Às 16h, o autocarro do Largo da Independência até ao Cazenga não é transporte, é uma prova de resistência. Entrei pela porta de trás, empurrada por uma multidão que cheirava a catinga, perfume barato e a fim de dia, e fui parar num canto do fundo, de costas coladas ao meu colega de turma, e Bastos estava a ser empurrado contra mim pelo resto da viagem.
— Tranquilo? — perguntou ele, com a boca encostada à minha orelha, porque não havia espaço para mais nada.
— Estou apertada. Num tás a ver mesmo?
— Isso é bom ou mau?
— Depende de onde apertas. ??
Ele sorriu, aquele sorriso torto de quem sabe que vai arranjar problemas. Tinha as mãos agarradas à barra do tecto, o peito colado a mim, a coxa dele entre as minhas pernas, sem culpa nenhuma, empurrado por um senhor de pasta que gritava "mais para dentro, por favor!". O autocarro passou uma lomba com um salto e o corpo do Bastos encaixou no meu de uma maneira que nenhum dos dois planeou. Ou que os dois planearam, mais fingi não perceber.
Eu usava um vestido largo, daqueles que escondem tudo e também permitem tudo. Senti a mão dele descer da barra para a minha cintura, devagar, como quem só procura equilíbrio. Depois desceu mais um bocadinho. Depois deslizou para o interior da minha coxa, por baixo do vestido, e eu mordi o lábio para não fazer barulho nenhum.
— Bastos — avisei, sem mexer a boca. — Tem muita gente aqui. Não quero pecar.
— Eu sei. — A voz dele era um sopro. — É por isso que tu estás toda molhada?
Ele tinha razão, o idiota. Tinha razão e sabia, e a mão subiu o resto do caminho, os dedos a encontrarem-me por cima do tecido, a fazer círculos lentos, a ler a minha respiração como quem lê um mapa. À minha frente, uma senhora de saco de compras discutia o preço do peixe com a vizinha. Atrás de mim, o pau cutucando minha bunda.
— Não faças barulho — murmurou. — Se alguém reparar, acabou. Vou meter a cabeça ??
...
— Acaba o quê?
Já dizia palavras com palavra. Estava bem tonta.
— A cabeça.
O autocarro travou num semáforo e toda a gente balançou para a frente. Aproveitei o balanço e empurrei meu rabo para traz, entrou tudo. Ele fechou os olhos um segundo. Quando abriu, tinha a pupila toda dilatada.
— Tu és doida — disse, rouco.
— Aprendi contigo. Agora dá um jeito de me foder sem ninguém perceber. — Agora rema — pedi, sem voz.
Entrou em mim num movimento só, lento, quase invisível, a coxa dele a ajudar-me a subir meia ponta de pé. Tive de morder-lhe o pulso, por cima da camisa, para abafar o gemido. Ele agarrou-me o quadril, a outra mão voltou à barra do tecto, e começámos a mexer-nos como se fôssemos só dois passageiros a balançar com as curvas da estrada.
Foi o melhor e o pior sexo da minha vida: sem poder gritar, sem poder respirar fundo, sem poder fechar os olhos porque se os fechasse ia gemer. Cada buraco na estrada fazia o trabalho por nós. Cada travagem empurrava-o mais fundo. A senhora do peixe virou-se uma vez, olhou para mim, e eu sorri-lhe a fingir que era de enjoo. Ela deu-me um tapinha de simpatia no braço e voltou à conversa.
— Quase... — arfei, ao ouvido dele.
— Aguenta.
— Não consigo...
— Consegues. — E apertou-me o quadril com mais força. — Só mais uma paragem.
Chegámos juntos à Mutamba, a tremer dos pés à cabeça, eu com os dentes cravados no tecido da camisa, e ele com o rosto escondido no meu cabelo, os dois a respirar como se tivessem corrido uma maratona. O autocarro parou, a porta abriu-se, metade das pessoas saiu, e de repente havia ar e espaço entre nós. Arranjei o vestido num segundo. Ele fechou o cinto sem olhar para ninguém.
Sentámo-nos num banco vazio, lado a lado, de pernas ainda a tremer. Ele passou-me o braço pelos ombros, como um casal normal de regresso do trabalho.
— Para a semana — sussurrou — vamos de táxi.
— Táxi é pior. O cobrador olha.
— Então vamos de autocarro outra vez.
Dei-lhe uma cotovelada na costela, a rir sozinha, de cara encostada à janela, a ver Luanda passar lá fora como se nada tivesse acontecido.

