, não deu certo.
Ele disse que a família viria visitá-lo e que queria aproveitar o tempo com eles, matar a saudade. Eu respondi normalmente, fingindo entender, mas por dentro já estava cansado das tentativas frustradas.
Mesmo assim, decidi não ficar em casa.
Resolvi ir sozinho ao shopping. Assistir um filme, comer alguma coisa, espairecer a cabeça. Talvez fosse melhor do que passar a noite olhando pro celular esperando mensagens.
Quando cheguei ao cinema, quase desisti.
A fila estava gigantesca, dobrando o corredor inteiro. E detalhe: eu odeio filas. Odeio esperar. Mas como já estava ali, fiquei. Afinal, se eu tivesse sido minimamente inteligente, teria comprado online.
Depois de uma eternidade, finalmente chegou minha vez.
Escolhi uma poltrona lá atrás. No escurinho. No friozinho do ar-condicionado. O tipo de lugar perfeito pra um encontro... mesmo que eu estivesse sozinho.
O filme começou.
Uns dez minutos depois, um rapaz entrou apressado na sala procurando o assento. Quando encontrou, sentou justamente ao meu lado.
Ele se inclinou um pouco na minha direção e perguntou baixinho:
— Faz muito tempo que começou?
O tom da voz dele era calmo, quase tímido.
— Não... faz uns dez minutos só — respondi no mesmo tom.
Ele sorriu de leve.
— Ah, obrigado.
Então colocou os óculos 3D.
E sim... esqueci de contar: o filme era de suspense.
A cada cena mais tensa, ele dava uns pulinhos discretos na poltrona. E eu já não sabia mais se prestava atenção no filme ou nele tentando esconder o medo.
Teve uma cena em que o suspense ficou insuportavelmente silencioso. Foi quando ele apoiou a mão no braço da poltrona... bem perto da minha.
Sem querer, nossos dedos se tocaram.
Ele rapidamente virou o rosto pra mim.
— Desculpa...
Eu apenas sorri de canto, daquele jeito provocativo e silencioso que diz mais do que qualquer palavra.
E então aconteceu.
Sem pressa, ele entrelaçou os dedos nos meus e segurou minha mão como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
E eu deixei.
Durante o resto do filme, sempre que levava susto, ele apertava minha mão forte. E, sinceramente? Eu estava começando a gostar da sensação.
Até que houve uma pausa na tensão do filme. A cena mudou para um casal em um momento íntimo, cheio de desejo contido. A luz da tela iluminou parcialmente o rosto dele... e, ao invés de olhar para o filme, ele olhou pra mim.
Direto nos meus olhos.
Meu coração disparou.
Devagar, ele passou a ponta dos dedos pelo centro da minha palma, num carinho lento e provocante.
Aquilo foi o suficiente.
Sem pensar duas vezes, eu puxei delicadamente o pescoço dele para mais perto do meu... e o beijei.
Um beijo quente.
Calmo no começo.
Mas cheio de vontade acumulada.
Como se nós dois estivéssemos esperando por aquilo há muito mais tempo do que deveríamos.
Capítulo 4 - Barzinho
Então eu peguei sua mão e levei diretamente para minha bermuda, onde marcava nitidamente o volume que estava dentro da minha cueca. Ele, sem mais nem menos, meteu a mão por baixo da minha roupa e começou a me masturbar lentamente. Naquele escurinho do cinema, onde parecia que só estávamos nós dois, era um momento de tensão e nervosismo, porém quente o suficiente para permanecer. Mas, ao eu sentir que as coisas já estavam passando do limite, tirei a mão dele e demos continuidade a assistir ao filme de mãos dadas. Em algumas pausas dávamos uns beijinhos de leve, mas sem exagero, para não ficar nítido para o pessoal da sala.
Ao finalzinho do filme, saímos devagar e trocávamos olhares, até que eu fui ao banheiro. Ao sair do mictório, fui lavar as mãos e, quando de repente olho para o lado, ele está lá e me chama para a cabine com outras intenções. Já passava das 22h e o shopping praticamente estava quase vazio. Foi quando eu pensei mais de 10 vezes antes de decidir entrar na cabine. Então eu decidi entrar. Foi quando, nem mais nem menos, ele me empurrou contra a parede e me beijou ali mesmo. O beijo estava sufocantemente gostoso. Então eu, como não sou bobo nem nada, peguei ele pelo pescoço, levantei a camisa e botei ele para se deliciar no meu pau, que pulsava de tesão. Ele me chupou como se não houvesse amanhã. Quando eu estava prestes a gozar, ouvi uma voz como se alguém estivesse entrando, então interrompi aquele momento de ápice e pedi para sair.
