Não havia pressa no passo, nem doçura no olhar. Havia certeza. A porta fechou atrás dela com um clique seco, definitivo. Ele sentiu o som como se fosse um selo: agora é assim.
Ela parou diante dele. Em pé. Dominante sem esforço.
— Você sabe por que ainda está aí? — perguntou, calma demais.
Ele abriu a boca, mas nenhuma resposta era necessária. Nem desejada.
Ela inclinou a cabeça, observando-o como se mede algo que já lhe pertence.
— Porque eu deixo.
O silêncio que veio depois foi calculado. Ela sabia usar o tempo como arma. Cada segundo fazia o corpo dele trair o que a mente tentava controlar.
Ela se afastou alguns passos, propositalmente, e disse sem olhar:
— Não é sobre dor. É sobre consciência.
— Você está acordado agora.
Ele percebeu então: ela não queria quebrá-lo.
Queria ensiná-lo onde ele ficava.
Ela voltou a se aproximar, devagar, até parar à frente dele. Não tocou. Não precisava. A proximidade já era invasão suficiente.
— Você não escolhe quando sente.
— Não escolhe quando deseja.
— E não escolhe quando eu volto.
Ela sorriu — não de prazer, mas de domínio puro.
— O mais cruel não é o que eu faço.
— É o que eu te faço imaginar… sabendo que não é sua vez.
Ela se abaixou levemente, ficando na altura dos olhos dele, e finalmente tocou — um dedo sob o queixo, levantando o rosto.
— Olha pra mim quando estiver à beira.
— Quero ver você lembrar quem colocou você aí.
E então se afastou novamente, deixando-o exatamente como estava:
sentado, exposto, consciente, pertencente à escolha dela.
A porta se abriu mais uma vez.
Mas agora ele sabia:
não era exclusão.
Era castigo consentido.
E o castigo não estava no que acontecia além daquela porta —
mas no fato de que ele jamais esqueceria
que aquele lugar…
foi dado a ele por ela.