Até que, numa segunda-feira, após o jantar, Marcela pediu para conversarmos a sós na sala. Seu semblante estava sério, mas ela manteve o tom natural de sempre:
— Vou me mudar, vou embora de São Paulo.
— Por quê? Vai para onde? Pensei que você era feliz aqui — perguntei, pego de surpresa, sentindo um nó apertar a minha garganta.
— Não sou, nunca fui. Essa cidade consome a gente. Só suportei esse tempo todo por sua causa. Três anos ganhando o dobro do que ganhava e não economizei quase nada. Com exceção de você, não fiz um amigo ou amiga, nem mesmo um amante confiável eu tenho. Já deu, hora de partir.
— Para, então fica comigo! Eu compro uma casa maior, vamos morar nós três juntos, eu cuido de você.
— Oh, amorzinho, sabia que você diria algo assim. Não funciona para mim, eu iria te fazer sofrer e a culpa acabaria comigo. Eu vou embora mesmo, mas preciso de um favor, um dos grandes.
— O que é? — falei, desviando o olhar e me controlando para não chorar.
— Quero ter um filho seu.
— O quê? Pirou de vez. Vai me abandonar e quer ter um filho comigo? Que lógica é essa? — Nada do que Marcela falava ou fazia me surpreendia mais, porém, desta vez, eu estava confuso.
Então, com a calma de sempre, Marcela contou-me do seu passado antes de me conhecer. De suas traições, um casamento fracassado, um aborto, de ter aprontado tanto na sua cidade natal que teve que vir para a capital. Explicou como nesses três anos aprendeu a se proteger, a separar a vida pessoal da profissional, a identificar quem poderia lhe prejudicar e, principalmente, em quem podia investir seus sentimentos.
— Contudo, eu continuo sendo uma vadia insaciável louca por paus, não consigo me satisfazer com um homem só — esse era o lado de Marcela que eu aceitava, mas nunca gostei. — Agora me sinto confiante o suficiente para ter um filho e ser uma boa mãe. Você é o melhor homem que eu já conheci e eu quero poder, no futuro, contar para meu filho o quão incrível seu pai é. Por isso te escolhi. Mesmo à distância, você jamais nos abandonaria ou tentaria tomar meu filho de mim.
— E eu, como fico?
— Você tem a Vera, não precisa de mais ninguém.
— E a Vera?
— Ela aceitará qualquer decisão sua.
Como de outras vezes, acabei por concordar com os desejos de Marcela.