Na manhã seguinte, a luz do dia entrou pelos estores como um juiz implacável. André acordou primeiro, com uma dor de cabeça latejante…cheirava a café e torradas… o aroma vinha da cozinha…
No quarto ao lado, Silvio despertou e também movido por aquele aroma se dirigiu para a cozinha…
O sol da manhã entrava pelas frestas dos estores, implacável, iluminando cada detalhe da sala de estar que agora parecia um cenário de um sonho estranho e turvo. André despertou primeiro, uma dor de cabeça latejante martelando suas têmporas. O cheiro de café fresco e torradas douradas pairava no ar, um contraste quase cruel com o gosto amargo que tinha na boca. Ele se levantou devagar, o corpo pesado, a mente um turbilhão de imagens fragmentadas da noite anterior.
Na cozinha, Diana estava de pé diante do fogão. Seus movimentos eram precisos, mecânicos, mas seus olhos, quando se voltaram para seu genro André, estavam frios como pedra gelada. Ela não disse uma palavra. Apenas o observou enquanto ele se arrastava até a mesa, e naquele olhar silencioso havia uma reprovação tão densa que quase tinha peso físico. André desviou o olhar, uma pontada de vergonha queimando seu estômago vazio. Ele nem sequer imaginava. Lembrava-se apenas dos gemidos abafados, da pressão, da rendição forçada no escuro do quarto. O corpo dela doía, cada movimento era um lembrete, e ela carregava essa dor como um manto invisível, deixando que seu olhar falasse por ela.
Silvio entrou na cozinha, atraído pelo mesmo aroma reconfortante. Seu rosto estava pálido, os olhos um pouco inchados.
“Bom dia,” murmurou, sua voz rouca. Ele puxou uma cadeira ao lado de André, evitando igualmente o olhar de Diana. O ar entre os três estava carregado, eletrizado por segredos não ditos e fronteiras violadas.
Foi então que Rosa apareceu na porta da cozinha. Ela estava envolta em um roupão de seda que parecia ter sido amarrado às pressas. Seu cabelo, geralmente impecável, caía em ondas desalinhadas sobre seus ombros. Havia uma languidez diferente em seus movimentos, uma espécie de satisfação cansada que era impossível de esconder. E quando ela se moveu para pegar uma xícara de café, o roupão entreabriu-se levemente, revelando, por um segundo fugaz, um traço pálido e seco na pele interna de sua coxa.
André não quería acreditar. Seu coração deu um salto no peito, e então afundou como uma pedra. Silvio, sentado ao seu lado, prendeu a respiração. Seus olhos, também, haviam capturado aquele sinal revelador. Eles não sabiam que o “sêmen incestuoso”, como um fantasma do ato proibido, ainda marcava a pele de Rosa. Era a prova física, obscena e inegável, daquilo que a noite de vinho e desejo desencadeado havia consumado.
Ninguém falou. O som do café sendo servido parecia absurdamente alto. Rosa pegou sua xícara, seus dedos tremendo levemente, e seus olhos encontraram os de Silvio por uma fração de segundo. Não havia arrependimento nela. Havia um desafio, um brilho perigoso e possessivo que fez o sangue de Silvio esfriar. Era o olhar de quem havia reivindicado algo que nunca deveria ter sido tocado.
Diana, observando a troca silenciosa, colocou o pão com manteiga na mesa com um baque surdo. A dor em seu corpo era uma coisa; a traição que via se desenrolar diante de seus olhos era outra. Ela não era apenas uma vítima da noite; era uma testemunha da desintegração de algo muito maior.
O café estava amargo. As torradas, insípidas. A refeição prosseguiu em um silêncio opressivo, pontuado apenas pelo tilintar dos talheres e pelo ranger das cadeiras. Cada um estava preso em sua própria prisão de culpa, desejo, raiva e confusão.
André olhou para Diana, tentando encontrar nas profundezas de seus olhos frios um vislumbre do amor que um dia existira. Encontrou apenas um muro. Ele olhou para Rosa, cuja beleza agora parecia venenosa, e para Silvio, seu melhor amigo, cujo rosto estava marcado por um horror silencioso e uma atração proibida que não conseguia negar.
