Terça, cinco da tarde.
O primeiro ajoelhou pesado. Cheiro de graxa. Uniforme da oficina. Uma chave caiu no chão.
— Abençoai-me, padre, porque pequei.
Rafael conhecia a voz.
Dias antes ele tinha levado o carro da igreja para consertar. Foi de camisa, sem batina. Parecia um freguês qualquer. Quem atendeu no balcão foi um homem de uns trinta anos, mão suja, falando alto. No fosso tinha um ajudante mais novo, pano no ombro. Os dois riam de uma coisa. Rafael viu o olhar que os dois trocaram. Não falou nada. Pagou e foi embora.
Agora o do balcão estava do outro lado da grade. Carlos não lembrava do cliente. O padre lembrava dos dois.
— Quanto tempo da última confissão?
— Uns meses. Vou casar, padre. Minha noiva está grávida. Três meses já.
Rafael ficou quieto.
— Fala.
Carlos baixou a voz.
— Foi no serviço. Depois do almoço. O fosso vazio. O ajudante trancou a porta dos fundos, ajoelhou na minha frente, abriu meu zíper e chupou meu pau. Mão suja de graxa. Chupou até eu gozar. Engoliu. Eu não mandei ele parar.
Rafael sentiu o rosto quente. Era a primeira vez que um homem falava daquele jeito para ele, e ele era o padre.
— Você quis isso?
— Eu deixei. E gostei. É isso. Gostei da boca dele. Do joelho no chão. Do barulho. Minha mulher está em casa com o filho na barriga e eu gozando na boca de um homem no intervalo.
Ele respirou fundo.
— Tenho medo do que eu senti. E ao mesmo tempo fico duro toda vez que ele passa perto. Nunca tinha acontecido isso. Agora eu penso no cu, padre. Penso se um dia eu deixo mais. Isso está me assustando.
— Foi só a boca?
— Foi. Mas eu segurei a cabeça dele e enfiei. Ele deixou. Eu olhei para baixo e vi a cara dele no meu pau, saliva e graxa. Gozei demais.
Rafael apertou as mãos no colo. Debaixo da batina o pau tinha endurecido. Ele tinha vergonha. Tinha vinte e quatro anos e era a primeira paróquia. Ninguém tinha ensinado o que fazer com o próprio corpo quando o outro falava assim.
— Você se arrepende?
Carlos demorou.
— Quero me arrepender. Se ele ajoelhar de novo, eu sei que vou deixar.
Rafael disse a reza do jeito que tinha decorado no interior. A voz saiu um pouco fina. Absolveu. Mandou rezar. Vai em paz.
Carlos pegou a chave, levantou e saiu. Levou o cheiro de oficina embora.
Rafael ficou. Quando a igreja esvaziou, trancou o confessionário, levantou a batina e bateu uma ali mesmo, rápido, pensando na boca do ajudante e na mão suja. Gozou na mão. Limpou no lenço. Depois foi no banheiro lavar a mão e ficou olhando o espelho: cara de menino, batina nova, primeira igreja.
Quinta, meio-dia.
André entrou com poeira no joelho. Cinquenta anos. Viúvo. Dois filhos. A construtora dele estava reformando um pedaço da igreja. Ele tinha vindo ver parede. Parou no confessionário e entrou.
— Pequei, padre. E pequei aqui dentro.
— Como assim?
— No banheiro da igreja. Hoje de manhã. Trancou, tirou o pau para fora e bateu uma.
Rafael engoliu.
— Minha mulher morreu. Eu sei que preciso achar outra. Meus filhos precisam. Mas o que vem na minha cabeça não é mulher. Nunca foi. Eu nunca fiz nada com homem. Só pensei. A vida toda eu engoli isso.
A voz dele era de quem está confessando um roubo.
— Hoje eu entrei no banheiro, abri a calça e bati uma pensando em rabo de homem. No cu. Em abrir com a mão. Em pôr a cara. Gozei no vaso, limpei, lavei a mão e saí. Parecia que eu tinha cometido um crime. E mesmo agora, falando, estou com tesão.
— Isso vem desde quando?
— Desde jovem. Casei, passou. Ela morreu e voltou. Eu olho um homem curvado na obra e meu pau enche. Depois dá nojo. Eu tenho filho em casa.
Não falou o nome dos filhos.
Rafael deu a penitência. A reza. A absolvição. Queria que o homem saísse logo.
André saiu com a trena debaixo do braço.
Rafael foi até o banheiro que ele tinha usado. Não tocou em nada. De noite, no quarto, bateu uma de novo. Mais devagar. Gozou com o pano na boca para não fazer barulho. Tinha vergonha de ser padre e fazer aquilo. Fazia mesmo assim.
No sábado o padre velho do interior ligou.
— E as confissões, filho?
