Homens Usam Barbas: conto 1 Minha vida cabe dentro de um porta-retratos de prata sobre a mesa de mogno. Cristina sorri, Pedro sorri. Eu? Eu opero. O bisturi é a única coisa que não me julga. Dez anos de um casamento que é um contrato de silêncios bem lavados e engomados. O cheiro da minha casa é de amaciante e desinfetante de pinho. É um cheiro que me sufoca. Três dias atrás, eu fugi. Estacionei o Santana longe do centro. Entrei num bar onde a luz não tem cor e o garçom não tem nome. Eu só queria um uísque barato e o direito de não ser o "Dr. Alexandre" por uma hora. Foi quando o vi. Ele tinha o frescor que eu perdi em algum plantão de 1992. Uma barba negra, densa, que parecia uma provocação contra a minha própria, já começando a grisalhar. Quando lhe dei o fogo para o cigarro, nossas mãos se tocaram. Foi um curto-circuito. Ele me olhou como se soubesse que aquele anel de ouro no meu dedo pesava uma tonelada. — Aqui sou apenas um homem cansado — eu disse. Ele não riu. Ele entendeu. Hoje, ele cruzou a porta do meu consultório. Luciano. O nome dele tem gosto de pecado. — Tire a camisa — eu disse, e minha voz soou como se viesse de outro corpo. Ver Luciano se despir foi como ver a verdade sendo desembrulhada. A pele dele, branca, sem as marcas do tempo, era um insulto à minha decência. Quando encostei o estetoscópio no peito dele, não ouvi batimentos; ouvi um chamado. O metal estava frio, mas ele ardeu. Minha mão subiu, por vontade própria, e tocou aquela barba. O atrito dos fios ásperos na ponta dos meus dedos foi o gatilho. Eu o beijei. Um beijo nervoso, com gosto de café frio e desespero. Um encontro de duas barbas, de dois segredos. O corpo dele reagiu, o volume na calça denunciando que ele estava tão perdido quanto eu. O barulho na porta nos separou. A secretária. A realidade batendo com os nós dos dedos na madeira. — Aqui não — murmurei, enquanto ele vestia a camisa amassada. — As paredes do hospital têm olhos. Agora estamos no carro. O silêncio entre nós dois é um bicho vivo. No bolso, sinto a chave da chácara. É uma chave velha, enferrujada, mas é a única que abre a porta para quem eu realmente sou. Olho para o lado e vejo o perfil de Luciano contra a luz dos postes da estrada. Penso na Cristina, no Pedro, no jantar que vai esfriar. Mas sinto o cheiro da barba dele e sei que, pelos próximos minutos, nada mais no mundo faz sentido. Vou deflorar esse rapaz, e ele vai me destruir. E é exatamente disso que eu preciso para me sentir vivo. A estrada para a chácara é um deserto de asfalto e faróis baixos. O silêncio no carro não é vazio; é denso, carregado como o ar antes de uma tempestade de verão. Luciano ao meu lado é uma presença elétrica. Sinto o calor que emana dele, o cheiro de juventude que briga com o couro dos bancos do Santana. Quando a chave range na fechadura da porta velha, o som ecoa na minha espinha. Entramos. O escuro é absoluto, mas meus dedos conhecem o caminho. Não acendo as luzes. A escuridão é a nossa única aliada, o único véu que resta. — Alexandre... — ele sussurra. Não respondo com palavras. Puxo-o pela nuca, meus dedos se perdendo no cabelo curto e denso. O beijo agora não é nervoso como no consultório; é uma fome técnica, uma urgência de quem está morrendo de sede. Nossas barbas se atritam — um som áspero, quase um fogo que se inicia pelo contato físico. É a lixa da masculinidade contra a lixa da masculinidade. No quarto, retiro o lençol que cobre a cama. O cheiro de pó e abandono é o perfume da nossa liberdade. Começamos a nos despir. O som do zíper descendo é um tiro no silêncio. Quando nossas peles finalmente se encontram, sinto um choque que percorre cada terminação nervosa que estudei nos livros de anatomia. O peito dele contra o meu. O suor começa a brotar, uma película fina que nos torna escorregadios, viscerais. Eu o deito. O toque da minha mão na virilha dele o faz arquear as costas. Luciano é branco, marmóreo sob a luz da lua que vaza pela fresta da janela. Meus dedos exploram, preparam, reconhecem o território. Quando inicio a penetração, sinto a resistência dele — a dor do novo, o batismo. Ele solta um gemido que é metade agonia, metade alívio. Eu me sinto um animal, um homem que finalmente soltou as amarras da civilidade. O suor dele pinga no meu peito; o meu se mistura ao dele. É uma comunhão de fluídos e desespero. Mas Luciano não é apenas terra conquistada. Ele se vira, os olhos em brasa, e me reivindica. Ele me domina com uma força que eu não esperava. Quando ele me penetra, a dor é um relâmpago que rasga minha consciência de médico, de pai, de marido. É uma dor necessária. É o peso da realidade sendo empurrado para dentro de mim. Sinto a barba dele roçando minhas costas, o hálito quente no meu pescoço enquanto ele se move. Cada estocada é um "não" para a Cristina, um "não" para a clínica, um "sim" para a vida que eu escondi por trinta e cinco anos. A felicidade é uma explosão curta, violenta e ofegante. Por um momento, enquanto nossos corpos se debatem no colchão velho, eu não sou o Dr. Alexandre. Eu sou apenas um homem. Um homem que usa barba e que, pela primeira vez em décadas, não está fingindo nada. O orgasmo vem como uma libertação, um grito abafado no travesseiro de penas, um cansaço que é a coisa mais doce que já senti. Ficamos ali, enrolados um no outro, o suor esfriando, as respirações voltando ao normal. O tesão ainda vibra, mas a paz — aquela paz suja e maravilhosa do pecado — finalmente se instala. …
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