Eu saí rapidamente e fui direto para a pia lavar as mãos. Meu pau ainda marcava a bermuda, estava nítido que ele estourava de prazer para gozar. Eu não tinha como esconder, então decidi entrar em outra cabine para ver se a ereção baixava. Quando eu percebi que não havia ninguém mais no banheiro, decidi sair.
No estacionamento, eu aguardava a chegada do carro para poder ir para casa. Ao entrar no carro, percebi que o motorista não tirava os olhos de mim, até que ele decidiu puxar assunto e perguntou o que eu estava fazendo no shopping. Eu disse que tinha ido assistir a um filme. Foi quando ele perguntou que tipo, e assim a conversa foi fluindo. Ele rapidamente não foi nada discreto e me elogiou:
— Rapaz, você é um homem muito bonito, as meninas devem cair matando em cima de você.
Eu sorri e disse:
— Sou gay.
Ele pediu desculpa e disse:
— Ótimo, assim não engravida kkkkk.
Eu achei meio ofensivo, mas deixei para lá. Eu queria chegar em casa o mais rápido possível. Foi quando ele perguntou se eu bebia. Eu respondi que sim. Então ele me fez uma proposta ousada:
— Que tal a gente ir para um barzinho conversar? Agora são 22h e eu não vou mais fazer corrida. Queria me distrair.
De início eu fiquei com receio, pois não o conhecia e não ia sair assim. Foi daí então que eu pensei: "Rapaz, tá cedo, vou fazer o quê em casa em pleno feriado?". Eu decidi aceitar o convite.
Então ele encostou o carro no canto e me pediu para ir para frente. Eu simplesmente fui. No caminho do barzinho, ele simplesmente bateu com a mão na minha coxa e disse:
— Rapaz, vendo você de mais perto, né, que tu é bonitão.
Eu agradeci e sorri. Conversa vai, conversa vem, ao chegar no barzinho ele perguntou qual tipo de bebida eu queria e se eu queria petiscos. Eu simplesmente pedi uma cerveja. Papo vai, papo vem, as horas se passando e a gente conversando sobre várias coisas. Foi quando olhei para o celular e ele estava no modo "não perturbe", não chegava notificação nenhuma. Então eu falei para ele:
— Está na minha hora, tenho que ir. Obrigado pela noite, foi uma satisfação lhe conhecer.
Então me levantei lentamente. Foi quando ele, de repente, puxou minha mão e disse:
— Eu queria te pedir uma coisa, posso?
Eu disse:
— Depende.
— Posso te beijar?
Eu olhei para os dois lados e disse:
— Aqui? Tem muita gente.
Ele disse:
— Não, vamos ali atrás.
Então eu o segui. Ao chegar lá, ele me empurra na parede e começa a me beijar como se não houvesse amanhã. Então, ao término do beijo, eu agradeci novamente e chamei outro carro. Antes do carro chegar, ele pediu meu número para que pudéssemos manter contato. Eu dei meu contato a ele e fui para o ponto de aguardo do carro.
Ao entrar, comecei a pensar na loucura do feriado que tinha acontecido. Beijei um menino no cinema, fiz coisas perigosas no banheiro do cinema kkk, fui ao barzinho com um motorista de aplicativo... que loucura. E comecei a sorrir do nada.
Ao chegar em casa, decidi tirar o celular do modo "não perturbe". Quando vi, tinha mais de 20 mensagens do menino com quem eu conversava no Instagram. E em uma dessas mensagens estava escrito:
— Preciso falar com você pessoalmente.
Meu coração acelerou e, sem pensar, eu apenas respondi:
— Onde? Quando?
Foi quando ele simplesmente falou:
— Você foi ao cinema, né? Beijou um menino lá?
Eu fiquei em choque. Como ele poderia saber de tudo isso? Então perguntei como ele sabia disso.
Foi quando ele revelou:
— Meu namorado disse que ficou com você.
