A nossa rotina virou praticamente essa: transávamos quase todos os dias. Eu entrava no personagem do negão, com a pegada forte, chamando ela de vadia, dizendo que o corno não a comia direito, não como eu. Depois eu diminuía o ritmo e ia devagar, no jeito corno, dizendo que amava ela, que bom que ela tinha chegado, perguntando se tinha vindo direto do trabalho ou se tinha encontrado o macho dela.
De modo geral, ela sempre aceitava. Ouvia, participava — mas de um jeito muito mais passivo. Não puxava a história, só confirmava o que eu falava. Mesmo assim estava ótimo, era muito bom. Eu agradava ela, dava prazer a ela, e depois ficava ali, imaginando. E o melhor: agora eu podia falar em voz alta, podia dizer pra ela.
Aos poucos, esse nosso momento no modo corno foi ficando cada vez menos sexo e cada vez mais diálogo. Eu ficava ali, por cima dela, perguntando: "Então você gosta de negro, amor? Você sente tesão em homem negro?"
Ela foi se soltando cada vez mais, e confessando: "Sim, amor, eu gosto sim. Antes eu não ligava, mas agora fico prestando atenção."
Eu insistia: "Mas que tipo de negro você gosta, amor?" E ela respondia: "Ah, amor, aquele negro mesmo, sabe? Dos lábios bem grandes. Não esses negros que quase parecem brancos. O que me chama atenção é negro de verdade."
Então eu perguntava: "E você tem vontade?" Aí ela ainda tinha um certo receio, um certo medo, e respondia meio na defensiva: "Eu não reparava, não, amor… mas agora eu confesso que fico reparando, sim."
Meu Deus, como era bom ouvir aquilo — minha mulher me dizendo que sim, que ficava reparando nos homens negros por aí. Eu estava feliz. Feliz porque me sentia completo. Estávamos ali, completamente entregues um ao outro.
Mas corno sempre quer mais. O desejo do corno é ser humilhado, a gente gosta disso, vai descendo o nível, parece uma escala sem fim.
Então, certo dia, depois de transarmos do jeito que dava prazer a ela — forte, rápido, com os xingamentos —, ao terminar eu não fiquei por cima. Deitei ao lado dela e continuei no mesmo clima, mas agora deitado ao lado dela, no meu canto, com o pau na mão batendo punheta sozinho — que é o que o corno mais gosta de fazer.
Ali do lado, a minha mulher linda, maravilhosa, completamente nua, e eu poderia fazer o que quisesse com ela. Mas não. O que eu preferi? Ficar na punheta. Cara, tem que ser muito corno pra escolher isso.
Ela me olhou sem entender nada: "Ué, não quer mais continuar? Eu fiz alguma coisa?"
Eu disse: "Claro que não, meu amor. É que eu não mereço ficar te incomodando. Eu sei que não sou suficiente. Preciso aceitar o meu papel de corno, preciso aceitar que você é demais pra mim. Sei que, pra te dar prazer de verdade, tem que ser homem de verdade, tem que ser macho. E eu sei o quanto sou frouxo. Então preciso aprender a ficar no meu lugar."
Ela me olhando, e eu ali, de um jeito patético. Que homem em sã consciência quer isso? Tem que ser muito corno. E quanto mais o tempo passava, mais excitado eu ficava.
Mas o que eu queria mesmo era ouvir ela confirmar. Então perguntei: "Não é, amor? Eu não preciso aprender qual é o meu lugar?"
Ela puxou a coberta, se cobriu, se aconchegou e disse: "É, amor… realmente, quando você fica muito tempo em cima de mim assim, minhas costas começam a doer. Então é melhor mesmo. Que bom que você entende."