— Normais — mentiu Rafael.
Terça, meio-dia.
Diego entrou quase correndo. Vinte anos. Camisa amassada. Ajoelhou perto da grade.
— Padre, eu peco todo dia.
— Calma. Quanto tempo da última?
— Eu moro com meus pais. A gente vem na missa junto. Meu pai fica cobrando para eu comer mulher e levar para casa. Minha mãe quer neto. Eu tenho vinte anos e nunca transei. Nunca vi mulher nua. Tenho vergonha de falar isso.
Rafael perguntou do jeito que tinha aprendido.
— Já tiveste relação com alguma mulher?
— Não. Quando uma moça fala comigo eu já penso em sexo. Penso nela pelada, nas pernas, no buraco. Aí eu vou no banheiro e bato uma. No dia de folga eu tranco o quarto e fico horas. Escondo a cueca no fundo do cesto.
Ele encostou o joelho na madeira.
— Uma vez um amigo apertou meu pau por cima da calça, brincando. Só apertou. Eu gozei na cueca. Inteiro. Ele riu. Eu fiquei com medo de ter gostado da mão dele.
Rafael sentiu o pau mexer de novo. O moleque tinha quase a idade dele.
— Por que você veio hoje?
Diego olhou o buraco da grade.
— Eu não posso ver um buraco na parede que fico louco. Qualquer fresta. Qualquer ralo. Eu penso em enfiar o pau, o dedo, a língua. E agora eu estou olhando esse buraco aqui. Estou pecando agora.
A voz de Rafael falhou um pouco.
— O que você pensa quando olha?
— Penso em pôr a língua aqui. Penso que do outro lado tem boca. Tem cu. Penso em gozar nesse buraco. Penso no senhor vendo. Eu vim para parar, padre. Estou piorando.
Rafael recuou a cadeira. Falou a reza depressa, tudo de uma vez, eu te absolvo, vai em paz, não peques mais, como quem empurra o outro para a rua.
Diego saiu.
Rafael gozou de pé no corredor, a mão dentro da batina, olhando a madeira. Depois lavou o rosto com água fria.
Quinta, cinco da tarde.
O último falava mais baixo. Camisa de escritório. Vinte e três anos.
— Padre, eu sou gay. Meu pai é viúvo. Quer me ver casado, com filho. Acho que ele desconfia. Ele não muda. Eu também não.
Rafael ainda não sabia que o pai tinha estado ali na quinta passada.
— Eu trabalho no escritório aqui da rua. No fim do dia vou na academia. É lá que eu mais peço.
Esperou.
— Eu cheiro cueca de homem. No vestiário eu pego do cesto, ponho no rosto e respiro. Suor, pau, cu, o pano quente. Já gozei no box com a cueca de outro no nariz. No trabalho também. Colega esquece no banco, eu levo. Já peguei cueca em casa, da família. Uma que não era minha. Cheiro mais grosso. Gozei nela. Quando falta, eu compro pela internet, usada. Chega no correio, eu enterro o nariz e bato uma.
Thiago soltou o ar.
— Meu pai quer neto. Eu quero pano sujo na cara. É isso.
— Você se arrepende?
— De magoar ele, sim. De ser assim, não. Queria. Não dá.
Rafael absolveu. A voz saiu cansada. Thiago fez o sinal da cruz e foi embora.
Rafael pensou no homem da reforma, cinquenta anos, dois filhos, o banheiro. Não perguntou nada. Foi para o quarto e bateu uma pensando no cheiro que só tinha ouvido contar. Gozeu rápido. Rezou depois. A reza não segurou.
Domingo a igreja encheu.
Carlos veio com a noiva. A barriga já aparecia. Ele não olhou para o padre na hora da comunhão. Ainda não tinha juntado a cara do altar com o cliente do carro.
André veio de camisa limpa, os dois filhos do lado. O mais velho era o do escritório. Rafael sentiu a mão tremer no cálice.
Diego veio entre o pai e a mãe. O pai olhava o relógio. O filho olhou uma vez para o confessionário fechado.
Rafael rezou a missa com a voz que tinham ensinado no interior. Debaixo da roupa o corpo lembrava tudo: a graxa, o banheiro, o buraco da grade, o pano no nariz.
Ninguém naquela igreja tinha encostado nele. Mesmo assim ele saía toda noite para o quarto e descarregava com a mão o que os quatro tinham jogado pela fresta.
No fim, na porta, apertou a mão de André.
— Fica com Deus, padre.
Thiago, atrás do pai, só acenou.
Carlos passou com a noiva e foi embora. Diego saiu puxado pela mãe.
Rafael fechou a porta. Na calçada o letreiro continuava lá.
Ele ficou um pouco diante da grade. Depois foi para o quarto e trancou. Desta vez não rezou primeiro.
Delícia?!