A primeira experiência buscou uma metrópole europeia, as ruínas do que foi Lisboa há dezenas de anos atrás. E a reação dos Continentais foi de atacar os Soberanos, o que os fez repelir, não porque não tinham condições de invadir e atrair as pessoas, mas porque Rainha Gardênia tinha exigido que só poderiam ser levados os homens e mulheres que enxergassem os Impérios como uma opção real e verdadeira.
Isso fez com que os grupos de Soberanos se dividissem ainda mais. Por isso, pequenas embarcações compostas por grupos de homens Soberanos passaram a visitar áreas mais longes, sem a supervisão de Soberanas - que os lideravam. E assim que eles entravam em contato com os Continentais, perceberam que diferente do que ocorria nas ilhas, eles tinham capacidade de ler absolutamente tudo que uma pessoa do continente tinha na cabeça. Desde memórias antigas, pensamentos fixos em torno de algo ou alguém até o que eles planejavam para seu futuro e vários outros detalhes como desejos ou interesses que ninguém gostaria de dizer em voz alta.
Pela primeira vez, esses grupos notaram o tamanho do poder que as Soberanas tinham sobre eles e, distante delas e sem que elas pudessem lhes controlar, o desejo deles foi de não retornar para as ilhas e interagir com as pessoas dos continentes.
Ficava fácil saber se alguém se tornaria em um fiel apoiador ou não. Eles liam absolutamente tudo na cabeça dessas pessoas. Passaram a perceber os conflitos, guerras de interesse e tudo mais que acontecia no continente. Incluindo coisas que eles não sabiam que acontecia e que nenhum Império tinha ideia de acontecer. Por um tempo, as Soberanas não perceberam para um fato conhecido, mas esquecido: homens Soberanos também tomavam a pílula e não conseguiam ler a mente de outras mulheres Soberanas, mas podia ler a de qualquer pessoa que não a tomasse.
Por isso, por um tempo, um grupo razoável de Soberanos saía para os continentes e não voltavam mais. Imaginava-se que eles teriam falhado, ou que os barcos teriam afundando ou, numa hipótese menos provável, teriam sido mortos ou capturados por um grupo continental de tecnologia mais avançada. Mas as Soberanas sabiam bem que isso não seria possível.
Foi quando Gardênia ordenou que os pequenos grupos tivessem também uma Soberana em sua embarcação e, assim, notaram o que acontecia. Ao chegar nas comunidades, os Soberanos interagiam com a mente das pessoas dos continentes e a Soberana responsável com a mente de todos. Bastava olhar para a pessoa. Tudo isso sem que as pessoas que tinham a cabeça vasculhada notassem. Algo que também era novo.
Algumas Soberanas até aproveitaram o momento para controlar pessoas Continentais e perceberem que era absolutamente possível, sem que a pessoa percebesse, embora não entendessem porque faziam o que eram controladas a fazer. Isso causou muito interesse também para as mulheres Soberanas de baixo escalão porque elas podiam simplesmente controlar quem quisessem sem dar satisfação, mais ou menos o que acontecia com as Rainhas no Império. Isso permitiu que as navegações demorassem um pouco mais do que o previsto.
Passou a ser comum que algumas Soberanas construíssem um pequeno harém de mulheres continentais para se satisfazer sexualmente com elas. Pequenas orgias controladas que lhe faziam sentir um imenso prazer. Havia até uma pequena comunidade de Soberanas que compartilhavam a localização de onde se encontrariam as mulheres mais interessantes para transarem.
Mas diferente dos Soberanos, uma Soberana não podia se dar ao luxo de não retornar. Uma vez que eram hierarquizadas no Império, diferente dos homens, as suas mentes se ligavam à uma outra mulher de hierarquia maior e, mesmo distante delas, se elas representassem um risco, poderiam ser desligadas com extrema facilidade.
O desligamento nada mais era do que uma desconexão neural com o grupo. A sensação, para uma Soberana desligada, era como se algo em sua cabeça fosse deslocado. E o efeito colateral era a perda do poder de controle e leitura de outras mentes ou a morte instantânea. Elas ainda conseguiriam sobreviver aos gases tóxicos. Mas por mais que os trabalhos do mais baixo escalão fossem péssimos, nenhuma delas gostaria de ser lida por um Soberano. De repente o melhor seria mesmo a morte.
Por isso, quando as Soberanas iam com as pequenas embarcações, controlavam e evitavam que os Soberanos fugissem. E mesmo aqueles que passavam a pensar na possibilidade de um dia fugir, eram controlados para tirar a própria vida no meio dos demais. A ideia era não contaminar os Soberanos que ainda estavam na ilha. Tanto que no retorno, as Soberanas faziam um bloqueio mental no sentido de impedir que um Soberano fale sobre o que acontece no continente para outra pessoa, já que não eram capazes de apagar memórias.
