Padre Rafael e o confessionário (PARTE 2)

A ligação veio de noite. Rafael estava no quarto. A parede ainda soltava cheiro de tinta. Do lado de fora a rua já tinha apagado as oficinas.
— E aí, filho. A igreja nova.
— Em pé, padre. Missa lotada no domingo. De semana entra quem trabalha na rua.
O velho tossiu. Fundo de sertão. Cachorro longe.
— Aqui também. Mandei vir um menino pra ajudar. Dezoito agora. Carrega o cálice, dobra a toalha, fica calado. Igual você ficava.
Rafael segurou o aparelho.
— Ele aprende rápido?
— O serviço, sim. O resto, não. Tem hora que eu olho e vejo a mesma cara que a sua no começo. Medo de errar a fala. Medo do corpo quando a voz do outro chega perto demais. Ninguém ensina isso no seminário. Eu também tive que aprender sozinho. Banho frio. Reza. A mão no quarto quando a reza não dava conta.
A respiração do velho mudou. Ficou mais perto do fone.
— Nunca falei isso com você.
— O senhor também sentiu?
— Sinto até hoje, filho. A carne não pede licença. A gente senta naquela caixa, o homem do outro lado fala baixo, e o corpo responde sozinho. Depois a gente finge que foi só ouvido. Você está fingindo?
Rafael olhou a batina dobrada na cadeira. Debaixo da calça o pau já tinha pesado. Segurou a coxa. Não desceu a mão.
— As confissões não estão iguais.
— Fala.
Não falou nome. Falou como quem troca caso.
— Um da oficina. Vai casar. A mulher já de barriga. Mesmo assim a boca de outro no serviço. Um da obra, viúvo, dois filhos. Entrou no banheiro daqui. Um moleque que não consegue olhar fresta. Um do escritório da rua, que busca cheiro de pano.
O velho soltou o ar. Devagar. Quase um gemido disfarçado de suspiro.
— E você. Depois. No quarto.
— Eu ouço. Absolvo. Seguro.
— Está aí pra isso. Nós dois. Confessar um pro outro o que não cabe na missa. Alivia. Não cura. Alivia. Às vezes a mão alivia mais rápido que o terço, filho. Você sabe.
Rafael apertou os dentes. A mão foi até a cintura e parou. Do outro lado da linha o velho ficou um tempo sem falar. Só a respiração.
— Reza por mim.
— Amém.
Desligou. Ficou de pé no quarto, duro, a palma aberta sem usar. Dormiu mal. Pela primeira vez desde que chegou, não descarregou.
Terça, cinco da tarde.
Carlos ajoelhou com o mesmo cheiro de graxa. A chave desta vez não caiu. A voz veio mais baixa.
— Abençoai-me, padre, porque pequei de novo.
— Quanto tempo.
— Da última, pouco. Eu tentei. Juro que tentei. Minha noiva está maior. Ela não me procura. Diz que o corpo estranho, enjoo, sono. Eu respeitei. Fiquei quieto.
Rafael esperou.
— Não durou.
Carlos passou a mão no joelho.
— Essa semana foi pior. Sempre quando a gente fecha. A rua já esvaziou. Ele tranca o fundo. Não pede. Só ajoelha. Eu deixo. É o que ela não faz. A boca. O tempo. Ele não tem pressa. Eu seguro a cabeça e esqueço a casa.
— Sempre quando fecham.
— Sempre. Depois a gente lava a mão na pia da oficina e vai embora separado. Como se fosse só o dia de trabalho.
— Você se arrepende.
Demorou.
— Quero. Se ele ajoelhar de novo quando a gente baixar a porta, eu sei que vou deixar. Me dá a penitência, padre. Eu vou tentar parar.
Rafael deu a reza. A voz saiu firme demais. Absolveu. Vai em paz.
Carlos saiu. Levou o cheiro. Rafael ficou com o fechamento da oficina na cabeça. Não escreveu. Não precisava.
Quinta, meio-dia.
André entrou com poeira no ombro e cheiro de cerveja velha. A trena debaixo do braço. Os olhos vermelhos.
— Pequei, padre.
— Fala.
— Essa semana eu não aguentava mais. Saí pra beber. Pensei em mulher. Qualquer uma. Fiquei no balcão até tarde e voltei sozinho. A casa já quieta. Eu não fui pro quarto. Tirei a roupa na sala. Fiquei nu no tapete. A televisão ligada, sem som.
Rafael engoliu.
— Acordei no chão. Todo melado. A barriga, a coxa, o tapete. Tinha sonhado que um homem usava a boca em mim. Devagar. Até o fim. Parecia tão real que eu achei que estava delirando. Levantei com nojo e com tesão junto. Lavei o tapete antes de alguém acordar.
— Isso assusta o senhor?
— Assusta. Eu tenho casa. Tenho obra. Eu não posso.
