Acalmia falsa de manhã cedo. O sol já subia quente demais para as oito e pouco, aquele mormaço de Cuiabá que te avisa que o dia vai ser um inferno. O asfalto em frente à escola ainda não exalava calor, mas o ar já era pesado. Trabalho numa escola de elite e ainda bem que a programação de férias terminou hoje. Aqui não tem cheiro de diesel de ônibus escolar nem van barulhenta; o barulho da rua é abafado pelo motor silencioso de SUVs de meio milhão de reais e sedans blindados parando em fila dupla.
Eu estava na calçada, somente hoje. Roupa impecável, alinhada, o crachá pendurado no pescoço. Cumprimentava os pais com aquele sorriso peculiar da profissão, aquele que se comunica com quem paga mensalidades absurdas.
Esperava que ele viesse pessoalmente, mas não esperava que ele descesse. Normalmente, a caminhonete RAM gigantesca e preta só para, o porteiro corre para abrir a porta de trás, o garoto desce e ele some. Mas hoje o carro estacionou um pouco mais à frente. O motor continuou ligado, mas a porta do motorista se abriu.
Francis desceu.
O boné estava lá, na cabeça, a aba escondendo os olhos. A camisa social era diferente da de ontem, azul clara, mas o perfume... O vento bateu e trouxe aquele amadeirado caríssimo direto para o meu rosto. O mesmo cheiro que estava grudado na minha memória até a madrugada de hoje. Ele segurava a mão do filho com uma firmeza desnecessária, mecânica. O garoto desceu normal, arrumou a mochila nas costas e já correu em direção aos colegas no portão. Francis ficou parado na calçada por dois segundos a mais do que deveria.
E foi aí que ele, aparentemente, me viu de verdade.
Assisti ao corpo inteiro dele travar. Os ombros largos, que ontem tinham tremido de submissão contra o azulejo encardido, agora ficaram rígidos como pedra. Os olhos dele passaram por mim, arregalaram de leve, desviaram e voltaram num solavanco rápido demais, como se o cérebro arrogante de deputado tivesse entrado em curto-circuito tentando processar a imagem. A cor sumiu do rosto dele. Não completamente, ele é moreno de sol, mas vi o tom de cinza engolir a pose de autoridade. A mão grossa que segurava a porta da caminhonete apertou a lataria até os nós dos dedos ficarem brancos.
Pelo visto ele gosta de agarrar as coisas em momentos de tensão.
Não fiz absolutamente nada. Não mudei a postura, não fechei a cara. Apenas continuei ali, acenando para uma mãe que passava, o sorriso educado no rosto. Sabia que ele estava me olhando. E ele sabia que eu sabia.
O menino já tinha entrado. Francis ficou ali, plantado, olhando para o asfalto, depois para o portão, depois na minha direção de novo, incapaz de sustentar o olhar por mais de um segundo. A respiração dele mudou. O peito subia e descia rápido sob a camisa azul, o pânico inflando os pulmões. O mesmo peito largo que ontem arfava procurando ar enquanto era esmagado contra a parede.
Dei dois passos lentos na direção dele, fingindo que ia apenas falar com o porteiro. O espaço encurtou. O perfume dele invadiu minhas narinas de novo, agora misturado ao cheiro frio do ar-condicionado que escapava da cabine do carro. Vi o pomo de adão dele subir e descer seco. Ele engoliu o próprio pavor.
Ele não disse nada. Virou as costas de supetão, subiu na caminhonete e bateu a porta com um baque surdo, forte demais. O pneu cantou de leve no asfalto quente quando ele arrancou.
Recuo desesperado.
Voltei para minha sala. Cerca de cinco minutos depois, o telefone da coordenação tocou. A secretária, com aquela voz esganiçada que me irrita, me passou a ligação dizendo que um pai estava muito impaciente na linha. A tonta começou a me contar que ele queria saber o nome dos funcionários que estavam na calçada hoje cedo e, antes que ela terminasse a lista, ele a cortou, perguntando rispidamente sobre "o cara vestido de preto, roupa social", me descrevendo dos pés à cabeça. Ela informou que era o coordenador. E ele exigiu que eu ligasse para ele.
Deixei o telefone no gancho por longos dez minutos antes de retornar. O silêncio educa.
Quando liguei, a voz dele atendeu no primeiro toque.
— Alô?
— Senhor Francis, bom dia. Aqui é Daro Viana, coordenador da escola do seu filho. A secretária me informou que o senhor pediu para falar comigo.
Houve uma pausa do outro lado. Eu quase podia ouvir o cérebro dele girando as engrenagens, tentando construir a máscara de homem público e pai de família ofendido. Quando a voz veio, tentava ser grave, impositiva, elegante, mas tremia nas bordas.
