Malandro é Malandro... Mané é Mané...

CONTINUAÇÃO DO CONTO "É SÓ O COMEÇO"


O cheiro de cimento velho e poeira acumulada era uma merda, mas para mim, naquela manhã de terça-feira, tinha o aroma doce de dinheiro limpo. Ou quase limpo.
Alugamos um galpão que ficava numa rua paralela do Itaim Bibi, espremido entre dois prédios espelhados que abrigavam escritórios de engravatados que ganhavam em um mês o que eu levei quarenta anos para não juntar. O espaço era cru. Duzentos metros quadrados de puro nada, chão de concreto riscado, vigas de ferro aparentes e janelas altas que deixavam a luz do sol entrar rasgando a penumbra, revelando a poeira dançando no ar. Era um buraco caro pra caralho, pago com uma transferência gorda da conta que a maldita da Tia Zulmira me deixou.
Entrei chutando uma lata de tinta vazia, equilibrando dois copos de café expresso e um saco de papel com pão na chapa de uma padaria gourmet da esquina que tinha me cobrado o preço de um rim.
— Lar doce lar do pecado, loira! — anunciei, a voz ecoando no espaço vazio.
Andressa já estava lá. E foi aí que o meu primeiro choque de realidade bateu, seco e direto na boca do estômago.
Eu esperava encontrar a mesma mulher da noite anterior. A fêmea no cio, a deusa suada que tinha cavalgado em mim até eu esquecer o meu próprio nome, que tinha me feito gozar com a força de um adolescente desesperado. Eu imaginava que ela estaria com alguma roupa provocante, talvez aquele vestido de malha vagabunda ou uma calça tão apertada que me faria querer foder com ela ali mesmo, encostado na parede de tijolo aparente.
Mas não. A mulher parada no meio do galpão, com uma prancheta na mão e o cabelo loiro preso num rabo de cavalo esticado, não era a minha parceira de foda. Ela usava uma calça de alfaiataria preta, larga, e uma camisa social branca de mangas dobradas. Sem decote. Sem cheiro de óleo de amêndoas. O perfume agora era neutro, quase clínico. Ela parecia uma executiva prestes a demitir metade de uma empresa.
— Tá atrasado, Eduardo — ela disse, sem nem levantar os olhos da prancheta. A voz fria, cortante.
Dei um sorriso de lado, o bom e velho sorriso de malandro que sempre me abriu as portas e as pernas pela vida afora. Caminhei até ela, deixei os cafés em cima de um carretel de madeira abandonado e fui com as mãos direto na cintura dela.
— Pra você, eu tenho todo o tempo do mundo, gata — sussurrei, inclinando o rosto para beijar aquele pescoço que eu tinha deixado marcado de vermelho poucas horas antes.
O que aconteceu em seguida foi tão rápido que meu cérebro de quarentão demorou uns três segundos para processar.
Andressa não recuou. Ela simplesmente girou o pulso, agarrou meu antebraço direito com a mão esquerda e, com o polegar e o indicador da mão direita, pressionou um ponto exato no meu ombro, bem na junção do trapézio com o pescoço. Não foi um soco. Não foi um tapa. Foi um aperto cirúrgico.
Uma dor aguda, elétrica, um choque de mil volts rasgou do meu pescoço até a ponta dos dedos. Minhas pernas fraquejaram, o ar sumiu do pulmão e eu soltei um grunhido ridículo, recuando dois passos enquanto segurava meu próprio braço, que agora parecia pesar uns cinquenta quilos e formigava como se tivesse sido esmagado por uma porta.
— Mas que porra é essa, Andressa?! — rosnei, tentando recuperar a dignidade e a respiração, massageando o músculo que latejava.
Ela me encarou. O olhar era um poço de gelo. Nenhuma malícia, nenhuma brincadeira.
— A primeira lição, Eduardo. — Ela cruzou os braços, a postura impecável. — O toque que cura é exatamente o mesmo toque que quebra. Depende só da pressão e da intenção. Ontem à noite, na minha cama, eu era sua mulher. Aqui dentro, neste galpão, eu sou a sua professora. E você é o meu aluno. Se você tentar me agarrar de novo enquanto eu estiver trabalhando, eu te deixo manco de uma perna. Fui clara?
Fiquei encarando a loira, o sangue fervendo de raiva e, que Deus me perdoe, de um tesão doentio. A autoridade dela era um soco no meu ego. Eu, que sempre fui o cara que desenrolava tudo na lábia, que achava que tinha o controle da situação só porque estava bancando a porra toda com o dinheiro da velha Zulmira, tinha acabado de ser adestrado como um cachorro de rua.
— Clara como a porra do dia — resmunguei, pegando meu café, o braço ainda meio dormente. — Vai com calma, caralho. Não precisava arrancar meu braço.
— Precisava. Você é teimoso. — Ela apontou para o centro do galpão, onde não havia nada além de luz e poeira. — Tira a camisa.
Engasguei com o café.
— Quê? Vai me bater de novo e quer pele nua pra não estragar o tecido, é isso?
