— Carlos! — chamou, a voz cansada mas amigável.
Ele levantou a cabeça, um sorriso fácil abrindo o rosto moreno.
— Fala, Lúcia.
Lúcia apoiou as mãos na cintura, sentindo o peso dos últimos dias. O marido, Roberto, tinha prometido consertar a torneira da cozinha, arrumar a fechadura dos fundos, levar o carro no mecânico. Não fez nada. Nunca fazia. Ela já estava acostumada a pedir, a esperar, a se contentar com promessas vazias.
— Preciso de uma mão amiga de novo — disse, sem rodeios. — A mangueira do tanque estourou, e não tem ninguém aqui pra me ajudar. Você pode dar uma olhada?
Carlos largou a chave inglesa e foi até a cerca. Ele sempre ajudava. Sempre estava lá quando Roberto sumia no fim de semana ou quando a geladeira começava a fazer aquele barulho estranho. E nunca pedia nada em troca.
— Claro. Já vou.
Ele pulou a cerca com a agilidade de quem conhecia cada pedra daquele muro. Lúcia sorriu, sentindo uma pontada de gratidão — e também um incômodo. Ela devia tanto a ele. Mudou o tom de voz, mais séria:
— Escuta, Carlos. Toda vez que preciso de alguma coisa, é você que vem. Nunca te ofereço nada. Posso te perguntar uma coisa?
— Pode.
— Você quer alguma coisa? De verdade. Qualquer coisa que eu puder fazer por você.
Carlos parou de mexer no encanamento e ergueu o olhar para ela. O sol da tarde iluminava o rosto de Lúcia, destacando os cílios escuros e os lábios grossos. Por um momento, ele hesitou. Depois, limpou a garganta.
— Qualquer coisa?
— Qualquer coisa — repetiu ela, firme.
Ele apoiou o cotovelo no tanque, o metal frio contra a pele quente. Respirou fundo.
— Lembra aquele dia, faz umas semanas? Você estava no quintal, amamentando o pequeno. Acho que você não me viu, mas eu tava no telhado, consertando a antena. E...
Ele parou, sentindo o calor subir pelo pescoço. Lúcia franziu a testa, mas não interrompeu.
— ...e eu fiquei olhando. Não por mal, juro. Mas aquilo me deu uma vontade. Uma coisa que não passou. Você o segurando, ele mamando quietinho, e seus seios... — Ele desviou o olhar. — Me desculpa se é estranho. Mas você perguntou se eu queria alguma coisa.
Lúcia sentiu o ar mudar ao redor deles. A brisa do fim de tarde parou por um segundo. Ela olhou para a janela de casa — vazia. Roberto só voltaria depois das oito, se voltasse.
— Você quer mamar? — perguntou, a voz baixa.
Carlos engoliu seco.
— Se você deixar. Eu sei que é loucura, mas é o que me vem à cabeça desde aquele dia.
Ela não respondeu com palavras. Em vez disso, levou as mãos à barra da blusa de alças, puxando-a para cima. Os seios caíram livres, pesados, as aréolas largas e escuras, os mamilos já endurecidos. O leite começava a vazar, formando duas gotas brancas que escorriam pela pele morena.
— Vem — disse, estendendo a mão.
Carlos se aproximou devagar, como quem se aproxima de um animal selvagem. Ela puxou sua cabeça para perto, e ele sentiu o cheiro de leite, de mulher. Abriu os lábios e envolveu o mamilo.
O leite jorrou quente, doce, espesso, enchendo sua boca. Ele sugou fundo, as mãos tremendo nas laterais do tanque. Lúcia respirou fundo, fechou os olhos, uma das mãos segurando a nuca dele. Era estranho. Era errado. Era a coisa mais íntima que ela tinha feito em meses.
— Pega o outro — sussurrou, afastando o rosto dele para oferecer o seio direito.
Carlos mudou de lado, faminto, os dedos apertando a carne macia enquanto mamava. O som da sucção preenchia o quintal, misturado aos pássaros e ao zumbido distante da cidade. Lúcia arqueou as costas, sentindo o leite fluir em ondas, aliviando a pressão que sentia há horas.
— Isso... assim... — murmurou, perdida no momento.
Nenhum dos dois se moveu por um longo tempo. A tarde escorreu, e o sol se pôs entre as telhas, colorindo o céu de laranja. Quando ele finalmente se afastou, os lábios brilhantes, o olho marejado, Lúcia abaixou a blusa devagar.
— Obrigado — disse Carlos, a voz rouca.
— Pode me chamar quando quiser — respondeu ela. — Pra mamar. Ou pro que precisar.
No silêncio que ficou, entre o barulho do encanamento e o cheiro de grama molhada, um novo acordo se firmava. O marido que nunca fazia nada, e o vizinho faminto que recebia tudo.
bonecadepano-