A rotina do pai voltou a preencher a casa com suas ausências. As malas reapareciam no hall de entrada às segundas-feiras, o terno passado a rigor pendurado na porta do guarda-roupa, o beijo superficial na testa de Júlia antes de cada partida. Ela aprendera a ler naqueles gestos automáticos o mapa de um afeto desgastado, e já não esperava mais do que aquela pontualidade fria.
As noites de Júlia com o marido eram um exercício de paciência. Ele a procurava com uma regularidade quase burocrática, sempre aos sábados, sempre no mesmo horário, como quem cumpre uma obrigação contratual. O sexo era breve, mecânico — o pau pequeno, a pressa de quem quer terminar logo, o gozo rápido que vinha antes mesmo que ela pudesse sentir qualquer coisa que se parecesse com prazer. Ele ofegava por cima dela, soltava um gemido abafado no travesseiro e rolava para o lado, deixando-a ali, estirada na cama, com os olhos abertos para o teto escuro. Era o único homem que ela conhecera na vida, e por muito tempo acreditara que aquilo era o sexo — uma obrigação silenciosa, uma moeda de troca pela segurança do lar.
Mas agora, depois daquela manhã, algo se quebrara dentro dela. A internet e os filmes de pornografia a que ela se entregava nas horas de solidão, havia tempos, plantaram uma semente de comparação venenosa em sua mente. Não era algo repentino, mas uma erosão lenta, invisível — a cada vídeo, a cada cena, a semente germinava um pouco mais, até que não havia mais como ignorá-la. As imagens que vira na tela — o fortão, a magrinha de quatro, o soco forte e ritmado — eram apenas o reflexo de um desejo que vinha sendo alimentado há muito tempo. Não era a violência daquela cena que a atraía, mas a entrega, a intensidade, a duração. O fato de a mulher na tela ter tempo de sentir, de gemer, de chegar ao fim. Com o marido, tudo se extinguia antes mesmo de começar.
Ela nunca dissera nada. Submissa como sempre fora, aceitava a frustração como parte do acordo tácito de seu casamento. Mas o corpo, esse traidor, guardava as contas de tudo o que não recebia.
Uma semana depois do ocorrido, Pedro notou a ausência. O computador de Júlia havia simplesmente sumido do escritório. A mesa dela, antes ocupada pelo laptop e pelos fones de ouvido, agora estava limpa e vazia, como uma página em branco. Ele imaginou que ela o tivesse escondido em algum canto do quarto, trancado a sete chaves. Era a prova viva de seu segredo, e ela a enterrara longe dos olhos dele.
Mas as imagens, no entanto, continuavam gravadas em sua retina, e ele as acessava sempre que fechava os olhos.
Com o pai viajando novamente, Pedro, 18 anos, começou a mudar sua rotina. As aulas, que antes o mantinham ocupado até o fim da tarde, agora perdiam a prioridade. Ele passou a sair mais cedo, inventando horários flexíveis que a escola nem sempre oferecia. Às vezes, chegava em casa antes do meio-dia, a tempo de sentar-se à mesa para o almoço — algo que antes nunca fazia.
— Hoje você chegou mais cedo — dizia Júlia, sem encará-lo, enquanto colocava a travessa de arroz sobre a mesa.
— As aulas terminaram antes — mentia ele, acomodando-se na cadeira com uma naturalidade ensaiada.
E então ele a observava. Enquanto ela se movia pela cozinha, servindo a comida, pegando os talheres, inclinando-se para pegar um copo no armário alto — Pedro a devorava com os olhos. O vestido leve que ela usava, sempre discreto, agora parecia um convite quando o tecido se esticava sobre as curvas de seu quadril. O movimento de seus braços, o balançar de seus cabelos, a forma como seus dedos finos seguravam a concha de servir: cada gesto seu era registrado por ele com uma avidez silenciosa.
Ele se pegava imaginando o que havia por baixo daquele vestido. Não o via desde a manhã do choque, quando ela estava sentada, nua da cintura para baixo, com o vibrador entre as pernas. Aquela imagem o perseguia como uma assombração bem-vinda, e agora ele a alimentava com novos detalhes — o contorno dos seios sob o tecido, a linha da calcinha que às vezes se insinuava quando ela se abaixava.