Rafael deu a penitência depressa. André saiu. Rafael foi até o banheiro da igreja. A porta do box estava aberta. Não tocou em nada. Voltou pro confessionário e sentou até a hora acabar. Debaixo da batina doía. Segurou.
Terça, meio-dia.
Diego entrou mais devagar que da outra vez. Camisa amassada. Ajoelhou. Não encostou o joelho na madeira de imediato.
— Padre.
— Fala, filho.
— Eu tentei. Rezei. Evitei o banheiro. Durou dois dias.
Rafael esperou.
— Depois voltou. Pior. Eu não consigo olhar uma fresta sem a cabeça ir pra lá.
— Ir pra onde.
— Pro outro lado. Eu sei que é só parede. Eu sei. Mas eu penso que tem alguém. Boca. Ou outra coisa.
— Outra coisa.
— Sim.
Ele encostou o joelho. A mão direita subiu até a grade e parou.
— O senhor perguntou da última vez o que eu penso quando olho. Eu penso em chegar perto. Em usar o dedo primeiro. Só pra saber o tamanho. Pra saber se passa.
Rafael não recuou a cadeira. A batina já estava errada no colo.
— E passa.
Diego engoliu.
— Na minha cabeça, passa. O dedo. Depois a língua. Depois o que eu tenho. Eu fico horas nisso, padre. Tranco o quarto. Escondo a roupa. Tem gente na sala e eu estou pensando nesse buraco.
O indicador entrou na fresta. Devagar. Até a junta. Ficou lá.
— É isso que eu imagino. Do lado de cá. O senhor do lado de lá. Eu não ia fazer nada. Só mostrar. Só enfiar até onde dá.
A voz de Rafael saiu baixa.
— Tira a mão, filho.
Diego não tirou na hora. Virou o dedo por dentro da madeira, como quem mede. Aí puxou. A ponta saiu úmida. Escondeu a mão no colo.
— Desculpa. Eu falei demais.
Rafael apertou as coxas. Debaixo da roupa a mão foi só até achar o pau e parar, sem puxar. A respiração falhou no meio da reza. Absolveu depressa. Vai em paz. Não peques mais.
Diego saiu sem olhar a grade. A fresta ainda tinha o calor do dedo. Rafael não se mexeu até a igreja esvaziar. A mão ficou quieta. Doía. Ele deixou doer.
Quinta, cinco da tarde.
Thiago entrou com a camisa de escritório amassada no cotovelo. A voz já vinha cansada antes de ajoelhar.
— Padre. Eu sou o mesmo.
— Fala.
— Essa semana eu estava esperando um rapaz. A gente ia se ver depois da academia. Ele não veio. Deu bolo. Eu fiquei até tarde na rua feito idiota. Voltei pra casa com raiva e com tesão misturado.
Rafael ficou quieto.
— A casa estava quieta. Tinha um homem dormindo fora do quarto. No chão. Sem roupa. A luz da sala acesa. Eu não devia ter chegado perto. Eu sei.
A garganta dele travou.
— Eu ajoelhei do lado. Não quis acordar. Puxei pra boca. Devagar. Ele gemeu dormindo e gozou. Quente. Eu engoli porque não sabia o que fazer com a mão.
Rafael sentiu o rosto arder. Não juntou em voz alta. Só o corpo juntou: sala, tapete, o homem que tinha acordado melado achando que sonhou.
— Foi só a boca?
Thiago encostou a testa na madeira.
— No começo. Depois o corpo dele se mexeu no sono. Empurrou. Eu senti a cabeça no meu lugar. Não soube se fui eu que sentei ou se foi ele que achou. Entrou pouco. Quente. Eu gozei calado pra não acordar a casa. Levantei. Lavei a boca. Fui pro quarto.
— Você se arrepende.
— De magoar a casa, sim. De ter gostado, não. Queria. Não dá. Em casa querem neto. Eu quero isso. É isso.
Rafael absolveu com a voz quebrada. A reza saiu fora de ordem. Thiago fez o sinal da cruz e saiu.
A igreja esvaziou. Rafael não foi pro quarto. Trancou o confessionário por dentro. Levantou a batina ali mesmo, sentado na cadeira de madeira. A mão desceu de uma vez.
Pensou na boca da oficina no fechamento. No tapete molhado. No dedo dentro da grade. No homem dormindo e no outro ajoelhado do lado, engolindo calado. Os quatro se encostaram na mesma imagem. Ele gozou na palma, os dentes no punho da roupa pra não fazer barulho. Limpou no lenço. Ficou sentado até o pau baixar.
Depois foi ao banheiro lavar a mão. No espelho, a mesma cara de menino. Batina nova. Primeira igreja.
Na calçada o letreiro continuava lá.
Confissões — terça e quinta.

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Ficha do conto

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Nome do conto:
Padre Rafael e o confessionário (PARTE 2)

Codigo do conto:
272232

Categoria:
Gays

Data da Publicação:
13/09/2026

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