Entre mim e eu mesma
Eu tinha respondido
Poderia ter ignorado
Poderia ter encerrado a conversa
Poderia ter dito que era melhor não alimentar aquele tipo de brincadeira
Mas não fiz nenhuma dessas coisas
E, quando o celular ficou em silêncio sobre a mesa, percebi que estava esperando por outra mensagem
Isso me incomodou
Não porque eu estivesse apaixonada por ele
Muito pelo contrário
O que me incomodava era perceber que eu gostava da expectativa
Gostava de saber que alguém estava pensando em mim
Gostava daquele segundo antes de abrir uma mensagem, quando ainda não sabia o que encontraria
E, principalmente, gostava da mulher que eu me tornava quando percebia que alguém estava interessado
Mais segura
Mais atrevida
Mais consciente de si
O vizinho continuou aparecendo
No elevador
No corredor
Nas mensagens
Às vezes, conversávamos por poucos minutos
Às vezes, a conversa durava muito mais do que deveria
Ele tinha começado a fazer perguntas sobre mim
Eu respondia algumas
Outras, deixava no ar
E parecia que quanto menos eu dizia, mais curiosidade ele tinha
O proprietário do apartamento também começou a aparecer com mais frequência
Daniel
Agora, quando vinha resolver alguma coisa no prédio, já não era apenas sobre janela, torneira ou qualquer outro problema
Havia sempre uma conversa
Um comentário
Um sorriso
Uma brincadeira
Nada que pudesse ser apontado como alguma coisa concreta
Mas eu já conhecia aquela sensação
Aquela região onde uma frase podia significar duas coisas
E eu gostava de permanecer ali
Uma tarde, Daniel apareceu para verificar uma infiltração
Abri a porta e encontrei aquele mesmo sorriso que eu havia percebido meses antes
— Você de novo?
— Estou começando a achar que você gosta quando eu apareço
Sorri
— Talvez você esteja se achando importante demais
— Talvez
Ele entrou
A conversa começou sobre a infiltração e terminou falando de viagens, trabalho, filmes e coisas completamente inúteis
Quando ele foi embora, fiquei alguns segundos parada diante da porta
Eu sabia que tinha flertado
Pouco
Mas tinha
E, estranhamente, não foi Daniel quem ficou na minha cabeça
Foi outra pessoa
Aquela pessoa
O rosto que eu ainda não dizia em voz alta
A presença que havia começado como uma imagem passageira e agora parecia ocupar cada vez mais espaço
Eu estava começando a perceber uma coisa curiosa
Quanto mais atenção eu recebia de outros homens, mais forte ficava minha vontade de voltar para aquela fantasia
Como se todo olhar externo alimentasse alguma coisa que existia em um lugar completamente diferente
O vizinho me fazia sorrir
Daniel despertava minha curiosidade
Mas era aquele outro homem que fazia meu corpo mudar de ritmo só de pensar nele
Uma noite, recebi uma mensagem do vizinho
— Você está impossível ultimamente
— Eu?
— Você sabe
— Não faço ideia do que está falando
— Esse é justamente o problema
Fiquei olhando para a tela
Sorri
Pensei em responder alguma coisa provocadora
Antes que pudesse, o celular vibrou novamente
André
— Como está minha esposa misteriosa?
Ri sozinha
— Misteriosa?
— Estou começando a achar que você está se divertindo demais sem mim
— Talvez
Ele demorou alguns segundos
— E ele?
Meu sorriso desapareceu por um instante
Era impressionante como André conseguia tocar exatamente naquele ponto
— Está crescendo
— O quê?
Parei
Depois escrevi:
— A fantasia
A resposta demorou um pouco
— E ele está aparecendo mais?
Fechei os olhos
— Sim
— Muito?
— Mais do que antes
André respondeu:
— Isso me deixa curioso
— Não fica com ciúmes?
— Você já me contou que não está tentando substituir ninguém
— Não estou
— Então não
Fiquei olhando para a tela
Depois apareceu outra mensagem
— Na verdade, quero saber até onde isso vai
Meu coração acelerou
— Você quer mesmo?
— Quero
— Mesmo sabendo que ele é alguém que existe?
— Principalmente por isso
Fiquei em silêncio
Era estranho ter meu marido tão longe e, ainda assim, sentir que ele estava cada vez mais presente naquela parte da minha imaginação
Ele não estava apenas aceitando minha fantasia
Estava participando dela
E, talvez sem perceber, estava fazendo com que ela crescesse
Nos dias seguintes, começou a acontecer uma coisa que eu não esperava
André passou a perguntar
Não de maneira insistente
Às vezes, uma única frase era suficiente
— Ele apareceu hoje?