A luz do sol, o juiz implacável, banhava a cena, expondo cada fissura, cada mentira, cada marca secreta. A casa, outrora um lugar de amizade e risos, agora era um campo de batalha silencioso, e o dia que se iniciava prometia ser longo e insuportavelmente claro. O preço do prazer da noite havia chegado, e era servido com o café da manhã, frio e intragável.
A Barriga do segredo
Duas semanas se passaram e Rosa passou na farmacia…chegando a casa não podía esperar mais…o teste de gravidez estava nas mãos de Rosa, tremendo como uma folha de outono. Duas linhas rosadas, definitivas, inapeláveis. Ela sentou-se no chão frio do banheiro, a testa apoiada contra a porta, enquanto a realidade a afogava como uma maré negra.
—Grávida! Grávida do próprio pai!
As memórias daquela noite voltaram como um furacão—a festa de aniversário de Silvio, o vinho que fluía como um rio, a tristeza profunda que a consumia após uma discussão com André, e depois... o quarto escuro, os beijos que sabiam a pecado e a sal, o corpo que deveria representar proteção transformado em uma armadilha de desejo proibido. Ela se lembrava de ter tentado afastá-lo, de ter murmurado apenas em seus pensamentos quando este se vinha… "pai, não", mas as palavras se perderam no álcool dele e na sua própria solidão desesperada. E ele... ele não parou de bombear todo seu sémen dentro…
Agora, uma vida crescia dentro dela. Uma vida concebida no incesto. Uma criança que carregaria para sempre a marca desse segredo monstruoso.
Enquanto isso, outra memória a assombrava—uma memória que ela mesma havia arquitetado. Agora em que, movida por um ciúme doentio e uma curiosidade perversa, servira a bebida especialmente preparada para sua sogra, Diana, e para André. Ela os observara sua mãe Diana aos beijos com seu marido André de longe, no terraço da casa de veraneio, os corpos gradualmente cedendo ao efeito do álcool e do remédio que ela misturara. Depois, desligara as luzes do quarto de hóspedes e os deixara lá, confusos, quentes, vulneráveis. Na manhã seguinte, a expressão de culpa e confusão no rosto de André foi sua pequena e amarga vitória. Diana nunca mencionou o ocorrido, mas o olhar dela, nas semanas seguintes, tinha uma nova sombra de vergonha.
Rosa estava agora presa em uma teia de sua própria criação. Duas transgressões profundas—uma da qual foi vítima e outra da qual foi perpetradora—entrelaçavam-se em seu ventre.
Os primeiros meses foram um turbilhão de náuseas e pânico silencioso. Ela evitava Silvio, que parecia igualmente atormentado, seus olhos buscando os dela em reuniões familiares com um misto de terror e algo mais primitivo que ela se recusava a nomear. Com André, ela intensificou a intimidade, tentando criar um álibi cronológico plausível no futuro. "Talvez tenha sido naquela noite na cabana, lembra?", sussurrava ao ouvido dele, tecendo memórias falsas com fios de verdade.
A barriga crescia, redonda e firme, um monumento público ao seu segredo privado. Cada chute era um lembrete. Cada exame de ultrassom, uma tortura. Ela estudava freneticamente características genéticas, rezando para que os traços dominantes de André—seus olhos claros, seu cabelo ondulado—vencessem a batalha silenciosa dentro de seu útero.
O parto foi longo e doloroso, mas o sofrimento físico era um alívio comparado ao terror que a consumia. Quando a enfermeira colocou o bebê em seus braços, Rosa sentiu o mundo parar.
Ele tinha uma cabeça cheia de cabelos negros como ébano—exatamente como os de seu pai Silvio. E os olhos, ainda embaçados pelo mundo novo, pareciam prometer a mesma forma amendoada. Mas o nariz... o nariz era delicado, como o de André. E a boca, talvez, lembrava a dela.
"É lindo", André chorou, beijando sua testa suada. "Parece tanto com você, Rosa."
Ela sorriu, um sorriso frágil de alívio instantâneo. O bebê não era uma cópia de Silvio. Era uma mistura. Uma colcha de retalhos genética onde talvez, apenas talvez, a verdade pudesse se esconder.
