Agosto chegou trazendo chuvas finas que encharcavam os caminhos de terra e deixavam a roça coberta por um verde novo. Antônio gostava daquele tempo. Dizia que a chuva lavava não apenas a terra, mas também as tristezas que insistiam em ficar.
Numa tarde, Miguel apareceu correndo na varanda.
— Pai! A ponte do riacho caiu!
Antônio largou a enxada e foi ver o estrago. A correnteza havia levado parte da passagem de madeira. Sozinho, levaria dias para reconstruí-la.
Como sempre, João apareceu antes mesmo de ser chamado.
— Soube do que aconteceu. Vim ajudar.
Os dois passaram horas serrando tábuas, levantando vigas e prendendo os esteios. Trabalharam quase sem falar. A convivência de tantos anos havia ensinado que nem todo silêncio era vazio.
Quando terminaram, a chuva voltou com força.
Refugiaram-se no pequeno rancho onde Antônio guardava ferramentas. A água batia no telhado de zinco, abafando qualquer som do lado de fora.
João olhou para as próprias mãos, marcadas pelo trabalho.
— Às vezes eu penso que Deus escreve caminhos que a gente nunca entende.
Antônio permaneceu olhando a chuva.
— Eu também.
As palavras ficaram suspensas entre eles, sem que nenhum dos dois ousasse dar o passo seguinte.
Em casa, Helena preparava um caldo quente. Ao ver os dois chegando encharcados, sorriu.
— Vocês parecem dois meninos que esqueceram de voltar antes da tempestade.
Miguel e Davi correram para abraçar o padrinho, felizes por vê-lo mais uma vez.
Helena serviu o jantar enquanto observava a alegria das crianças. Pela primeira vez, percebeu algo diferente.
Não era um gesto, nem uma palavra.
Era o modo como João e Antônio se procuravam com os olhos antes mesmo de falar. Como um entendia o outro sem explicações.
Ela afastou esse pensamento.
"São amigos desde pequenos", repetiu para si mesma.
Mas, naquela noite, enquanto João dormia, Helena permaneceu acordada, olhando a chama fraca do lampião.
Pela primeira vez, uma dúvida silenciosa atravessou seu coração.
E ela não sabia se tinha coragem de buscar a resposta.
Com certeza muito difícil de imaginar?!