Sinto falta de nós. Falta de quem éramos, da nossa intimidade, dos nossos momentos. Sinto falta da essência do começo, daquela compreensão que parecia existir naturalmente entre nós. Porque, de alguma maneira, já não somos quem éramos.
Hoje, o que resta são as lembranças, as recordações de tudo aquilo que foi tão nosso.
Onde acabou? Onde nos perdemos? O que aconteceu? O que se quebrou entre nós? E, principalmente, por que se quebrou?
Olho no espelho e continuo lá. A mesma pessoa, a mesma entrega, o mesmo amor. Mas existe um vazio que arromba meu peito e me dilacera. Um vazio que faz minhas noites frias, longas e silenciosas.
É quando a noite chega que as lembranças me encontram. Tão acalentadas, tão queridas e tão amadas por mim. Elas me abraçam com a ternura de tudo o que vivemos, mas, ao mesmo tempo, me devolvem a dor da distância, desse vazio que hoje parece ocupar os espaços onde antes existíamos nós.
Por que nos afastamos? O que houve? Em que momento deixamos de nos encontrar, mesmo quando ainda estamos aqui?
Talvez porque eu ainda guarde dentro de mim a esperança de que, em algum momento, possamos nos reencontrar. Não apenas cruzar caminhos, mas voltar a nos encontrar de verdade. Recuperar aquela compreensão, aquela intimidade, aquela cumplicidade que um dia foram tão nossas.
Talvez eu ainda espere que possamos continuar de onde a distância começou a se fazer presente entre nós.
Mas acho que, aos poucos, estamos nos despedindo um do outro. Fechando portas, construindo barreiras, acrescentando distâncias onde antes existiam proximidade e intimidade.
Talvez o adeus já tenha começado há algum tempo. Talvez só eu ainda não tenha conseguido compreender que chegou o momento de aceitá-lo.
Ainda olho para as portas semifechadas e imagino que, a qualquer momento, elas possam se reabrir. Que possam me levar de volta ao paraíso, àquele lugar onde um dia fomos abrigo um para o outro.
Mas meu coração começa, ainda que a contragosto, a compreender que talvez essas portas se fechem para sempre.
E talvez o mais doloroso não seja vê-las fechadas, mas perceber que ainda existe em mim a vontade de atravessá-las.
Talvez agora seja realmente o momento de deixá-las se fechar. Porque ainda restarão entre nós o respeito, a cumplicidade e o carinho. Ainda restará o amor. Não aquele amor que morreu, mas aquele que se transformou, que encontrou outra maneira de existir.
Você fez com que lembranças que já eram tão lindas se tornassem ainda mais bonitas. Mas também fez meu peito sangrar ao perceber que talvez elas sejam tudo o que nos resta.
E entenda: existem ciclos que precisam ser encerrados, mesmo quando ainda carregamos amor por tudo aquilo que vivemos.
Não quero apagar nossa história, tampouco diminuir a importância de tudo o que fomos. Existem pessoas que deixam marcas que o tempo não apaga, momentos que permanecem guardados e sentimentos que, mesmo transformados, nunca deixam de ter significado.
Talvez fechar essa porta seja apenas reconhecer que já não conseguimos permanecer no mesmo lugar.
E, se for realmente chegada a hora, que eu consiga fazê-lo sem esquecer a beleza do que vivemos.
Porque, apesar de toda a tristeza que hoje me atravessa, houve um tempo em que fomos felizes. E eu jamais gostaria de transformar nossas lembranças em algo menor do que foram.
Algumas despedidas não acontecem porque o amor acabou. Acontecem porque, apesar dele, já não sabemos como continuar sendo nós.
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