— Escuta aqui... Eu quero saber qual é o seu jogo. Você acha que pode ficar me rondando? Você sabe muito bem quem eu sou na cidade, eu exijo saber as suas intenções perto da minha família.
Sorri para a parede do escritório. A audácia de tentar ditar o tom.
— Senhor Francis, não compreendi. O senhor ligou para o telefone da instituição. Se o senhor tem alguma dúvida sobre o rendimento pedagógico do seu filho, podemos agendar uma reunião presencial. Fora isso, aqui eu sou apenas o coordenador escolar.
— Não se faça de sonso comigo! — Ele elevou o tom, a agressividade de bicho acuado voltando. — Eu sou um homem público, caralho. Se você acha que vai usar isso pra me chantagear, você se fodeu. Me passa o seu número pessoal. Nós vamos resolver isso agora, homem a homem.
A minha paciência acabou. A ilusão de controle dele me dava ânsia.
— Sei exatamente qual é a minha função aqui dentro, deputado. E nada do que acontece lá fora tem espaço no meu ambiente de trabalho. Baixe o seu tom quando falar comigo. O senhor não está na Câmara e não tem autoridade nenhuma sobre mim. Quanto ao número... eu já tenho o seu.
Desliguei. O clique do telefone na base foi o som mais satisfatório da minha manhã.
Durante o meu almoço, peguei o celular secundário. O sol fritava Cuiabá do lado de fora do restaurante, mas eu estava focado na tela. Digitei um SMS, algo rápido:
"A máscara de indignação não combinou com o jeito que você gemia ontem. Você achou que estava no controle, mas sua voz no telefone tremia."
Ele respondeu em menos de trinta segundos. O desespero era palpável. Começou a disparar mensagens curtas:
"Quem é você de verdade?"
"Qual o seu nome?"
"Você tem formação pra estar perto de criança? Pra estar na educação?"
"Quantos anos você tem?"
Ele não sabia nada sobre mim. Eu tinha o histórico inteiro da família dele no sistema da escola, e ele só tinha a lembrança do meu pau socando as entranhas dele. Ignorei as perguntas histéricas e enviei apenas uma última mensagem, seca, exata:
"Prédio X, de frente pro Parque Mãe Bonifácia. Av. Miguel Sutil. Às 18h00. Diga ao porteiro que veio ver o apartamento do 603 e que o dono está lá em cima aguardando. Não se atrase."
Desliguei a tela e terminei meu café.
Dez para as seis, eu estava parado de frente para a grande vidraça da sala do meu apartamento, olhando o trânsito da Miguel Sutil. Vi quando um carro comum virou na rua lateral. Um HB20 branco, insulfilmado, sujo de poeira. O grande homem conservador não veio na sua RAM reluzente. Alugou ou pegou emprestado um carro de frota para se esconder. Humilde, anônimo. Patético.
O interfone tocou às 18h02. Liberei a subida.
A luz da sala estava reduzida, aquele amarelo baixo, abafado, que cria sombras compridas. Deixei o ar-condicionado no vinte. Eu estava só de cueca box preta, descalço, o peito nu brilhando de suor leve pelo calor do banho que eu tinha acabado de tomar. O contraste absoluto com a figura de coordenador que ele viu de manhã. Queria que ele soubesse que, naquele espaço, a autoridade não dependia da roupa.
A campainha soou, fraca. Abri a porta de uma vez.
Francis estava ali, no corredor. Boné na mão. A camisa azul clara agora estava úmida debaixo do braço. Ele arregalou os olhos quando me viu sem roupa, a respiração dele travando na garganta.
— Entra e fecha a porta. — A minha voz saiu baixa, sem margem para negociação.
Ele hesitou. Olhou para dentro, olhou para mim. O medo e o desejo brigando na cara dele. Ele entrou devagar e a porta fechou com um clique nas costas dele.
Virei de costas, caminhei até o meio da sala, mantendo a distância. Ele ficou ali, perto da saída, desconfortável, parecendo muito menor do que nos cartazes de campanha.
— Você... — Ele começou, a voz falhando, tentando recuperar alguma pose. — Você não pode me chantagear. O que você quer? Dinheiro? O que a sua escola acha disso? Você não pode misturar as coisas.
Eu ri. Uma risada fria que ecoou na meia-luz.
— O que você acha que eu quero de você? Sou o coordenador da escola onde seu filho estuda e lá eu cuido da educação dele com excelência. A minha profissão não tem nada a ver com o esgoto que você carrega por dentro. O que aconteceu na rodoviária... você estava lá porque quis. E você está aqui hoje pelo mesmo motivo.
