A lâmpada nova ficou esquecida em cima da mesa. O silêncio agora não era de expetativa, mas de uma tensão pesada, daquelas em que cada respiração sobressai.
Ela deu meio passo atrás, não por medo, mas pelo choque de ter a sua previsão desmontada em dois segundos. O olhar dela, que antes me media como quem avalia um rapaz inofensivo, varreu o meu rosto com uma atenção quase desesperada.
— Você... não é muito de falar, pois não? — perguntou ela, a voz ligeiramente falhada, tentando recuperar o controlo da conversa.
— Quem observa muito não precisa de falar tanto — respondi, mantendo a distância mínima, o olhar fixo no dela. — A senhora planeou esta visita há três dias. A lâmpada da sala não funde sozinha na mesma noite em que o carro do seu marido sai.
Um sorriso contido surgiu no canto dos lábios dela. A surpresa inicial deu lugar a um brilho de fascínio. Ela encostou a lateral do corpo, cruzando os braços, a postura defensiva a ceder à curiosidade.
— E mesmo sabendo disso tudo... subiu as escadas — disse ela, desafiando-me. — O que é que o vizinho reservado veio buscar aqui, afinal?
— é por me encarar no todas as manhãs — avancei mais um passo, parando à distância exata para sentir o calor que emanava dela. — A senhora achou que estava a armar uma armadilha para um miúdo ingénuo. Mas a verdade é que o jogo só começou porque eu deixei que a senhora o montasse.
O ar entre nós ficou denso. A ilusão de superioridade pela diferença de idade ruiu por completo. Ela percebeu que não tinha ali uma atração passageira sob o seu domínio, mas sim alguém que lia cada movimento dela com uma precisão cirúrgica.
— Então parece que temos um impasse — sussurrou ela, aproximando o rosto do meu, o desafio renovado na pupila dilatada. — Porque agora que a luz continua apagada... eu não tenho a mínima intenção de o deixar sair deste apartamento tão cedo.
Já sabe, continua.