Capítulo 5 - Ligações desconhecidas
Eu fiquei completamente incrédulo.
Como assim?
Tudo mudou de uma hora para outra. Minha cabeça começou a girar e eu já não sabia mais o que pensar, o que sentir ou como reagir diante daquilo tudo.
Então respondi, já sem conseguir esconder minha indignação:
— Agora eu entendo por que você sempre rejeitava meus convites para sair. Você é comprometido. A gente conversa há mais de três meses e em nenhum momento você me falou que namorava. E agora vem me dizer que eu fiquei justamente com o seu namorado?
Minha respiração estava acelerada enquanto eu digitava.
— E outra... como o seu namorado sabe de mim? Como ele teve coragem de fazer tudo isso e você simplesmente fala disso com tanta naturalidade? Parece que você nem liga para o que aconteceu.
Foi então que ele pediu calma e disse que iria me explicar tudo.
Mesmo revoltado, decidi ouvir.
Depois de alguns minutos, ele começou a digitar:
— No dia em que nos conhecemos, eu não imaginava que iria me aproximar tanto de você. Eu criei um carinho imenso. Você me tratava com atenção, carinho... e eu jamais imaginaria que alguém que nem me conhecia pudesse agir assim comigo.
Continuei lendo em silêncio.
— Eu não falei sobre meu relacionamento porque as coisas já estavam desgastadas entre mim e ele. Eu nunca imaginei que pudesse me apaixonar por outra pessoa ainda amando alguém.
Aquelas palavras me deixavam ainda mais confuso.
Então ele continuou:
— Quando decidi terminar com meu namorado, ele já tinha descoberto sobre nossas conversas. Descobriu as fotos que trocávamos... até as fotos que estavam apagadas na lixeira. Ele salvou seu número escondido.
Meu coração começou a afundar.
— Então ele mesmo planejou te conhecer antes de mim.
Naquele momento senti um frio percorrer meu corpo inteiro.
— Quando ele chegou em casa, mostrou o chupão que estava no peito dele. Contou todos os detalhes do que aconteceu no cinema... e disse que queria te conhecer melhor.
Eu mal conseguia acreditar no que estava lendo.
— Depois disso, ele falou que talvez nós dois já não déssemos mais certo como casal. Então disse que a decisão seria sua: ficar comigo ou com ele.
A cada mensagem eu sentia mais nojo da situação.
Mas o pior ainda estava por vir.
— Então ele sugeriu que a gente inserisse uma terceira pessoa na relação... e essa pessoa poderia ser você. Afinal, você já me conhecia, mas ainda não conhecia ele direito... só tinha provado um pouco dele.
Meu estômago revirou.
E então veio a pergunta:
— Você aceitaria namorar nós dois?
Naquele momento eu não sabia nem como reagir. Era tanta manipulação, mentira e falta de respeito que parecia impossível aquilo tudo ser real.
Respirei fundo antes de responder:
— Boa sorte pra você e pra ele. Isso só mostra o quão fúteis vocês são. Não por quererem inserir alguém na relação, mas por você esconder durante meses que tinha um namorado. E ele é ainda pior por pegar minhas fotos e planejar tudo isso pelas minhas costas, sem que eu imaginasse os planos doentios de vocês.
Depois disso, bloqueei ele.
Bloqueei em tudo.
E tentei seguir minha vida.
Voltei para minha rotina na faculdade, para meus estudos, tentando esquecer toda aquela loucura que tinha vivido.
Mas durante dias comecei a receber ligações de números desconhecidos. Eu nunca atendia.
Até que, alguns dias depois, resolvi atender.
— Boa noite, Rafa. Tudo bem com você?
A voz parecia familiar.
— Quem é? — perguntei desconfiado.
Houve um pequeno silêncio antes da resposta:
— Sou eu... Jorge. Ex-namorado dele.
Na mesma hora fechei os olhos, já irritado.
Então ele continuou:
— Eu gostaria de te encontrar para conversar. Acho que tudo aquilo ficou muito mal resolvido entre a gente.
Respirei fundo antes de responder calmamente:
— Eu agradeço o gesto, mas não precisa. Estou começando um relacionamento agora e não quero mais me envolver nisso. O que aconteceu ficou no passado.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
Então desligamos.
E, pela primeira vez depois de muito tempo, senti que finalmente estava seguindo em frente.