As semanas seguintes foram preenchidas com visitas familiares. Marta segurou o neto com uma ternura inesperada, seus olhos evitando os de Rosa. Silvio veio no décimo dia. Quando ele pegou o bebê, suas mãos tremiam. Ele olhou para o rosto pequeno por um longo tempo, seu próprio rosto uma máscara pálida.
"Ele tem... os olhos da minha mãe", Silvio disse finalmente, a voz rouca. "O mesmo formato. Ela também tinha esse cabelo escuro quando era bebê."
Foi uma âncora. Uma explicação genética que não levantaria suspeitas. A avó paterna, falecida há anos, tornou-se o escudo involuntário do segredo.
Rosa adotou a narrativa. "Sim, vejo muito a vovó Lúcia nele", dizia aos amigos, aos familiares. Cada vez que repetia a frase, sentia um gosto amargo na boca.
Mas segredos como esse têm peso. Eles curvam espinhos. Rosa começou a ter pesadelos. No mais recorrente, o bebê crescia e se transformava em Silvio, apontando para ela e acusando-a com um olhar adulto em um rosto infantil.
A relação com André tornou-se uma fachada cuidadosamente mantida. Ele era um pai dedicado, um marido presente, mas a culpa de Rosa pela noite com Marta e o horror da noite com seu pai criaram um abismo intransponível. Ela se retraía quando ele a tocava, inventava dores de cabeça, mergulhava na obsessão de ser a mãe perfeita para a criança que carregava sua culpa e seu trauma.
Silvio, por sua vez, afastou-se. Vendeu a casa grande e mudou-se para uma cidade distante, citando uma oportunidade de trabalho. O dinheiro começou a aparecer na conta de Rosa—depósitos generosos, anônimos, sempre com a mesma descrição: "Para o futuro dele". Era uma pensão de vergonha, um tributo ao pecado.
O bebê, que ela e André chamaram de Rui, crescia saudável e alegre. Seus traços continuaram uma mistura intrigante. Às vezes, Rosa olhava para ele e via apenas seu filho, puro e inocente. Outras vezes, num certo ângulo de luz, a sombra de Silvio era tão clara que ela tinha de sair da sala para respirar.
Uma tarde, quando Rui tinha quase dois anos, Diana veio visitar. Enquanto brincavam no jardim, o menino tropeçou e caiu. Antes que Rosa pudesse reagir, Diana correu e o pegou no colo, cantarolando uma canção antiga. Naquele momento, com a luz do entardecer dourando seus cabelos grisalhos, Rosa viu algo na expressão de sia mãe Diana—não a vergonha daquela noite manipulada, mas uma tristeza profunda e uma aceitação silenciosa.
—"Ele é uma bênção, Rosa", Diana disse depois, com Rui já dormindo no carrinho. —"Não importa o que aconteceu antes. Não importa os erros que cometemos. Ele é uma bênção."
Rosa não teve certeza se sua mãe Diana estava falando apenas do neto ou se, de alguma forma, ela havia intuído mais do que deixava transparecer. Mas naquele momento, pela primeira vez desde ver as duas linhas no teste, Rosa sentiu um fio tênue de esperança. Talvez o amor por aquele menino pudesse, com o tempo, curar algumas das feridas. Talvez a verdade pudesse permanecer enterrada, não como um veneno, mas como um fóssil inofensivo.
Ela pegou em Rui no colo, cheirando seu cabelo macio que, sim, era igual ao de Silvio. Mas o cheiro era puro, infantil, inocente. Era o cheiro do seu filho.
O caminho à frente seria longo e cheio de sombras. Ela carregaria o peso das duas noites—uma como vítima, outra como algoz—para sempre. Mas ali, com o calor do filho contra seu peito e a presença silenciosamente solidária de Marta ao seu lado, Rosa percebeu que sua história não era apenas uma de pecado e segredo. Era também, agora, uma história de amor materno—um amor que, ela jurou para si mesma, seria tão forte e protetor que nenhuma verdade do passado poderia jamais machucar o futuro daquela criança.
O sol se punha, pintando o céu de laranja e rosa. Rosa segurou Rui mais perto e respirou fundo, decidida a escrever, dali em diante, apenas capítulos de luz.