— Tira a porra da camisa, Eduardo. O salão vai ser de luxo, mas os clientes são de carne. E você não sabe nada sobre a carne. Tira. Agora.
Coloquei o copo no carretel e tirei o paletó. Desabotoei a camisa lentamente, tentando manter algum resquício de malandragem. Joguei a roupa num canto. Meu corpo não era o de um modelo de academia. Eu tinha as cicatrizes da vida, os ombros largos de quem carregou muita caixa de som e equipamento na época em que eu era roadie de banda de rock, suando a camisa nas madrugadas frias do Sul antes de vir tentar a sorte em São Paulo. Tinha um pouco de barriga, claro, a cerveja cobra o seu preço, mas eu ainda dava um bom caldo.
Andressa caminhou até mim. Ela tirou do bolso da calça um canetão preto de quadro branco. Grosso. Tirou a tampa com os dentes e se aproximou.
— Fecha os olhos e cala a boca — ela ordenou.
Eu obedeci. O que se seguiu foi uma tortura psicológica que nenhuma sessão de sadomasoquismo barato poderia imitar.
Senti a ponta fria e úmida da caneta tocar meu peitoral esquerdo. Ela começou a traçar linhas na minha pele. Não eram desenhos aleatórios. Ela contornava os meus músculos, seguindo a anatomia exata. O toque dela, através da caneta, era firme. Eu sentia o calor da respiração dela batendo no meu queixo.
— O que você acha que esses caras ricos procuram quando pagam duas, três mil pratas por uma massagem exclusiva? — a voz dela era um sussurro didático, enquanto a caneta descia pelo meu abdômen.
— Uma punheta com óleo caro? — respondi, os dentes trincados, tentando controlar a ereção que já começava a dar sinal de vida dentro da minha calça. A proximidade dela era foda. O cheiro natural do suor dela começando a aparecer por baixo daquela camisa social.
A caneta parou. Ela deu um tapa seco no meu peito nu. Não doeu, mas estalou alto.
— Errado, seu imbecil. — A caneta voltou a riscar, agora subindo pelos meus oblíquos, indo em direção às minhas costas. Ela circulava ao meu redor como um predador avaliando o abate. — Sexo eles compram em qualquer esquina dos Jardins. Qualquer garota de programa de luxo entrega um boquete perfeito. O que eles não conseguem comprar é silêncio mental. Eles procuram alívio.
Ela parou atrás de mim. Senti os dedos da mão esquerda dela tocarem a base da minha nuca, descendo pela minha espinha. A pele arrepiou na mesma hora.
— Um empresário que tá lavando dinheiro não dorme. Um político que tá traindo a mulher com a secretária tem o trapézio tão duro que parece pedra. O corpo grita o que a boca tenta esconder, Eduardo. — A caneta riscou meus ombros, marcando os locais de tensão. — Quando a tensão é de medo, o músculo se contrai de um jeito. Quando é culpa, de outro. Eu quero que você olhe para um filho da puta de terno Armani e saiba exatamente de onde vem a dor dele antes mesmo dele tirar o paletó.
Virei de frente para ela, abrindo os olhos. O peito dela estava a centímetros do meu. Minha respiração já estava pesada.
— Eu sou malandro, Andressa. Eu passei a vida inteira lendo as pessoas. Eu sei quando um cara tá blefando na mesa de bar, eu sei quando um otário tá pronto pra cair num golpe. Eu tenho as manhas da rua. Eu não preciso saber o nome da porra de um tendão pra arrancar dinheiro de bacana.
Os olhos dela faiscaram. A professora perdeu a paciência, e a Andressa selvagem que eu conhecia veio à tona, mas não para o sexo. Para a guerra.
— Malandro de esquina toma tiro, Eduardo! — Ela apontou a caneta bem no meio da minha testa, a voz subindo de tom, ecoando no galpão vazio. — Você acha que a gente vai lidar com o bebum que perdeu o salário no jogo do bicho? Nós vamos enfiar as mãos em desembargadores, em CEOs, em lobistas. Essa gente não cai no teu sorrisinho torto de estelionatário de araque! Se a gente abrir um santuário de prazer e terapia para essa laia, qualquer leitura errada, qualquer comentário fora de hora, e nós acordamos com a boca cheia de formiga num terreno baldio em Guarulhos!
O eco das palavras dela bateu nas paredes de cimento e voltou, entrando na minha cabeça como uma marreta. Ela estava certa. Puta que pariu, como ela estava certa.
Eu tinha o dinheiro da Zulmira. Aquela velha nojenta, com seu cheiro de gardênia e suas mãos secas me tocando na porra daquela casa de praia. O dinheiro dela era manchado de chantagem e segredos imundos. Se eu quisesse transformar a herança da minha ruína na minha fortaleza, eu não podia ser o mesmo "Edu" que vivia de bicos. Eu precisava de classe. Eu precisava ser letal.
Olhei para o meu próprio peito. Eu parecia um açougue. Ela tinha desenhado mapas inteiros no meu tronco, delimitando áreas de estresse, marcando pontos gatilho com pequenos "X" pretos.
