Crônicas de um Predador: Quando a Máscara Cai

    Domingo, 9 de agosto de 2026.

    O silêncio do meu apartamento hoje de manhã era absoluto, mas a minha cabeça não parava. O café esfriou na xícara. O corpo ainda guardava a tensão dos últimos dois dias, mas a mente, por algum motivo doentio, decidiu me arrastar dez anos para trás.

    Eu tinha 23 anos. A armadura do homem que sou hoje, já estava forjada e polida, grudada na minha pele. E então havia o Cássio. Meu primo. Dezenove anos na época.

    Mês de setembro, o mês do aniversário dele, e a casa estava um caos porque ele estava às vésperas de se tornar pai. A história por si só já era um atestado de fracasso. Ele tinha engravidado uma menina que ninguém da família conhecia. Uma garota com cara de rato, magricela, que parecia ter saído de uma vida de miséria e provações que a nossa família preferia ignorar. A presença dela entre nós era nula. Ninguém levava a garota a sério. Mas o Cássio, com aquela mente perturbada, dissimulada e maledicente, encontrou um jeito de se prender a ela para sempre. Engravidou a coitada. A confusão começou assim que ele saiu de um ensino médio empurrado com a barriga por insistência da minha avó, trabalhando como repositor de mercadoria num atacadão. Como ele conseguiu fazer um filho é algo que até hoje me soa como uma piada de mau gosto.

    Cássio era tão óbvio que me causava repulsa. O tipo de gente que atrai o caos, que está sempre no lugar errado, na hora errada, cavando a própria cova e implorando, com cada gesto, para ser punido. E ele merece ser punido sempre. Para sempre.

    Estatura média, acima do peso, aquele cabelo liso e escorrido sempre caindo na testa oleosa. Mas o que me intriga mais é a forma como ele existe nos espaços. As mãos não param quietas. Mexem-se no ar enquanto ele fala, os dedos desenham delicadezas invisíveis, os pulsos sempre moles, desmunhecando com a naturalidade de uma típica bichinha. A voz vive quebrando — não chega a ser aguda, mas tem uma afetação feminina, rascante, que irrita os tímpanos. Quando se senta, cruza as pernas apertadas, jogando o peso do corpo para um lado e apoiando o braço esticado sobre os joelhos, a mão pendurada, exatamente como as mulheres mais velhas da família fazem. Se estava de pé, é garantido: uma das mãos vai parar na lombar, o quadril quebra para o lado, a pose de vadia enrustida fica estampada para quem quiser ver.

    E os olhos... O olhar dele para os homens é um silêncio faminto. Aquele tipo de olhar que devora a carne da gente de baixo para cima, cheio de um desejo desesperado de ter, mas sempre acovardado, medindo o terreno antes de dar o bote. Tem a mania nojenta de chamar a mãe de "mamãe" e o pai de "papai". Só que o "papai" dele sempre vem carregado de um tom arrastado, quase obsceno.

    Lembro de uma tarde, no terraço da casa da minha avó, nos preparativos para um casamento da família. Eu estava no fundo, conversando com o Rubens, outro primo nosso. No meu campo de visão, a mãe do Cássio estava de costas para mim, e ele de frente, argumentando com ela, insistindo para que o pai não fosse à festa.

    Eu estava prestando atenção no Rubens, mas senti o peso do olhar devorador. Cássio olhou direto para mim, por cima do ombro da mãe, e sorriu. Um sorriso sujo, conhecedor. E então soltou, com aquela vozinha afetada: "Tadinho do meu paizinho. Ele não merece isso."

    Quando ele disse "paizinho" olhando nos meus olhos, meu pau deu um solavanco dentro da calça social. O sangue desceu rápido, pesado. E imediatamente depois, uma onda de nojo me engoliu. O ódio de sentir tesão por uma criatura tão patética. A sensação de ter que aturar essa vadia em reuniões de família, de ver essa puta desfilando seus trejeitos no meio dos meus tios, era sufocante. Minha vontade, ali mesmo, não era levá-lo para uma cama. Era arrastá-lo para o escuro, prensar aquela cara redonda na parede e entortá-lo até ele aprender qual era o lugar dele. A submissão dele me ofendia, porque não era oferecida, era esfregada na minha cara como uma provocação.

