A dimensão sexual de Hermes também aparece em tradições mitológicas que o associam à sedução e à geração de descendentes. Entre seus filhos atribuídos pelas diferentes fontes encontram-se figuras como Pã, ligado à natureza selvagem, aos rebanhos e à sexualidade, e Hermafrodito, cuja narrativa se tornou fundamental para a história cultural das representações da ambiguidade sexual. Essas genealogias mostram que Hermes não era apenas um deus da inteligência e da astúcia: participava igualmente das narrativas sobre desejo, reprodução e transformação das identidades. Sua potência, contudo, não deve ser entendida como atributo exclusivo da virilidade física, pois sua personalidade mitológica é marcada também pela mobilidade, pela inventividade e pela capacidade de transgredir fronteiras.
A dimensão fálica de Hermes demonstra que o sagrado grego podia incorporar aspectos corporais da existência sem necessariamente estabelecer a oposição rígida entre espiritualidade e sexualidade que se encontra em algumas tradições religiosas posteriores.
Em síntese, o falo de Hermes simboliza uma potência masculina que não se limita à reprodução: relaciona-se também à proteção, à fecundidade, à vitalidade e à presença divina nos espaços de passagem. Se, na interpretação de Alain Daniélou, o símbolo fálico pode ser compreendido como expressão de uma força criadora sagrada, o caso grego de Hermes oferece um exemplo histórico concreto de como a representação sexual masculina podia adquirir significados religiosos e sociais. A comparação deve, entretanto, respeitar as diferenças entre as tradições gregas e indianas: o simbolismo de Hermes não é idêntico ao do lingam de Shiva, ainda que ambos permitam investigar as relações entre corpo, potência criadora e sacralidade.
