O inverno baiano chegava discreto, trazendo noites mais frias e um vento que fazia as folhas do cajueiro dançarem no terreiro.
Antônio já não estranhava quando João aparecia no fim da tarde para ajudá-lo. Sempre havia uma cerca para consertar, um telhado para remendar ou uma desculpa qualquer que justificasse sua presença.
— Você trabalha demais, compadre — dizia João, enxugando o suor da testa.
— Se eu parar, a vida para junto.
João sorria, mas seus olhos permaneciam em Antônio por alguns segundos a mais do que seria comum.
Miguel e Davi corriam pelo quintal, transformando pedaços de madeira em cavalos imaginários. As gargalhadas dos dois enchiam a casa de uma alegria que Antônio julgava ter perdido para sempre depois da morte da esposa.
Helena observava a cena da janela.
Era bonito ver os quatro juntos.
João ria como nunca ria em casa. Antônio parecia mais leve. As crianças tinham alguém que lhes ensinava a pescar, a cuidar da terra e a construir brinquedos.
Por um instante, Helena imaginou como teria sido sua vida se aqueles meninos fossem seus filhos.
Naquela noite, quando voltaram para casa, ela comentou:
— Antônio sorriu hoje... fazia tempo que eu não via aquilo.
João apenas concordou.
Mas não contou que era justamente o sorriso de Antônio que o acompanhava antes de dormir.
Nem que, às vezes, acordava no meio da madrugada perguntando a si mesmo por que a presença do compadre lhe trazia uma paz que não encontrava em nenhum outro lugar.
Os dias passaram.
Na festa de São João, a cidade inteira se reuniu na praça.
Havia sanfona, fogueira e bandeirinhas coloridas balançando ao vento.
Antônio dançou uma quadrilha com Davi nos ombros. Miguel corria atrás dos balões de papel, enquanto Helena distribuía pedaços de bolo às crianças da vizinhança.
João observava tudo de longe.
Foi então que Antônio se aproximou.
— Está tudo bem?
João demorou a responder.
— Está... só pensei em como a vida muda.
Os dois permaneceram em silêncio.
Ao redor deles, o forró continuava, as pessoas riam e brindavam como se nada pudesse dar errado.
Mas, entre os dois compadres, havia um silêncio diferente.
Era um silêncio cheio de palavras que nenhum deles tinha coragem de dizer.
Porque, naquele tempo, certos sentimentos podiam custar muito mais do que um coração partido.
Podiam custar uma família, uma amizade... ou a própria liberdade.
Maravilha?!