Isso reduziu os riscos de fuga. Mas mesmo assim, centenas de Soberanos já tinham se deslocado para os continentes. As Soberanas de hierarquia intermediária chegaram a contabilizar e buscar os nomes dos mesmos para o banimento imperial. Mais tarde, além do banimento, a Soberana Rainha Gardênia comunicou que os 132 Soberanos e oito Soberanas tinham se transformado em "Traidores do Império" e que deveriam ser eliminados automaticamente, por qualquer membro imperial, assim que fossem avistados. Sobre as oito Soberanas, não era possível saber se ainda estariam vivas ou teriam morrido. Mas na dúvida, não eram bem-vindas e deviam ser punidas com a morte.
Os Soberanos fugitivos não sabiam da existência uns dos outros. Geralmente uma embarcação pequena levava de três a seis homens e esse grupo se perpetuava no continente. Para fugir da possibilidade de serem caçados, muitos passaram a se mover para o interior dos continentes e a se relacionar com os grupos nômades. Como sabiam o que se passava na cabeça das pessoas, quem representava perigo ou risco era eliminado no mesmo instante. Eles sabiam que se um dia o Império quisesse lhes perseguir, não seria difícil encontrar com tantas mentes vulneráveis.
Tanto é que o termo "Traidores do Império" não demorou a ser conhecido por eles. Bastou um grupo de Soberanos visitar o litoral afirmando que havia risco aos Continentais para a informação fosse repassada entre as pessoas até eles notarem em suas mentes.
Um destes grupos foi formado por Gilberto, Heitor e Gustavo. Os três foram um dos primeiros a perceber o poder que poderiam ter fora do Império e não pensaram duas vezes. Após caminhar algumas centenas de quilômetros para dentro do continente europeu, conheceu um dos Falcões, grupo nômade composto por centenas de homens e algumas poucas mulheres.
Com a habilidade de leitura mental, eles perceberam que eles tinham outros inimigos e que não cultuavam a ideia de os Soberanos serem um perigo. Pelo contrário, vendiam a ideia de que era melhor se aliar aos Soberanos. Isso não foi falado no primeiro contato, não precisava. Eles apenas pediram acesso aos líderes do grupo para confirmar o que tinham visto e assim que encontraram o primeiro grupamento Falcão, com número reduzido de pessoas, viram que eram tratados como deuses. Reverenciados, perceberam que as mentes de todos convergiam e então os três passaram a discutir a possibilidade de construir um imenso exército com os vários grupos nômades que existiam no interior do continente.
Para variar, em meio às conversas e leituras de mente, perceberam que os Falcões tinham um grande inimigo: os Astros e seu líder Orlando. Perceberam que eles tinham cometido todo o tipo de atrocidade e que eles eram anti-Soberanos. O trio não pensou duas vezes e afirmou que tinham sido enviados pelos deuses para que transformassem os Falcões no maior grupo da Terra. Algo que soou muitíssimo bem aos ouvidos do grupo, que passaram a criar um sentimento religioso em torno do trio.
- Há anos tentamos surpreender os Astros. Nunca conseguimos. Eles estão em número muito menor e tem tomado cuidado para não serem flagrados. Mas se vocês indicarem onde eles estão e consumarmos nossa vingança, seremos eternamente gratos e obedientes à vocês! - disse um dos líderes Falcão.
Em poucos dias, o trio de Soberanos encontrou vestígios dos Astros, analisou seu principal ponto de encontro no Morro do Triunfo antes de eles entrarem e foram para dentro. Perceberam que a geografia local continha um lago puro e era cercado por rochas e encostas íngremes. Resolveram armar tocaia e aguardar.
Como o esperado, os Astros chegaram e se estabeleceram. Com fome, o grupo não tinha noção de quanto tempo ficaria assim até que Orlando adentrou o acampamento para verificar se havia algum risco e deu de cara que Gilberto, que estava camuflado junto à um pequeno bosque.
- Oi, Orlando!
- Quem é? Apareça!
- Calma, estamos aqui para ajudar!
- Ajudar? Quem são vocês! Eu vou chamar os meus...
- Eu sei que está com fome e que seu grupo está sedento. Que tal um acordo!
Enquanto Orlando pensava e compartilhava esse pensamento com Gilberto, ainda não revelado, os Soberanos aproveitavam para analisar mais sobre o que ele pensava. O sonho de Orlando era ter Kiara como esposa, mas não para uma relação convencional. Eles se impressionaram em como a ideia de tê-la para abusar era maior do qualquer outra coisa. Mas perceberam também que ele não era confiável, tinha cometido várias atrocidades no passado e pensava em aceitar o acordo para tirar algum tipo de vantagem. Antes que ele falasse, Gilberto prosseguiu:
- Estamos falando em alimento, aumentar sua moral, torná-lo comandante de outros grupos, eliminar os Falcões e, de quebra, colocar Kiara aos seus pés!
