Durante anos, ela e João fizeram promessas, rezaram em igrejas e terreiros, consultaram médicos na capital e curandeiras do interior. Cada mês trazia uma nova esperança, seguida da mesma decepção silenciosa. Com o tempo, aprenderam a não tocar mais no assunto.
Talvez por isso, os filhos de Antônio ocupassem um lugar tão especial em seu coração.
Miguel e Davi chamavam Helena de "madrinha", mas, na prática, ela era muito mais do que isso. Costurava as roupas rasgadas dos meninos, preparava bolos de fubá quando eles apareciam correndo em sua porta e fazia questão de ajudá-los com as primeiras letras, usando o velho caderno da escola onde lecionava.
Quando Antônio precisava passar o dia inteiro na roça, era para a casa de João e Helena que as crianças iam. Helena os recebia com um sorriso que escondia uma dor antiga. Cuidava deles como se o destino tivesse lhe concedido, ainda que emprestados, os filhos que nunca pôde gerar.
Às vezes, ao vê-la penteando os cabelos de Davi ou ensinando Miguel a escrever o próprio nome, Antônio sentia uma gratidão impossível de colocar em palavras.
João também observava a cena em silêncio.
Via a felicidade sincera da esposa ao lado das crianças e desejava que a vida tivesse sido mais generosa com ela. Ao mesmo tempo, percebia que aqueles momentos uniam ainda mais as duas famílias, tornando cada visita de Antônio menos uma obrigação de compadres e mais um encontro entre pessoas que já se consideravam parte da mesma casa.
Sem perceber, Helena acabava construindo a ponte que aproximava ainda mais os dois homens, acreditando apenas que estava ajudando um amigo viúvo a criar seus filhos com amor e dignidade.
Início muito bom?!