O calor de Cuiabá em agosto não é apenas temperatura. É uma parede sólida, um peso seco que rasga a garganta e gruda a roupa na pele assim que você pisa fora do ar-condicionado. O banheiro da rodoviária cheirava a diesel queimado, poeira suspensa e aquele desinfetante de pinho vagabundo que nunca limpa nada, só tenta mascarar o cheiro crônico de urina e suor acumulado.
Não tinha motivo nenhum para estar na rodoviária. Um desvio no trânsito, um erro de cálculo, uma bexiga cheia.
Mas Francis estava lá. Pai de um aluno na escola onde trabalho.
Não sei o que um deputado, o grande homem tradicional, cristão e agro da cidade estava fazendo num lugar como aquele à paisana. O boné em sua cabeça escondia bem o seu rosto.
Na escola do filho dele, ele nem desce daquela caminhonete importada gigantesca. O porteiro corre para abrir a porta, o garoto desce, e ele vaza. Nas reuniões de pais e nos eventos escolares, ele infla o peito, engrossa a voz, aponta o dedo. Uma fachada perfeita de moralidade inabalável.
Mas eu sei o que ele é. Sempre soube. Cidade pequena é uma merda, mas a vantagem é que você sente o cheiro do desespero de longe. E ele sempre exalou esse cheirinho de cadela enrustida por trás da pose de macho intocável.
Me lembro de um casamento de um amigo meu, meses atrás. Naquele buffet absurdamente caro que não vou mencionar. O ar-condicionado no talo, o gelo batendo nos copos de cristal. Ele esbravejando numa mesa, falando alto, o rosto vermelho, até que alguém o mandou baixar o tom. A humilhação engolida a seco. Ele bufou e marchou para o banheiro feito criança mimada. Fui atrás, no instinto, como quem fareja sangue, como quem não quer nada.
Quando cheguei, ele estava inclinado na pia, a água escorrendo pelo rosto contorcido de raiva, as narinas dilatadas. A agressividade na voz dele quando perguntei se estava tudo bem foi instintiva, a defesa de um animal acuado. Mas quando eu não recuei, quando eu me aproximei e invadi o espaço dele, lavando minhas mãos devagar, encarando-o pelo espelho... a raiva dele derreteu. O semblante ruiu. Vi o momento exato em que o macho alfa de araque abaixou a guarda e me deixou ver a fome doente que ele escondia. Ele despejou meias palavras sobre o que tinha acontecido, a voz falhando, buscando validação em mim. Um completo estranho. E hoje... hoje nós nos esbarramos nesse esgoto de concreto armado.
Quando entrei, ele já estava lá. Lavando as mãos na pia encardida, a mesma postura tensa. Nem olhei para ele. Não precisei. Fui direto para a última cabine, a maior. Entrei, deixei a porta de metal enferrujada entreaberta e esperei. Disse a mim mesmo que era um teste. Uma prova do meu próprio controle, uma forma de confirmar a mediocridade dele.
Mas quando a sombra dele bloqueou a luz amarelada que entrava pela fresta, a minha respiração travou.
A bota de couro caro dele raspou no piso encardido. Ele empurrou a porta e o rangido dela ecoou pelo banheiro vazio. Coisa rara, mas aconteceu.
Ele não disse nada. O peito largo dele subia e descia rápido sob a camisa social. A arrogância da Câmara dos Deputados não existia mais ali; os olhos dele estavam arregalados, pesados, escuros de uma necessidade nojenta.
O agarrei pelo colarinho. O tecido caro estalou nos meus dedos. O joguei contra o azulejo imundo com força, o baque seco ecoando na cabine. A minha justificativa era a punição. Ia foder a hipocrisia daquele homem ali mesmo, ia colocá-lo no lugar de lixo que ele merecia.
Foi o que repeti na minha cabeça quando puxei o cinto dele. O barulho da fivela pesada batendo contra a louça do vaso sanitário cortou o ronco de um motor de ônibus lá fora.
O virei de costas.
O grande deputado, o pai de família, com as calças nos joelhos, o rosto prensado contra a parede suja de um banheiro público.
Entrei nele sem cerimônia, com brutalidade, com pressa, sem preparar nada. A força era minha, mas o espaço não era meu. Ele já havia sido leitado por outros. Escorreguei pra dentro dele facilmente demais. Ao menos três haviam estado dentro dele quando perguntei a quantidade.
Mas a verdade... a maldita verdade que faz meus dedos martelarem o teclado agora enquanto digito, é que ele não parecia satisfeito e isso me irritou profundamente. Quando eu o prensei, ele soltou um gemido rouco, abafado, e jogou o quadril para trás, indo de encontro ao impacto.
Ele queria ser destruído. As mãos grossas dele, acostumadas a apertar mãos de políticos e segurar volantes de couro, agarravam o rejunte do azulejo, os nós dos dedos brancos, enquanto ele arfava como um animal faminto. O cheiro dele me engoliu. O perfume amadeirado, caríssimo, misturado ao suor ácido do medo e do tesão. Um cheiro denso, real, sujo.
Afundei nele com raiva, mas a cada vez que o corpo largo dele cedia sob o meu peso e me puxava para mais fundo, e a porra alheia pingava no chão imundo. Eu precisava segurar o colarinho dele com força, os meus dentes trincados, aproveitando ao máximo antes que alguém entrasse ali.
Quando gozei, senti suas entranhas mastigando minha glande com pressa. A pressão no meu peito foi tanta que achei que fosse sufocar. Calor desgraçado. Soltei o tecido amassado da camisa dele e me afastei rápido. Ainda me virei e mijei. Fartamente, na pocinha, fazendo barulho.
Arrumar a roupa levou três segundos. Ele continuou encostado na parede, arfando, os ombros largos tremendo, sem coragem de olhar para trás.
Destranquei a porta e saí. Não lavei as mãos lá dentro. O cheiro de pinho e diesel me dava ânsia agora.
Mas não adianta. O cheiro daquele perfume caro misturado ao suor continua grudado na minha memória. A lembrança do peso do corpo de Francis empurrando contra mim não sai da minha cabeça. E se eu fechar os olhos agora, consigo ouvir seu gemido baixo quando eu fechei a porta da cabine.
Amanhã é dia de aula do filho dele na escola. Estarei na calçada para recebê-los. Tenho certeza de que eu gostarei muito de vê-lo em pânico quando souber quem eu sou e o quão próximo dele estou.