- Ei, como sabem disso? Como eu sei que ganharia isso?
Com a mente confusa, mas demonstrando não querer mais matar a ameaça, Orlando baixou a arma e viu Gilberto aparecer.
- Veja, eu sou um Soberano! E estou no continente para montar um exército tão numeroso que faria qualquer Império temer nosso poder!
- Você é um...
- Traidor do Império, assim como você já traiu a confiança dos seus. Estamos no mesmo barco, somos parecidos. Mas eu posso fazer mais coisas que você. - disse Gilberto completando o que Orlando iria falar.
Orlando seguia sem falar nada, mas pensando mil e uma coisas. Gilberto estava lá, em sua mente, percebendo o que seria necessário para convencê-lo e, se fosse o caso, enganá-lo.
- Já contatei os Falcões e eles odeiam vocês. Mas são mais numerosos, tem mais armas e hoje eles os perseguem. Estão dispostos a negociar.
- Negociar? Com a gente? - falou Orlando interrompendo dando a entender que era papo furado, mas sua mente queria saber mais e demonstrava disposição para mais, inclusive traição.
- Você já dominou regiões e outros grupos. Já se fartou de ser caçador, mas hoje é caça e sabe disso. Sabe que um dia irão te encontrar e você não quer isso. Eu não quero isso. Eu sinto o seu desejo de dominação de povos e posso ser seu conselheiro, eu não sei nada dos continentes. Teria um Soberano com táticas avançadas e aprendidas no Império. E se você puder nos ajudar, podemos lhe sugerir aos Falcões.
- Mas eles são meus maiores inimigos. Como isso seria possível? A proposta é muito interessante, mas não sou bobo. - falou indicando que iria mirar de novo quando Heitor e Gustavo apareceram já mirando nele lhe surpreendendo.
- Mas você já está sendo bobo em não acreditar na gente. Vamos pensar um pouco. O que nos impede de te eliminar aqui agora e pegar seu grupo de surpresa? Sabemos que não possuem armamento para perfurar nossa armadura e que nem possuem munição suficiente para mais de três minutos de troca de tiro. Se você não tivesse nenhum valor, pra quê iríamos estar gastando tempo.
Orlando recuou e pensou diferente. Imaginou que de fato aquilo não seria ao acaso.
- Mas e como eu vou chefiar os Falcões. Tem alguns de seus membros que me odeiam.
- Simples. Primeiro você levará alimento para seu grupo hoje. Amanhã volte aqui cedo para que a gente possa render toda sua equipe. Levaremos eles para os Falcões e avisaremos que apenas os entregaremos se te colocarem no poder. Eles lhes perseguem, mas a verdade é que querem um líder nato. Olha a quantidade de tempo que eles lhes procuram e não acham. Estamos apenas três dias atrás de vocês e já achamos. Se você fosse o líder, jamais perderia tanto tempo.
- E Kiara, e o resto?
- Antes de entregarmos seu grupo, você "foge" com ela. Vamos "vacilar" e enquanto negociamos os Astros capturados com os Falcões afirmando que faz parte de um acordo para lhe colocar no poder, você ficará sozinho com ela. Sabemos que é capaz de convencê-la a ser sua mulher numa oportunidade dessas. Quando chegar aos Falcões, sua cadeira estará livre para dominá-los e Kiara estará na sua coleirinha. Você será fiel à nós e nós à você.
Ao terminar de dizer tudo aquilo, Orlando esboçou um sorriso. Pela primeira vez não encontrou perigo e pensou em eliminar os três Soberanos se realmente a possibilidade de dominar os Falcões fosse possível. Gilberto e seus dois amigos sabiam do risco, seguiam lendo sua mente e também perceberam que não era possível confiar em Orlando nem mesmo quando "vacilassem" e ele fugisse com Kiara. Nesse momento eles notaram que Orlando simplesmente encerraria seu acordo ali fugindo com Kiara para torná-la em sua escrava sexual para descarregar todas as suas taras e fantasias mais animalescas. Mas o acordo seria plenamente possível até a manhã do dia seguinte.
- E o alimen...
Antes de terminar de dizer, Heitor jogou em sua direção um feixe de aves recém-caçadas. O suficiente para uma boa alimentação do grupo naquela noite. Ele então esticou a mão em sinal de concordância e ao apertar a mão de Gilberto falou:
- Fechado!
Pegou as aves e se afastou. Os três Soberanos retornaram à mata. Não precisavam discutir detalhes. Eles sabiam que Orlando voltaria ali, porque também entendiam que o objetivo dele nem era poder, mas se saciar com o corpo da jovem Kiara.
