A Revelação
A chuva tamborilava sobre o teto metálico da estufa, enquanto Elias organizava algumas ferramentas.
Fazia quase um ano desde que encontrara Rhaak naquele planeta.Um ano desde que deixaram de ser inimigos. Um ano desde que a base abandonada se tornara seu lar.
Nos últimos dias, porém, algo parecia diferente. Rhaak passava longos períodos em silêncio. Estava mais cansado. Comia menos. Às vezes permanecia sentado próximo às plantas, observando-as sem dizer uma palavra.
Naquela noite, Elias finalmente perguntou:
— O que está acontecendo? - Rhaak demorou a responder. Os olhos dourados permaneceram fixos na chuva.
— Existe algo que eu nunca expliquei sobre meu povo. - Elias sentiu um aperto no peito, ao ouvi-lo.
— Algo ruim?
— Não. Apenas raro. - Rhaak respirou fundo e colocou a mão sobre o próprio abdômen.
— Os Drax podem gerar descendentes. - Elias piscou.
— Espera… você está dizendo…
— Sim.
O silêncio pareceu durar uma eternidade. Elias tentou organizar os pensamentos.
Guerra interestelar.
Naves espaciais.
Planetas alienígenas.
Tudo isso parecia mais fácil de compreender do que aquela revelação.
— Você… vai ter um filho?
Rhaak assentiu lentamente. Pela primeira vez desde que se conheceram, parecia nervoso.
— Entre meu povo, isso acontece poucas vezes durante a vida. - Elias sentou-se ao seu lado. A surpresa ainda estava ali. Ele tinha sido passivo na relação sexual. Como poderia o parceiro alienígena estar grávido? Questionou o parceiro sobre isso e ouviu a explicação:
— Entre nosso povo esse fato não é apenas biológico como entre os terráqueos. O nosso cérebro, ao receber a energia de uma emoção absolutamente verdadeira, libera uma reação química que faz com desenvolvamos um novo ser dentro da gente. Basta que a emoção seja verdadeira. Lógico que existem meios de se barrar essa emoção através de procedimentos. Assim como vocês fazem com pílulas e outros mecanismos contraceptivos.
Outra emoção começava a surgir. Elias ficou emocionado ao perceber que, naquele planeta dos Drax, os seres eram gerados a partir de uma emoção verdadeira e não apenas de um ato sexual espontâneo. Ficou muito tocado ao saber que seu afeto tinha atingido o parceiro de maneira verdadeira.
— Então haverá uma criança correndo por esta base um dia? – Perguntou. Rhaak soltou um som parecido com uma risada.
— Provavelmente destruindo tudo. - Elias riu também.
O peso da notícia começou a se transformar em algo diferente.Esperança, depois de tanta guerra. Tanta morte. Tanta solidão.
A ideia de uma nova vida parecia quase impossível.
— Você está feliz? — Perguntou Elias. - Rhaak voltou a olhar para ele.
— Estou.
— Eu também. – Completou Elias emocionado.
Por alguns instantes, ficaram observando a chuva cair além dos vidros da estufa. Lá fora, Kharon continuava sendo um mundo hostil, mas dentro daquela velha base abandonada havia algo novo. Não apenas amizade. Não apenas amor. Havia futuro.
Pela primeira vez, ambos acreditaram que talvez sobrevivessem tempo suficiente para vê-lo chegar.
Naquele momento se entregaram a um abraço quente e afetuoso, que logo se transformou numa relação sexual intensa e forte, com ambos fodendo um ao outro, como se estivessem comemorando uma nova era, e realmente estavam.
Contato...
A transmissão havia sido enviada havia dezessete dias. Todas as manhãs, Elias verificava os painéis da sala de comunicações. Todas as manhãs, encontrava apenas estática. Até que, pouco antes do amanhecer, um som interrompeu o silêncio da base.
Um bip curto. Depois outro. A tela acendeu pela primeira vez em mais de dois anos.
SINAL RECEBIDO
Elias congelou e chamou o parceiro:
— Rhaak… - O Drax entrou na sala, carregando o filho adormecido nos braços.
