Isso fazia parte do jogo.
Sentado na poltrona, mãos apoiadas nos braços, ele sentia o próprio coração bater alto demais para alguém que não podia se mover. Ela não precisou olhar para ele — sabia exatamente onde ele estava. Sempre soube.
— Fica. — disse baixo. Não era um pedido.
Ela se levantou devagar, como quem estica o tempo de propósito. Cada passo era uma decisão calculada. Não havia pressa; havia controle. Ele sentiu o corpo reagir antes da mente, e odiou o quanto isso o expôs.
Quando a porta se abriu, não foi o som que o atingiu — foi a certeza.
Ela escolheu.
E ele… consentiu.
Ela passou por ele, os dedos roçando de leve no encosto da poltrona, perto demais. Um toque que não era carinho nem desprezo — era aviso. Ela queria que ele soubesse: tudo aquilo também era para ele.
Do outro lado do quarto, vozes baixas. Risos contidos. A luz diminuída.
Ela nunca olhou para trás.
E isso era o pior — e o melhor.
Cada pausa, cada silêncio, cada suspiro que ele imaginava era um teste.
Ela sabia exatamente o que ele estava sentindo. Sabia porque era ela quem permitia.
Em certo momento, ela voltou. Aproximou-se dele, inclinou-se ao ouvido:
— Olha pra mim.
Ele obedeceu.
O olhar dela não pedia aprovação. Confirmava posse.
Não era humilhação gratuita — era entrega consciente. Ela não o diminuía; ela o colocava no lugar que ele aceitou ocupar.
— Você fica. Você observa. E você sente.
— Isso é nosso.
Quando ela se afastou outra vez, ele entendeu algo essencial:
não era sobre o outro.
Era sobre ela.
E sobre o poder que ela tinha de acordar nele tudo o que ele tentava esconder.
E ali, imóvel, pulsando por dentro, ele soube:
o desejo mais profundo não era tocar —
era pertencer àquela escolha.