Depois da conversa à beira do riacho, Antônio e João fizeram um acordo sem precisar apertar as mãos.
Continuariam sendo apenas compadres diante dos olhos da cidade.
Nada mudaria.
Ou, pelo menos, era isso que tentavam acreditar.
João diminuiu ainda mais as visitas. Quando precisava ir à casa de Antônio, mantinha as conversas curtas e evitava permanecer depois do café.
Antônio compreendia.
Cada despedida era uma forma de proteger quem mais amavam.
Helena, entretanto, percebia o vazio que se instalava na casa.
— Faz dias que você não vai ver os meninos — comentou certa manhã.
— Eles já têm o pai. Não precisam de mim o tempo todo.
Helena sorriu com ternura.
— Precisam, sim. Miguel vive perguntando quando o padrinho volta para ensinar a pescar.
Aquelas palavras atingiram João como uma flecha.
Na semana seguinte, Helena insistiu para que convidassem Antônio e os filhos para o almoço de domingo.
A mesa foi posta com cuidado. Havia galinha ensopada, arroz, feijão e um doce de leite preparado por ela mesma.
Miguel e Davi corriam pela casa como se aquele lugar também lhes pertencesse.
Helena observava a cena com o coração aquecido. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu a casa cheia da vida que sempre sonhara.
Durante o almoço, Davi disse inocentemente:
— Madrinha... por que a gente não mora tudo junto?
O silêncio caiu sobre a mesa.
Antônio abaixou a cabeça.
João segurou o copo com tanta força que os dedos ficaram brancos.
Helena sorriu para o menino.
— Porque cada família tem a sua casa, meu amor.
Davi aceitou a resposta e voltou a comer.
Mas a pergunta permaneceu ecoando na mente dos três adultos.
Naquela noite, depois que Antônio foi embora com os filhos, Helena encontrou João sentado sozinho na varanda.
Sentou-se ao seu lado.
— Você ama muito aquelas crianças, não ama?
João respondeu sem hesitar.
— Como se fossem minhas.
Helena segurou sua mão.
— E isso nunca me incomodou.
Ele apertou delicadamente a mão da esposa, tomado pela culpa.
Ela falava do carinho pelas crianças.
Ele sabia que seu coração já não se dividia apenas entre ela e os afilhados.
Pela primeira vez desde o casamento, João percebeu que o maior peso não era esconder seu amor por Antônio.
Era olhar para Helena, uma mulher boa e generosa, e saber que ela não merecia ser ferida por uma verdade que ainda desconhecia.
Naquela noite, ninguém conseguiu dormir.
E o destino parecia aproximar o momento em que o silêncio deixaria de protegê-los.