A mensagem continuou surgindo, entrecortada por interferências:
— “…esta é a estação avançada Argos da Federação Terrestre… identificamos uma transmissão de emergência… identifique-se…”
Elias demorou alguns segundos para responder. Sua voz parecia esquecida.
— Aqui é o capitão Elias Torres… Força Expedicionária Terrestre… código de identificação sete-dois-alfa…
Silêncio. Depois, uma voz quase incrédula.
— Capitão Torres… o senhor foi declarado morto há vinte e seis meses. - Elias fechou os olhos. Não sabia se ria ou chorava.
— Eu sei. – Respondeu apreensivo. A voz prosseguiu.
— Qual é sua situação? - Elias olhou para Rhaak. Durante meses, imaginara esse momento. Sempre acreditara que responderia imediatamente: “Há um Drax comigo.”
Agora aquelas palavras pareciam perigosas. Ele lembrou das batalhas, dos companheiros mortos, da propaganda, do ódio.
Ele olhou para a criança dormindo tranquilamente nos braços de Rhaak.
— Capitão? - A voz insistiu. Elias respirou fundo:
— Há três sobreviventes nesta base. – Respondeu. Houve uma breve pausa.
— Entendido. Envie a identificação dos outros dois. - Elias encontrou os olhos dourados de Rhaak. Nenhum dos dois disse nada, mas ambos sabiam que aquela resposta mudaria tudo.
— O segundo sobrevivente é um cidadão da espécie Drax. - Do outro lado da transmissão, o silêncio foi absoluto. Tão longo que Elias pensou que o contato tivesse sido perdido. Então veio a resposta:
— Repita a informação.
— Há um Drax vivendo comigo nesta base. Mais alguns segundos:
— Ele é prisioneiro? - Elias balançou lentamente a cabeça:
— Não.
— Está mantendo o senhor sob ameaça? – A voz perguntou.
— Não.
— Então explique. - A voz questionou. Elias sorriu de leve. Como explicar dois anos de sobrevivência, amizade, amor e o nascimento de uma criança em poucas palavras?
Olhou novamente para Rhaak. O Drax aproximou-se e colocou uma das mãos sobre seu ombro. Aquele simples gesto deu-lhe coragem:
— Nós salvamos a vida um do outro, inúmeras vezes. Construímos esta base juntos. Somos uma família. - Do outro lado, ninguém respondeu. Talvez estivessem registrando cada palavra. Talvez apenas tentando compreender. Então veio a pergunta que Elias mais temia:
— Capitão… quem é o terceiro sobrevivente? - Ele sentiu o peso da resposta antes mesmo de pronunciá-la.
— Nosso filho. - A comunicação caiu em silêncio outra vez. Na sala de controle ouviam-se apenas o zumbido dos computadores antigos e a respiração tranquila da criança. Por fim, a voz retornou, agora muito mais baixa:
— Capitão Torres… permaneçam em suas posições. Uma missão de resgate partirá imediatamente.
Quando a transmissão terminou, Elias permaneceu imóvel diante da tela apagada.
— Eles virão. — Disse calmamente. Rhaak assentiu, mas seu olhar estava distante.
— Sim.
— Você está com medo? – Elias perguntou. O Drax observou o filho dormir:
— Não por mim.
— Pelo pequeno? – Elias quis saber.
— Pelo o que o universo decidirá fazer com ele. - Elias aproximou-see segurou a mão de Rhaak.
— Então enfrentaremos isso juntos. Como fizemos desde o primeiro dia. - Lá fora, o sol de Kharon surgia atrás das montanhas.
Pela primeira vez, desde a queda naquele planeta, o futuro voltava a se aproximar e ele trazia consigo esperança e incertezas na mesma medida.
O Resgate
Três dias depois, os sensores da base detectaram uma assinatura de dobra espacial. Uma nave. Depois outra. - Elias observava a tela em silêncio. Não havia dúvidas. Eram naves da Federação. Rhaak permaneceu ao lado dele, segurando o filho nos braços:
— Ainda podemos partir. — Disse o Drax.
— Para onde? – Perguntou Elias. Rhaak não respondeu. Não havia outro lugar. A antiga base era o único lar que conheciam havia mais de dois anos.