    Dias depois desse episódio, o inferno se montou na chácara dos meus pais. Mais de cinquenta parentes reunidos. Eu estava exausto. Tinha passado a madrugada e a manhã inteira organizando cadeiras, geladeiras, mesas. A namorada dele não foi — disse que estava passando mal com a gravidez —, mas Cássio estava lá. Vai entender. E a manhã inteira ele foi a minha sombra. Aonde eu ia, ele aparecia, desmunhecando, puxando assunto, rindo alto, o cheiro de perfume doce e barato dele empesteando o ar limpo da chácara.

    O ápice aconteceu pouco antes do almoço. Eu finalmente tinha sentado à mesa grande da varanda para respirar. Rubens se sentou à minha direita, falando sem parar sobre a faculdade de Direito dele. Cássio, percebendo a brecha, sentou-se à minha esquerda.

    O calor estava denso. Rubens olhava para a paisagem linda lá fora, as árvores balançando. E então, por baixo da mesa, eu senti.

    A mão gordinha e quente do Cássio pousou na minha coxa.

    Ele deslizou os dedos devagar pelo tecido da minha calça. E foi aí que o meu corpo me surpreendeu. Não teve solavanco. Não teve pau endurecendo, não teve tesão faiscando como no terraço da minha avó. O que subiu pelas minhas veias foi ira. Uma fúria gélida e silenciosa. A audácia daquela bichinha de tentar me dominar, de ditar o momento, de invadir o meu espaço debaixo da mesa, na casa dos meus pais, achando que eu cederia a um joguinho sujo de priminhos. Ele queria me transformar no segredo dele.

    Minha respiração nem alterou. Calculei cada segundo. Rubens continuava falando, olhando para o horizonte. Não virei o rosto. Não olhei para a vadia à minha esquerda. Lentamente, desci a minha mão esquerda por baixo da mesa.

    Deslizei meus dedos sobre os dele. Vi a pele do braço do Cássio se arrepiar inteira. Ele achou que eu estava correspondendo. Achou que tinha ganhado.

    Girei minha mão, encontrei a camada de pele fina e macia na parte superior da mão dele. Posicionei o polegar e o indicador. E então, com toda a força que tinha nos dedos, o belisquei.

    Não só apertei. Travei as unhas na carne dele e torci a pele com uma brutalidade fria, sentindo o tecido quase rasgar sob a minha pressão.

    O berro que ele soltou cortou o barulho da chácara. Um grito finíssimo, agudo, histérico.

    Rubens deu um salto na cadeira, assustado, interrompendo o discurso sobre leis. Puxei a mão de volta para cima da mesa no mesmo instante e fingi um sobressalto, olhando para o Cássio com a sobrancelha franzida.

    Ele estava vermelho, os olhos cheios de lágrimas, segurando a própria mão debaixo da mesa, tremendo.

    — O que foi isso? — Rubens perguntou, já olhando em volta, prestativo, procurando abelhas ou marimbondos no chão da varanda.

    — Algum... algum bicho me mordeu! — Cássio choramingou, a voz falhando, levantando-se de supetão, a pose desmoronada, a humilhação estampada na cara gorda dele. Ele saiu andando rápido, se encolhendo, fugindo para dentro da casa.

    Rubens ainda procurou o inseto imaginário por uns segundos antes de voltar a falar sobre a faculdade.

    Voltei a olhar para o horizonte. O vento bateu nas folhas das árvores. Um sorriso lento, satisfeito, se formou no meu rosto. Não precisei abrir a calça para colocar ele no lugar dele. A punição física, fria, o terror de não saber o que eu era capaz de fazer... isso me deu muito mais prazer do que qualquer gemido.

    Acreditei que Cássio nunca mais chegaria perto de mim o resto do dia e passei o almoço inteiro me sentindo um rei.

    Porém...

    O mormaço daquele domingo na chácara passava dos quarenta graus. Depois do almoço, o barulho da família se afastou. Meus pais inventaram de levar a parentada inteira para o outro lado da propriedade, para mostrar uma nova parte da reforma que vinham fazendo. O casarão ficou afundado num silêncio pesado, quebrado apenas pelo zumbido das cigarras nas árvores e pelo rangido preguiçoso do ventilador de teto do meu quarto.