O tesão puramente carnal que eu estava sentindo de repente mudou de forma. Deixou de estar concentrado entre as minhas pernas e subiu para a minha cabeça. O salão de massagem não seria apenas uma casa de luxo. Seria um confessionário. Um banco de dados vivo. Quando as mãos de Andressa — e no futuro, as minhas — derretessem os músculos de um figurão, a língua dele iria se soltar. Nós teríamos o controle dos maiores segredos de São Paulo, sussurrados em macas aquecidas, entre gemidos de alívio e orgasmos controlados.
— Você não quer só massagear a carne deles, né, loira? — perguntei, a voz agora calma, grave, o entendimento finalmente claro nos meus olhos. — Você quer massagear o ego, quebrar a barreira e roubar a alma.
Andressa sorriu. Foi um sorriso pequeno, letal, o primeiro sorriso verdadeiro do dia. Ela jogou a caneta no chão, que fez um barulho oco ao bater no concreto.
— Até que enfim o macaco aprendeu a usar a ferramenta. — Ela deu um passo à frente, aproximando o rosto do meu. O cheiro clínico deu lugar àquela aura de mulher foda que só ela tinha. — A carne é só a porta da frente, Edu. Quando o músculo cede, o cérebro desiste de lutar. E é aí que eles entregam os esquemas, as contas no exterior, as fraquezas. A gente não vai apenas cobrar caro pela sessão. A gente vai ter a cidade na palma das mãos.
Fiquei em silêncio, absorvendo o peso daquilo. O plano era brilhante. Era maligno, era sujo, e era absolutamente perfeito.
— Tá bom. Eu calo a boca e presto atenção. — Engoli o orgulho. — Qual é o próximo passo, professora?
Ela se virou, indo até a bolsa que tinha deixado em cima de uma caixa de ferramentas. Tirou de lá um pacote de lenços umedecidos e uma toalha pequena de microfibra, junto com uma garrafinha de álcool. Voltou até mim e, sem pedir licença, começou a passar o lenço com álcool no meu peito para apagar as marcas pretas da caneta.
O toque agora era diferente. Não era agressivo, não era clínico. Era lento. O álcool gelava a pele, enquanto a mão dela por baixo do lenço espalhava o líquido com uma firmeza que me fez fechar os olhos por um segundo. A fricção para tirar a tinta esfolava um pouco, mas era um atrito bom, rude. Minha respiração voltou a ficar descompassada.
— A teoria a gente estuda nos livros de anatomia que eu vou te passar. E a prática a gente treina na maca. Mas hoje... — Ela parou no meu abdômen inferior, esfregando a tinta preta a um palmo do cós da minha calça. Ela sabia o que estava fazendo. Sabia que eu estava duro ali, encostando no zíper, e fazia questão de limpar aquela área com uma lentidão sádica. — ...hoje nós vamos testar o seu olhar.
Ela terminou de limpar o pior, jogou o lenço preto de tinta no chão e me entregou a toalha.
— Se veste. Bota esse paletó de volta e tenta parecer alguém que tem alguns milhões na conta, e não um agiota cobrando dívida na periferia.
Peguei a camisa, o tecido grudando na pele que ainda estava levemente úmida e ardendo pelo álcool.
— E pra onde a gente vai? Procurar maca pra comprar? — perguntei, abotoando a camisa e enfiando a camisa pra dentro da calça, ajeitando o estrago que ela tinha feito no meu estado de espírito.
— Não. Vamos caçar. — Andressa pegou a bolsa e ajeitou a gola da própria camisa. — Nós precisamos de um cliente zero. Alguém que tenha influência suficiente para espalhar o boca a boca no círculo certo, mas que seja podre o suficiente por dentro para precisar do nosso alívio.
— E onde a gente acha um desgraçado desses a essa hora da manhã numa terça-feira?
Ela caminhou até a porta de metal do galpão, a luz do sol vindo da rua iluminando o rosto dela, dando a ela a aparência de um anjo da guarda que desceu pro inferno para comandar os demônios.
— No saguão do Hotel Fasano. Tem um café da manhã lá onde os tubarões se reúnem antes de abrir a Bolsa. Nós vamos sentar, pedir uma água com gás de cinquenta contos, e você vai me apontar qual deles está prestes a ter um infarto por causa da própria sujeira.
Coloquei o paletó, sentindo o peso do tecido nos meus ombros e o peso da nova realidade na minha mente. A herança da Zulmira não ia me aposentar. Iria me colocar no jogo dos grandes.
— Bora, professora — eu disse, abrindo um sorriso que, dessa vez, não tinha nada de malandragem. Era puro instinto de caçador. — Vamos achar o nosso primeiro paciente.


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Ficha do conto

Foto Perfil Conto Erotico neymarodrigues

Nome do conto:
Malandro é Malandro... Mané é Mané...

Codigo do conto:
262033

Categoria:
Heterosexual

Data da Publicação:
14/05/2026

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