As naves pousaram a quase um quilômetro dali. Pelo monitor externo Elias viu um grupo de soldados desembarcar em formação. Trajes blindados, rifles apontados e um veículo médico logo atrás. Era um protocolo de resgate, mas também de combate.
— Fique aqui. — Pediu Elias. Rhaak balançou a cabeçanegativamente:
— Não.
— Eles podem atirar antes de fazer perguntas.
— E, se eu me esconder, acreditarão que sou uma ameaça. – Ponderou o Drax. Elias sabia que ele tinha razão. Os dois caminharam juntos até a plataforma de pouso da base. Quando as portas se abriram, o comandante da missão deu alguns passos à frente.
— Capitão Elias Torres… - Elias fez continência por instinto. O comandante retribuiu.
— É uma honra encontrá-lo vivo. - Seu olhar, porém, desviou imediatamente para Rhaak. Os soldados ergueram as armas.
— Baixar armas! — Ordenou Elias com firmeza. Ninguém obedeceu. O comandante manteve os olhos fixos no Drax.
— Capitão, afaste-se do alienígena.
— Não. – Elias foi firme na resposta.
— Essa é uma ordem. - Elias permaneceu imóvel.
— Com todo o respeito, senhor… não. - O silêncio tornou-se pesado. Os soldados trocaram olhares, sem saber a quem obedecer.Foi então que um choro suave rompeu a tensão. Todos olharam ao mesmo tempo. A criança despertara. Rhaak a embalou com delicadeza, tentando acalmá-la. O comandante franziu a testa:
— Há… uma criança? - Elias respirou fundo. Sabia que aquele momento chegaria, mas ainda parecia impossível.
— Sim.
— Onde ela está? - Sem dizer uma palavra, Rhaak deu um passo à frente. Muito lentamente, afastou parte do tecido que protegia o bebê. O pequeno abriu os olhos. Olhos castanhos, como os de Elias.Ao redor das pupilas, um fino anel dourado brilhava discretamente, herdado de Rhaak. Nenhum soldado disse uma palavra. Nenhum.
O comandante permaneceu olhando para a criança durante vários segundos. A imagem parecia contrariar tudo o que aprendera durante a carreira militar. A guerra ensinara que humanos e Draxeram inimigos irreconciliáveis. Aquela criança dizia o contrário:
— Como… isso é possível? — Perguntou, quase num sussurro. Elias respondeu com calma.
— Faz dois anos que tento entender muitas coisas. Aprendi que sabíamos muito menos sobre eles do que imaginávamos.
O comandante aproximou-se lentamente. Pela primeira vez abaixou a arma. Observou o bebê dormir novamente, completamente alheio ao medo dos adultos.
— Ele não escolheu nascer em uma guerra. - Elias sorriu. “Nem deveria crescer em uma.” – Completou.
O comandante ficou em silêncio por um longo momento, depois levou a mão ao comunicador:
— Controle da missão… suspendam o protocolo de contenção. - Os soldados se entreolharam, confusos:
— Senhor?
— Guardem as armas. Hoje não vi um inimigo, vi uma família.
Enquanto os fuzis eram abaixados, Elias sentiu um peso enorme deixar seus ombros. Era apenas o primeiro passo. Haveria interrogatórios, desconfiança e debates políticos.
Pela primeira vez, alguém da Federação havia olhado para Rhaak e para a criança sem enxergar apenas uma ameaça.
E isso fazia Elias acreditar que talvez o futuro ainda pudesse ser diferente daquele que a guerra havia prometido.
Epílogo
Trinta e dois anos haviam se passado desde o dia em que duas naves caíram sobre Kharon.
A guerra entre humanos e Drax terminara fazia quase vinte anos.
Os historiadores apontavam tratados, alianças comerciais e mudanças políticas como as causas da paz.
Elias sorria sempre que lia aquilo. Sabia que a verdade era muito mais simples. A paz começara muito antes. Numa fogueira. Com duas pessoas famintas dividindo o último pedaço de alimento que possuíam.