    Fiquei para trás, aproveitando que todos tinham saído, e me deitei na cama, deixando o calor me vencer. Aquele sono denso de quem comeu demais e trabalhou muito, que cola a pele no lençol.

    Não sei exatamente quando começou. A passagem do inconsciente para a vigília é uma linha turva, especialmente no calor. Primeiro, achei que fosse um vento mais forte, ou um inseto, mas a pressão era contínua. Mãos. Leves, quase covardes. Deslizando pela minha barriga descoberta, subindo até o peito, descendo de novo.

    Minha mente despertou antes do meu corpo. Eu sabia quem era. O cheiro de perfume doce e enjoativo de Cássio pairava no quarto abafado, impregnando o ar. Qualquer outro homem, qualquer pessoa normal, teria dado um pulo, gritado, expulsado o moleque do quarto a pontapés pela invasão nojenta. A fúria borbulhou no meu estômago, mas, no segundo seguinte, uma frieza metálica tomou conta de mim.

    Eu não ia apenas me irritar. Isso seria fácil demais para ele. Seria uma punição muito breve. Resolvi, num impulso puramente sádico, continuar de olhos fechados. Queria ver até onde a audácia iria. Queria dar a ele a corda inteira para ele mesmo se enforcar.

    A respiração dele estava irregular, ofegante, batendo de leve no meu ombro. Ele devia estar inclinado sobre mim. Os dedos gordinhos passeavam pelo meu tronco, tocando meus músculos com uma adoração furtiva. Subiram pelos meus braços, traçando as veias, testando a textura da minha pele. Cada vez que meu peito subia numa respiração fingida de sono profundo, as mãos dele paravam. Esperavam. Quando eu continuava imóvel, elas voltavam. A estupidez de achar que poderia alisar o corpo de um homem adulto sem que ele acordasse. A inocência patética de quem vive num mundo de fantasias.

    A mão dele desceu. Passou do meu umbigo. O toque ficou ligeiramente mais trêmulo. Senti o elástico da minha bermuda ceder de leve. Os dedos dele estavam se preparando para escorregar para dentro, buscando o que ele tanto ansiava devorar.

    Foi o momento exato.

    Abri os olhos. Sem sobressaltos. Sem me mexer um milímetro. Apenas levantei as pálpebras e cravei meu olhar direto nos olhos dele.

    A cena congelou. A mão dele parou no elástico da minha bermuda.

    O rosto redondo estava a palmos do meu, vermelho, suado, a boca entreaberta numa expressão de pânico absoluto. O silêncio do quarto pareceu engolir todo o oxigênio. Não movi um músculo. Não pisquei. Apenas o encarei com o peso de uma bigorna, o olhar frio, autoritário, dissecando o terror que tomou conta da cara dele.

    Ele tentou puxar o ar, mas se engasgou. O pavor estampado nos olhos dilatados, a pupila tremendo. A putinha assustada que finalmente percebeu que a jaula do leão havia sido trancada. Quis puxar a mão de volta, quis fugir, mas o pânico o paralisou. Ficou ali, com os dedos enroscados no meu elástico, respirando curto, os olhos marejando de puro terror, esperando.

    Permaneci em silêncio, apenas o encarando. Deixando o medo dele encher o quarto antes de eu decidir o que faria.

    Quase que por instinto, num movimento fluído e predatório, minhas mãos alcançaram seu pescoço. Sem cerimônia, meus dedos se fecharam em volta daquela garganta gorda e úmida de suor. Comecei a estrangulá-lo de leve, apertando apenas o suficiente para arrancar o restinho de ar que o choque já tinha tirado daqueles pulmões.

    A pupila dele dilatou até quase engolir a íris. A mão trêmula que ainda roçava o elástico da minha bermuda se uniu a outra e tentaram agarrar meus pulsos num ato de desespero, mas as unhas dele apenas rasparam a minha pele sem força alguma.