Ou:
— Você pensou nele?
Ou ainda:
— O que fez você lembrar dele?
Eu respondia
Às vezes, honestamente
Às vezes, provocando
E cada vez que falava sobre aquilo com André, parecia que a imagem ficava mais nítida dentro de mim
Era como se dar palavras à fantasia a tornasse mais real
Mas havia algo ainda mais estranho
Quanto mais eu flertava com o vizinho ou com Daniel, mais eu pensava nele
Uma conversa no elevador
Um sorriso no corredor
Uma brincadeira na porta de casa
Tudo podia terminar da mesma maneira
Eu fechava a porta
Ficava sozinha
E ele aparecia na minha cabeça
Não o vizinho
Não Daniel
Ele
Eu comecei a tremer só de pensar nisso
Não era medo
Era antecipação
Era aquela sensação de estar diante de alguma coisa que ainda não tinha acontecido, mas que parecia inevitável dentro da minha imaginação
E quanto mais eu tentava entender, mais percebia que talvez nunca tivesse sido sobre os outros homens
Eles eram apenas espelhos
Cada olhar me mostrava uma versão diferente de mim
Mas ele
Ele era o centro
A pessoa que minha mente escolhia quando eu queria descobrir o que realmente despertava meu desejo
Uma noite, André me ligou
Conversamos durante quase uma hora
No final, ele ficou em silêncio por alguns segundos
— Posso te perguntar uma coisa?
— Pode
— Se eu estivesse aí agora, você pensaria nele?
Sorri
— Talvez
— Talvez?
— Sim, depende de você
Ele riu
— Para mim está ficando interessante
— Por quê?
— Porque estou começando a imaginar a sua fantasia junto com você
Fiquei quieta
— E isso não te incomoda?
— Não
A voz dele ficou mais baixa
— Na verdade, gosto de saber que existe uma parte sua que eu ainda estou descobrindo
Aquelas palavras ficaram comigo durante o resto da noite
Porque era exatamente aquilo
Eu não estava procurando outro homem
Estava procurando uma versão de mim que ainda não conhecia
E André, em vez de tentar fechar essa porta, parecia cada vez mais interessado em me ver atravessá-la
No dia seguinte, o vizinho mandou mensagem novamente
— Então, topa um café?
Olhei para a tela
Dessa vez, não respondi imediatamente
Pensei em André
Pensei em Daniel
Pensei nele
E percebi que três homens diferentes ocupavam três lugares completamente diferentes dentro da minha cabeça
Um era meu marido
Outro era uma possibilidade real
Outro era uma presença que ainda não tinha atravessado a fronteira entre fantasia e realidade
E, de algum modo, era justamente o terceiro que parecia mais excitante
Porque eu não sabia mais se queria apenas imaginá-lo
Naquela noite, contei a André sobre a mensagem
Ele ficou em silêncio
— E você quer aceitar?
— Não sei
— Então não tenha pressa
— Você não quer que eu aceite?
Ele riu
— Quero que você descubra o que você quer
Fiquei alguns segundos em silêncio
— E se eu descobrir alguma coisa que você não esperava?
A resposta veio tranquila
— Então você me conta
Aquilo me desmontou
Não porque ele estivesse me dando permissão
Mas porque estava me oferecendo confiança
E, pela primeira vez, percebi que talvez o verdadeiro jogo não fosse descobrir até onde eu conseguia ir
Talvez fosse descobrir até onde nós dois conseguíamos ir sem deixar de ser nós
Fechei os olhos
E ele apareceu novamente
Aquele rosto
Aquela presença
Aquela sensação
Dessa vez, porém, havia uma diferença
Eu não tentei afastá-lo
Também não tentei trazê-lo para perto
Apenas deixei que existisse
E, no fundo, eu já sabia:
quanto mais eu flertasse com os homens ao meu redor, mais aquela pessoa cresceria dentro da minha cabeça
O vizinho podia continuar mandando mensagens
Daniel podia continuar aparecendo
André podia continuar perguntando
Mas havia alguém que nenhum dos três conseguia enxergar completamente
Alguém que existia apenas dentro de mim
E que, pouco a pouco, estava deixando de ser apenas uma fantasia
Estava começando a se tornar um desejo
ramone84