Júlia sentia aquele olhar como uma pressão física sobre a pele. Era um peso que a acompanhava da cozinha à sala, do corredor ao quintal. Ela tremia levemente ao passar por perto dele, suas mãos suavam ao servir o café. E, no fundo, havia uma parte dela que não queria que aquele olhar cessasse — porque era a única coisa que a fazia sentir-se viva, vista, desejada.
O pai a via como um móvel confortável. Pedro a via de outra forma — uma forma que a assustava e a atraía ao mesmo tempo.
Durante o dia, sozinha na casa vazia, Júlia remoía o medo de que Pedro contasse tudo, de que sua vida confortável desabasse. Mas, ao mesmo tempo, quando ele chegava mais cedo e sentava-se à mesa com aquele olhar faminto, seu coração acelerava de um modo que ela há muito não sentia.
Ela se esforçava para manter a fachada de normalidade. Durante o café da manhã, perguntava sobre os estudos; durante o jantar, falava sobre o clima e a comida. Mas suas palavras saíam ocas, como se estivesse lendo um escrito por outra pessoa. O que realmente importava — o segredo que os unia — ficava suspenso no ar entre eles, invisível mas tangível, como o cheiro de chuva que antecede a tempestade.
Pedro, por sua vez, havia intensificado seus rituais solitários. Agora, depois de cada almoço em que a observava, ele voltava para seu quarto e se entregava à masturbação com uma fúria renovada. A punheta que antes era um escape ocasional tornara-se uma necessidade diária, quase uma obsessão. Ele fechava os olhos e via o corpo de Júlia em cada posição imaginável — o vestido levantado, as pernas abertas, a boca entreaberta em gemidos que ele nunca ouvira, mas que sua mente criava com precisão cruel.
Ela sabia que ele fazia isso. Não porque tivesse visto, mas porque sentia. A tensão sexual que emanava dele era tão palpável quanto o calor do fogão. Quando Pedro passava por ela no corredor, sua respiração mudava; quando ele a encarava à mesa, seus dedos tamborilavam na madeira como se estivessem ensaiando um toque.
Júlia começou a evitar certos ambientes. Não usava mais vestidos muito leves em casa; passou a usar roupas mais fechadas, como uma armadura contra aquele olhar. Mas, paradoxalmente, em alguns momentos, ela se pegava arrumando o cabelo antes de sair do quarto, ou usando um perfume mais suave, como se, no fundo do poço de sua confusão, quisesse ser vista, mesmo que por ele.
O computador estava escondido, o segredo estava enterrado, mas o olhar de Pedro continuava ali, nu e insistente, desafiando as paredes que ela tentava erguer.
Os dias seguintes tornaram-se um jogo de gato e rato. Ele chegava mais cedo, ela inventava tarefas para se manter ocupada. Ele a observava, ela desviava o olhar. Mas em cada refeição, em cada corredor, em cada respiração compartilhada, o fio invisível que os unia se apertava um pouco mais.
Júlia, na calada da noite, deitada ao lado do marido que dormia com o ronco leve e a consciência tranquila, revivia a cena do escritório em looping. Via o rosto de Pedro na penumbra, via sua própria mão segurando o vibrador, via o jato de sêmen atingindo a tela. E, no meio do desespero, sentia um calor estranho subir por seu ventre — um calor que ela odiava sentir, mas que não conseguia negar.
O computador estava guardado no fundo do armário, embrulhado em roupas velhas, como um corpo que se quer ocultar. Mas as memórias que ele continha — os vídeos, as pesquisas, as fantasias — estavam vivas dentro dela, mais vivas do que nunca.
E agora, Pedro era a extensão viva daquelas fantasias. Um erro. Uma ameaça. Uma tentação disfarçada de adolescente.
Ela passava os dias alternando entre o pânico de ser descoberta e a estranha excitação de ser desejada. Era um equilíbrio instável, como andar sobre uma corda bamba sobre um abismo.
pedrobo1960