    — Levanta — ordenei. A voz saiu baixa, um rasgo seco e cortante no silêncio abafado do quarto.

    Soltei o pescoço dele num tranco, me erguendo da cama rapidamente. Antes que ele pudesse recuperar o equilíbrio ou tentar fugir para a porta, o agarrei pelos ombros daquela camiseta vagabunda e o empurrei com brutalidade contra a parede de alvenaria. O baque surdo das costas dele ecoou alto. Um gemido agudo e esganiçado escapou da boca dele, buscando ar.

    O terror que escorria dos olhos do Cássio não me aplacava; me incendiava. A narrativa na minha cabeça exigia que aquele momento fosse pesado, definitivo. Era ali, prensado contra o reboco, que ele ia conhecer quem eu realmente era.

    Ergui a mão direita. O estalo do meu tapa na cara dele foi seco, limpo, se espalhou no quarto.

    — Ai! — ele choramingou, o rosto virando bruscamente para o lado pelo impacto, lágrimas grossas brotando imediatamente dos olhos apertados.

    Não dei espaço para ele respirar. Puxei o rosto dele de volta pelo queixo, cravando meus dedos com força na mandíbula mole, e desferi outro tapa, com as costas da mão, do outro lado do rosto.

    Seus joelhos cederam. Ele desmoronou, mas eu o mantive suspenso, prensado na parede, sustentando o peso morto daquele corpo pelo tecido esgarçado no peito dele. Ele começou a gemer de dor, um choramingo estridente, agudo e desesperado, de quem implora por uma piedade que eu não tinha a menor intenção de oferecer.

    — Você achou que podia colocar a porra das suas mãos em mim e me transformar no seu segredinho? Achou que podia me usar, seu lixo?

    O peito dele subia e descia num pânico arrítmico.

    — Me desculpa... Daro... por favor... ai, me desculpa... — ele soluçava, a voz quebrando em tons afeminados que só aumentavam minha raiva.

    O soltei de uma vez, as pernas dele não aguentaram. Ele desabou, caindo de quatro no chão de taco, encolhendo os ombros, arfando e tremendo.

    Olhei para ele lá embaixo. A punição inicial estava dada, a fronteira restabelecida. E, no entanto, olhando para as marcas vermelhas dos meus dedos inchando no rosto daquele moleque estúpido, a sensação no meu peito não era de tranquilidade. Era a maldita fome, pulsando nas palmas das minhas mãos, querendo bater de novo só para ouvir o som rasgado daquela submissão covarde ecoar no quarto vazio mais uma vez.

    Mas o mormaço do quarto parecia ter ficado mais denso. O cheiro do perfume doce e barato dele, que antes me dava ânsia, agora subia misturado ao suor ácido do pânico absoluto. E foi o medo dele. O terror cru, molhado, brilhando naqueles olhos arregalados. A submissão total daquela putinha ajoelhada aos meus pés esperando o próximo golpe. Foi isso que fez o sangue descer de vez.

    O meu pau pesou na bermuda. Uma ereção bruta, dolorosa, latejando contra o tecido de uma forma que a raiva sozinha jamais explicaria.

    A minha mente tentou justificar no mesmo instante. Eu disse a mim mesmo que ia humilhá-lo até o osso. Ele queria ser uma vadia enrustida? Ele queria se rastejar no escuro e brincar de me seduzir? Eu ia mostrar para ele qual era o lugar de gente como ele.

    — Você não queria colocar a mão? — minha voz saiu rouca, quase num rosnado, rasgando o barulho do ventilador de teto.

    Ele encolheu ainda mais os ombros, soluçando, sem coragem de me olhar.

    Puxei o elástico da bermuda e da cueca de uma vez só, empurrando o tecido para baixo das coxas. O ar quente e abafado do quarto bateu na minha pele.

    — Olha pra cá.

    Ele levantou o rosto devagar. Quando os olhos dele viram o que eu estava exigindo, a boca dele se abriu num misto de pavor e... fascínio. A cadela assustada ainda era, no fundo, uma cadela faminta. Aquele olhar covarde de quem devora a carne dos outros estava ali, escondido sob as lágrimas.

    — Você vai me servir como a puta que você é. Anda, sem as mãos.