Ele abriu a boca para responder, mas eu dei um passo na direção dele, cortando o espaço. Ele encolheu os ombros instintivamente.
— Fica calado. — Falei, a voz ríspida, rasgando o silêncio do apartamento. — Acabou a enrolação. Acabou a pose de político ofendido, o pai de família preocupado. A gente sabe o que você veio fazer aqui.
Fui até o sofá de couro no centro da sala e me sentei. Abri as pernas largas, os pés descalços plantados no tapete. O tecido da cueca marcava exatamente o que ele tinha vindo buscar. Olhei para a cara assustada dele, para o suor escorrendo na têmpora.
Apontei o dedo indicador para o chão, bem na minha frente.
— De joelhos.
Ele ficou paralisado por dois segundos, o peito arfando. Em seguida fechou a porta e então as pernas daquele homem de cinquenta anos cederam. O joelho dele bateu duro no chão de madeira.
Eu fiz um gesto simples com a mão, chamando.
— Vem engatinhando. E começa a mamar.
O barulho dos joelhos dele se arrastando pelo tapete felpudo da sala foi o único som no apartamento por longos segundos. O tecido da calça social raspando contra os fios sintéticos. O deputado, o homem público de moral inabalável e o "cidadão de bem" engatinhava na minha direção com a cabeça baixa, movendo-se com a submissão pesada de um animal que finalmente encontrou o dono.
Observei o topo da cabeça dele. O cabelo começando a rarear, úmido de suor sob a luz amarelada do abajur. Ele parou entre as minhas pernas abertas. O cheiro daquele perfume estava empesteado pelo suor ácido do medo, mas havia outra coisa ali. Tesão cru. Tesão de quem passa a vida inteira fingindo ser o caçador blindado e, de repente, encontra o alívio doentio em ser a caça encurralada.
As mãos grossas dele, trêmulas, hesitaram no ar antes de tentar tocar meus joelhos.
— Sem as mãos — eu ditei. A minha voz soou seca, arranhando o silêncio. — Usa só a boca.
O poder é um vício maldito. A forma como ele obedeceu imediatamente, sem questionar, abaixando o rosto até o tecido da minha cueca preta. Ele não hesitou mais. Puxou o elástico com os dentes e o ajudei a me despir. A respiração dele bateu direto na minha pele, quente, úmida, urgente. O vento frio do ar-condicionado batendo no meu peito nu, mas debaixo da minha cintura eu estava pegando fogo.
Quando a boca dele finalmente me tomou, fechei os olhos com força, trincando o maxilar. Minhas mãos foram para a cabeça dele, os dedos cravando no cabelo curto, guiando, ditando a força e o ritmo. O som molhado, obsceno, da saliva dele ecoando na minha sala perfeitamente decorada, limpa e organizada.
O contraste me enojava e me fascinava ao mesmo tempo.
Eu o empurrava para baixo, sentindo a garganta dele lutar para acomodar tudo. "Isso", eu pensava, a cada impulso. "Engole a sua moralidade de merda. Mostra quem você é de verdade. Mostra o que você esconde da sua família e dos seus eleitores."
Fiz ele engolir tudo até a última gota. Não permiti que recuasse um milímetro e quando finalmente soltei o cabelo dele, e me afastei, ele tossiu de leve. Os olhos estavam vermelhos, lacrimejando, o peito arfando pesadamente sob a camisa azul úmida. Ele continuou ajoelhado ali, o rosto sujo, olhando para o meu tapete como se não soubesse como voltar a ser um homem.
— Limpa essa boca — ordenei, o tom de descarte voltando ao normal. — E some daqui.
Ele passou as costas da mão trêmula nos lábios. Uma submissão tão patética que me enojou. Ele se levantou com dificuldade, pegou o boné que havia caído perto da porta e saiu sem dizer uma única palavra. O clique suave da fechadura batendo atrás dele soou como um ponto final.
Agora estou aqui. Sozinho de novo. A Avenida Miguel Sutil lá embaixo através da vidraça é um rio contínuo de faróis vermelhos e brancos. Trânsito lento. Pessoas normais voltando para suas vidas normais, para suas famílias e jantares quentes.
Já tomei banho, mas a sensação da boca dele... a urgência desesperada com que ele me serviu, como se a vida dele dependesse de ser usado por mim. Ele encontrou o que queria. Ele desceu pelo elevador aliviado do próprio fardo, disso tenho certeza.
E eu? Olho para o tapete desarrumado em frente ao sofá de couro e o silêncio deste apartamento é ensurdecedor.
Segunda-feira, quando o vir na porta da escola, de dentro daquela caminhonete importada, ele vai desviar o olhar. Vai sentir medo de mim e deveria.