A velha base ainda existia. O tempo cobrara seu preço. Parte do telhado desabara, os corredores estavam cobertos por trepadeiras.Os painéis eletrônicos haviam se apagado havia décadas, mas as estufas permaneciam vivas.
As árvores plantadas por Elias e Rhaak continuavam produzindo frutos. Era como se o próprio planeta tivesse decidido preservar aquele lugar.
Elias caminhava lentamente entre os canteiros. Os cabelos, antes escuros, estavam completamente brancos. A idade tornara seus passos mais lentos, mas não diminuíra o brilho de seus olhos.
Ouviu passos atrás de si. Não precisou olhar. Reconheceria aquele caminhar em qualquer lugar do universo.
Rhaak aproximou-se e segurou sua mão. As escamas ao redor de seus olhos também haviam perdido a cor com o passar dos anos.
— Ainda sente falta deste lugar? — Perguntou Rhaak.
Elias observou a antiga sala onde aprenderam as primeiras palavras um do outro. A oficina onde consertaram os sistemas da base. A enfermaria onde choraram de alegria ao ouvir o primeiro choro do filho. Sorriu:
— Nunca deixei de sentir. Nem quero deixar.
Ao longe, gargalhadas ecoaram pela estufa. Uma criança corria entre as árvores. Depois outra, e mais outra. Humanas, Drax ealgumas com traços das duas espécies.
Brincavam juntas sem perceber que, muitos anos antes, aquilo teria sido considerado impossível.
Atrás delas vinha um homem alto, de olhos castanhos cercados por um fino brilho dourado. Era o filho deles. Já adulto. Parou diante dos pais:
— Achei vocês. Como sempre. - Elias abriu os braços. O filho o abraçou com força, depois fez o mesmo com Rhaak. Nenhum dos três disse palavra alguma. Não era necessário.
Naquela tarde, representantes dos dois governos chegariam para inaugurar um memorial dedicado ao fim da guerra.
Os jornais chamavam aquele lugar de Base da Reconciliação.
Os visitantes acreditavam que ali haviam sido assinados os primeiros acordos de paz. Estavam enganados. A paz nunca começara em uma mesa de negociações. Começara quando dois soldados deixaram de apontar armas um para o outro. Quando aprenderam a falar a língua um do outro. Quando descobriram que o medo podia dar lugar à confiança e, depois, ao amor.
O sol começou a se esconder atrás das montanhas de Kharon, tingindo o céu de dourado e azul. Rhaak entrelaçou seus dedos aos de Elias, exatamente como fizera tantos anos antes, quando ainda não sabiam se sobreviveriam ao inverno seguinte.
Elias apoiou a cabeça em seu ombro e falou docemente:
— Se alguém tivesse me contado, naquele primeiro dia, que eu terminaria minha vida aqui… ao seu lado… eu teria chamado essa pessoa de louca.
Rhaak riu baixinho:
— Eu também.
Permaneceram observando o horizonte. As crianças continuavam correndo entre as árvores. O vento atravessava as folhas das estufas como fazia desde o primeiro dia.
Kharon ainda era o mesmo planeta, mas eles já não eram os mesmos homens.
O mundo que deveria ter sido o túmulo de dois inimigos transformara-se no berço de uma família.
Às vezes, é exatamente assim que a história pode mudar. Não por causa de exércitos. Nem de governos.
Mas porque duas pessoas tiveram coragem de amar, quando todo o universo lhes ensinara a odiar.
Agradecimento
Este conto é de minha autoria, mas não foi construído sozinho.
Quero deixar aqui meu agradecimento especial ao Tito, que colaborou na construção de algumas cenas e na revisão do texto. Sua participação ajudou a aprimorar momentos importantes da história e contribuiu para que o conto chegasse à forma que apresento agora.





O conto começa como ficção científica de guerra, mas aos poucos muda de gênero sobrevivência → amizade → romance → formação de uma família → reconciliação entre povos. Isso dá uma trajetória emocional muito clara. E existe uma frase que resume muito bem o conto “A guerra havia lhes ensinado a enxergar monstros. A realidade era diferente.”Maravilhoso, nunca havia lido um conto erótico tão bem trabalhado,com uma mensagem tão bacana. nota 1000