    Ele hesitou por um segundo. Apenas um. E então, os joelhos dele se posicionaram no chão.

    — Abre a boca.

    Ele obedeceu. Quando os lábios trêmulos e molhados dele me tomaram, fechei os olhos com força e joguei a cabeça para trás. Um choque de alívio e tesão me rasgou ao meio. A boca dele era quente, desesperada, querendo me agradar a qualquer custo para não apanhar de novo. Ele engolia o próprio choro enquanto me servia, a saliva escorrendo e sujando o chão.

    Comecei a puxar o cabelo dele com força, como se a minha vida dependesse de mantê-lo ali, sugando a minha sanidade. O poder era meu, a punição era minha, mas a forma desesperada como o meu quadril ia de encontro à boca dele provava o contrário. Não estava só punindo a audácia dele. Precisava da degradação dele para alimentar a minha própria perversão. Estava usando a desculpa de "dar uma lição" para me afundar na mesma sujeira que eu fingia desprezar.

    Quando o gozo começou a vir, não avisei. Não dei a chance de ele recuar. Segurei a nuca dele com as duas mãos, travando a cabeça da bichinha no lugar, e gozei fundo, esguichando o fundo da garganta dele com brutalidade.

    O corpo dele retesou. Ele tentou tossir, tentou se afastar buscando ar, mas mantive o aperto firme.

    — Engole — sussurrei, a respiração pesada quebrando a ordem. — Engole a porra toda, sua puta.

    Ele choramingou, os olhos marejados de vermelho me encarando de baixo para cima, e senti o pomo de adão dele subir e descer, engolindo tudo.

    Soltei o pescoço dele com um empurrão leve de desprezo. Cássio caiu para trás, sentando-se nos próprios calcanhares, tossindo, limpando o canto da boca com as costas da mão trêmula, o peito subindo e descia frenético.

    Ajustei as roupas num movimento seco e indiferente. O zíper subiu com um estalo afiado que rasgou o silêncio do quarto.

    A raiva e o tesão evaporaram no mesmo segundo, deixando no ar apenas o cheiro acre de suor e o rangido rítmico do ventilador de teto. Cássio continuava no chão de taco, os ombros tremendo sob a marca vermelha que logo incharia na cara dele.

    — Levanta — ordenei, e a minha voz saiu fria, cortante, sem qualquer rastro de alteração. — Limpa essa cara e arruma essa roupa.

    Ele piscou, atordoado, os olhos vermelhos e cheios de lágrimas, tentando assimilar a ordem dada.

    — Se você se atrever a abrir a boca sobre o que aconteceu aqui, se olhar pra mim de novo com essa cara de cadela em qualquer reunião de família... eu não vou apenas bater em você. Vou atrás daquela garota que está grávida de você, vou te desmascarar na frente da minha avó, dos seus pais e de todo mundo. Acabo com a sua vida. Entendeu?

    O pânico de ser exposto socialmente bateu mais forte nele do que a dor física. Ele assentiu desesperadamente e se levantou tropeçando nas próprias pernas. Ajeitou a camiseta amassada com as mãos trêmulas e saiu quase correndo pelo corredor, deixando a porta entreaberta.

    Dez anos depois, o mesmo padrão se repete com uma precisão que me deixa inquieto: o momento em que a máscara cai, o corpo cede, o olhar muda de arrogância ou de covardia para aquela fome assustada que só aparece quando a porta se fecha. Cássio no chão da chácara, Francis contra o tapete do meu apartamento. Dois homens que em público sustentam mundos completamente diferentes e que, sozinhos comigo, se desfazem da mesma forma. Continuo tentando convencer a mim mesmo de que se trata apenas de controle, de punição, de colocar cada um no lugar que merece. Mas quanto mais escrevo, mais fica claro que o que realmente me prende não é o poder que eu exerço, e sim a forma como o desejo deles me devolve, intacto e sem filtro, o reflexo daquilo que eu mesmo não consigo nomear.


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Ficha do conto

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Nome do conto:
Crônicas de um Predador: Quando a Máscara Cai

Codigo do conto:
269535

Categoria:
Gays

Data da Publicação:
09/08/2026

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