Ouro Preto é uma cidade que te esmaga contra o chão; cada subida é uma penitência. Minha barba ruiva, emaranhada e suja de óleo, era meu escudo. Até que entrei naquela barbearia.
O Velho Mário não estava. No lugar dele, um rapaz. Ítalo.
Ele é o oposto do meu mundo de sucata. A pele negra, polida como ébano, e aquela barba... um traço perfeito, uma navalha desenhada no rosto. Quando ele me mandou sentar, o couro da cadeira rangeu como se soubesse do meu pecado. Fechei os olhos. Senti os dedos dele. Eram finos, mas fortes. Ao massagear minha cara com a espuma quente, Ítalo não estava apenas preparando o pelo; ele estava me despindo.
Saí de lá liso. Vulnerável. Com o rastro do polegar dele marcado no meu lábio.
Passei três dias no inferno. Sob o chassi de um Scania, o teto de ferro parecia que ia me esmagar. Eu fechava os olhos e não via as peças do motor; via o volume por baixo do brim de Ítalo enquanto ele se inclinava sobre mim. A imagem latejava como um dente podre. Eu precisava daquele toque. Não era a barba que me faltava; era a mão dele.
No quarto dia, a febre venceu. Subi a ladeira com o coração batendo na garganta. Inventei que o contorno estava torto. Mentira. Eu só queria a cadeira.
Ítalo estava sozinho. O silêncio dele é uma sentença. Deitei a cabeça. Quando ele se aproximou, não aguentei. Movi o braço, um gesto de bêbado, e meu cotovelo encontrou o que eu buscava. Era firme. Quente. Um monstro adormecido entre as pernas dele. Ítalo não recuou. Ele se pressionou contra mim. A navalha na minha garganta era o menor dos perigos.
O som do metal batendo na pia foi o fim do disfarce. Ele trancou a porta. O clique da fechadura foi o som mais bonito que ouvi em Ouro Preto.
Quando ele abriu o cinto, o mundo lá fora morreu. Ítalo se libertou do brim. Vi aquela ferramenta escura, imponente, pulsando diante dos meus olhos de mecânico acostumado com a frieza do aço. Toquei. Era vida pura.
Ele me virou de bruços. Minha cara foi esmagada contra o couro frio da cadeira. Senti a invasão bruta. Um mergulho no meu escuro. A dor era um batismo de fogo, rasgando o homem direito que eu fingia ser. Ele se movia com a cadência das montanhas, pesado e inevitável. A barba dele roçava minha nuca — o atrito do áspero com o áspero. Suor e graxa se misturaram na madeira do chão.
No ápice, ele me marcou. Retirou-se e banhou minhas costas com um jato de leite quente e farto. Um sacrifício oferecido no altar daquela barbearia trancada.
Vesti a camisa por cima da prova do crime. Saí para a rua. Desci as ladeiras sentindo o peso do segredo e a leveza do corpo. As velhas nos batentes das janelas me olhavam com seus olhos de coruja, tentando entender o sorriso que eu não conseguia apagar. Elas se benziam. Que se benzam. Elas têm as imagens de gesso nas paredes. Eu tenho o batismo de Ítalo nas minhas costas.