Ela pediu um vinho. Ele sorriu, como se já soubesse.
A conversa começou leve, mas havia pausas carregadas — aquelas em que o silêncio diz mais do que as palavras. Clara percebeu o jeito como ele se inclinava ao ouvi-la, como se cada frase fosse um segredo. Ele notou o modo como ela tocava o próprio pulso ao falar, distraída, oferecendo a pele à imaginação.
Quando a chuva engrossou, ele ofereceu carona. O carro cheirava a couro e promessa. A cidade passava borrada pela janela enquanto a música preenchia o espaço entre eles. Um semáforo vermelho. Um olhar. O tempo suspenso. O toque veio primeiro nos dedos, breve, elétrico, como um ensaio. Depois, mais seguro.
No apartamento dele, a luz era baixa. Risos nervosos cederam lugar a respirações próximas. Ele tirou o casaco dela com cuidado, como quem desembrulha algo precioso. Clara sentiu o mundo encolher até caber naquele instante — na proximidade, no calor, no desejo que crescia sem pressa.
Quando os lábios se encontraram, foi menos um choque e mais um reconhecimento. O resto ficou entre sombras e suspiros, guardado pela noite, como certas histórias que não precisam ser contadas para serem lembradas.