Eles sabiam que não deviam estar ali.
O quarto do hotel ficava no fim do corredor, longe do elevador, como se tivesse sido escolhido de propósito para esconder decisões ruins. Ela entrou primeiro. Ele esperou alguns segundos — o tempo exato de parecer coincidência, não escolha.
Quando a porta se fechou, o silêncio pesou mais do que qualquer som.
Ela não virou o rosto de imediato. Tirou o casaco devagar, como quem testa um limite invisível. Ele sentiu o corpo reagir antes da cabeça. Sempre assim com ela. Sempre perigoso.
— A gente não devia — ela disse, sem convicção, olhando o próprio reflexo no espelho.
Ele não respondeu. Aproximou-se apenas o suficiente para que o cheiro dela — familiar demais — invadisse tudo. Era isso que os destruía: a intimidade antiga, o histórico compartilhado, a sensação de que aquele desejo não tinha nascido ontem. Ele só tinha sido reprimido.
Quando tocou nela, foi com a cautela de quem sabe que um gesto errado pode incendiar tudo. A mão não explorou; reivindicou. Ela fechou os olhos como quem aceita uma sentença.
O beijo não foi urgente. Foi profundo. Demorado. Um beijo de quem já se imaginou ali centenas de vezes, mas nunca teve coragem. O tipo de beijo que carrega culpa e fome na mesma medida.
Ela puxou a camisa dele com força, como se estivesse cansada de resistir sozinha. Ele percebeu o tremor — não era medo. Era obsessão finalmente se assumindo.
O tempo perdeu forma. O mundo lá fora deixou de existir. Havia apenas o risco — de serem vistos, descobertos, de mudarem tudo depois daquela noite — e isso tornava cada toque mais intenso, cada respiração mais curta.
Quando ele encostou a testa na dela, os dois ofegantes, ficou claro: aquilo não era só desejo. Era necessidade acumulada. Era o erro que eles fariam de novo, mesmo jurando que seria a última vez.
— Isso vai nos complicar — ela murmurou.
Ele sorriu de canto, a boca ainda quente demais para mentir.
— Já complicou.
E quando as luzes da cidade atravessaram a cortina fina, iluminando corpos que não queriam mais se esconder, os dois souberam: o segredo não era o encontro.
O segredo era que nenhum deles queria parar.